User Tools

Site Tools


estudos:merleau-ponty:homenzinho-dentro-do-homem-vi

HOMENZINHO DENTRO DO HOMEM (VI)

MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1964.

  • Ponto de partida: a fé perceptiva como embaraço e como recurso
    • A “fé perceptiva” lança o sujeito em embaraços (dúvida, inconsistências, tensão entre visível e dito).
    • Contudo, para sair desses embaraços não há outro recurso senão a própria experiência do mundo.
    • Esta experiência é um “mistura com o mundo” que recomeça a cada manhã e persiste como fluxo contínuo.
    • O comércio com o mundo não se reduz ao par pensamento/objeto: há um vínculo mais originário.
  • Crítica da relação cogito–cogitatum como modelo insuficiente
    • A relação entre pensamento e objeto (do cogito ao cogitatum) não contém o todo nem o essencial do nosso comércio com o mundo.
    • Ela repousa sobre uma “iniciação” já feita: uma abertura ao mundo anterior ao retorno reflexivo.
    • É necessário substituir o modelo reflexivo clássico por uma relação “mais surda” com o mundo.
    • Essa relação primária é nomeada: abertura ao mundo.
  • Paradoxo do compreender: suspender para explicitar
    • Para compreender o ver e o sentir, é preciso deixar de os acompanhar no visível/sensível onde “se lançam”.
    • Compreender exige suspender o dado: interromper o dom total da visão ingênua.
    • Traduzir o ver em significações disponíveis retira algo do contato imediato.
    • Entretanto, essa suspensão visa “rendre le texte”: não é negação do visível, mas caminho para reconquistá-lo no expresso.
  • Filosofia não como tradução exterior, mas como explicitação dependente do texto
    • O visível não está ao lado da explicitação como um texto ao lado de uma tradução em língua estrangeira.
    • Se fosse um texto, seria um texto estranho: dado a todos diretamente, permitindo confrontar a filosofia com ele.
    • A filosofia é “mais e menos” que tradução:
      • mais: porque explicita o que o visível quer dizer;
      • menos: porque é inútil sem o texto perceptivo disponível a todos.
    • A visão bruta permanece modelo e medida: a rede conceitual deve abrir de volta sobre ela para a reconquérir.
  • Recusa da redução cartesiana: de “perceber” a “pensar perceber”
    • O filósofo não deve supor inexistente o que é visto ou sentido.
    • Reduzir percepção à “pensée de percevoir” busca segurança na imanência.
    • Essa segurança custa caro: renuncia-se a compreender o mundo efetivo e perde-se o “il y a” do mundo.
    • A certitude imanente é inexpugnável, mas estéril quanto ao existir do mundo.
  • Diagnóstico do estatuto do doute: ou impotente, ou militante, e então ato
    • Se o doute é só dilaceração e obscuridade, nada ensina.
    • Se ensina algo, é porque é deliberado, militante, sistemático: logo é um ato.
    • Então o “algo” que resiste ao doute é da ordem dos atos, e o sujeito fica encerrado nesse regime.
    • Isso desloca a filosofia para uma esfera onde o mundo como “há” não pode mais ser reencontrado.
  • A “illusion des illusions”: espiritualização retrospectiva da percepção
    • Ilusão central: crer que sempre fomos certos apenas de nossos atos.
    • Consequência: a percepção vira inspeção do espírito; a reflexão vira percepção voltando a si.
    • A coisa torna-se “feita” de saber-de-si; a reflexão pareceria revelar um “liant” já sempre presente.
    • Essa espiritualidade substitui pertença ao mundo por sobrevoo do mundo.
  • Crítica do postulado de identidade do pensado ao deslocar a atenção
    • A evidência aparente do “survol” depende de um postulado ingênuo:
      • que é “sempre a mesma coisa” que eu penso quando a atenção muda de foco.
    • Esse postulado é importado da experiência exterior:
      • as coisas parecem manter-se as mesmas enquanto me aproximo para vê-las melhor.
    • Mas essa garantia vem do corpo como “appareil à voir”, ciência sedimentada do ponto de vista.
    • Logo, a estabilidade que alimenta a explicitação é sustentada pela vida perceptiva do corpo.
  • Primazia da vida perceptiva corporal: condição de toda objetividade
    • A vida perceptiva do corpo não é conhecimento de relações inter-objetivas entre corpo e coisas.
    • Ela é pressuposta por toda noção de objeto.
    • É ela que realiza a abertura primeira ao mundo.
    • A convicção de ver “a coisa mesma” não resulta da exploração: ela funda a noção de proximal, melhor ponto de vista e “coisa mesma”.
  • A gênese da interiorização: do “bem ver” ao “petit homme dans l’homme”
    • Aprendemos na experiência que é possível aproximar-se e “bem ver” a mesma coisa.
    • Transportamos essa certeza para dentro, inventando a ficção de um sujeito interno espectador.
    • Assim surge a tese de que refletir seria apenas desvendar o verdadeiro sujeito que sempre habitou percepção e coisa.
    • Trata-se de uma projeção interiorizada da lógica do “je peux” corporal.
  • Efeito transformador da reflexão: neutralização do bruto
    • A reflexão neutraliza:
      • a coisa percebida bruta;
      • a abertura bruta a essa coisa.
    • Ela transforma em:
      • perception-réfléchie;
      • chose-perçue-dans-une-perception-réfléchie.
    • A permanência do perçu sob o olhar reflexivo é garantida por poderes obscuros do próprio ato reflexivo.
    • Esse ato prolonga o “je peux” da exploração sensório-corporal.
  • Erro de fundação: tomar a reflexão como base da percepção
    • Fundar o corporal no mental e o factual na essência reflexiva é esquecer a reflexão como reprise distinta.
    • Isso apaga a diferença entre percepção bruta e exame reflexivo.
    • A reflexão aparece então como simples “retorno” quando, na verdade, é transformação.
    • A filosofia cai num dogmatismo reflexivo que decide de antemão o que encontrará.
  • Necessidade de uma operação mais fundamental: surréflexion
    • Surge a exigência de uma operação além da conversão reflexiva: surréflexion.
    • Características:
      • inclui a própria reflexão e seus efeitos no que é pensado;
      • não perde de vista a coisa e a percepção brutas;
      • não corta os laços orgânicos entre percepção e percebido por hipótese de inexistência;
      • assume a tarefa de pensar essa ligação e a transcendência do mundo como transcendência.
  • Linguagem e pré-logismo: dizer o contato mudo com as coisas
    • A surréflexion deve falar do mundo sem obedecer apenas às significações já dadas das palavras.
    • Deve empregar as palavras para exprimir, além delas mesmas, o contato mudo com as coisas.
    • Trata-se de dizer o pré-logique: quando as coisas ainda não são “choses dites”.
    • A linguagem filosófica é exigida como esforço de expressão do indizível originário, não como aplicação de semânticas prontas.
  • Método proposto: suspender a fé para ver, não para negar
    • A reflexão não deve suspender a fé no mundo para invalidá-lo, mas para vê-lo.
    • Deve “ler no mundo” o caminho pelo qual ele se tornou mundo para nós.
    • Deve buscar no mundo o segredo do vínculo perceptivo com ele.
    • Deve descer ao mundo tal como é, em vez de subir a uma possibilidade prévia de pensá-lo que imporia condições de controle.
  • Imersão interrogativa: entrar na floresta de referências
    • A reflexão autêntica deve:
      • interrogar o mundo;
      • entrar na floresta de referências que a interrogação levanta;
      • fazer o mundo dizer o que seu silêncio quer dizer.
    • O empreendimento não garante de antemão nem ordem, nem concordância, nem mesmo possibilidade plena.
    • Mas a alternativa é clara: ou este risco, ou o dogmatismo reflexivo que encerra a filosofia no início.
  • Conclusão crítica: contra o dogmatismo reflexivo
    • Não se sabe exatamente o que é a concordância do mundo em que nos entregamos.
    • Não se sabe a que a empresa levará, nem mesmo se é plenamente possível.
    • Mas sabe-se onde leva o dogmatismo da reflexão:
      • a filosofia “se acaba quando começa”;
      • não compreendemos nossa própria obscuridade.
    • A opção é por uma filosofia que não domina o mundo, mas que se afunda nele para reencontrar o “il y a”.
estudos/merleau-ponty/homenzinho-dentro-do-homem-vi.txt · Last modified: by 127.0.0.1