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estudos:merleau-ponty:1964b:quiasma

Quiasma

MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l'invisible: suivi de notes de travail. Texte établi par Claude Lefort. Paris: Gallimard, 1964. (Bibliothèque des Idées).

O entrelaçamento – o quiasma

1. Se a filosofia, ao declarar-se reflexão ou coincidência, prejulga o que encontrará, deve recomeçar tudo, rejeitar os instrumentos da reflexão e da intuição e instalar-se num lugar onde elas ainda não se distinguem, em experiências não “trabalhadas” que ofereçam misturados sujeito e objeto, existência e essência, dando meios de redefini-los. Ver, falar e, sob reservas, pensar são experiências desse tipo, irrecusáveis e enigmáticas, cujos nomes carregam em todas as línguas tufos de sentidos próprios e figurados, lembrete insistente de um mistério familiar e inexplicado, de uma luz que, iluminando o resto, permanece obscura em sua origem. Reencontrar no exercício do ver e do falar as referências vivas que lhes dão esse destino poderia ensinar a formar novos instrumentos e a compreender a própria interrogação.

2. O visível à nossa volta parece repousar em si, como se nossa visão se formasse em seu coração, numa intimidade semelhante à do mar e da praia, mas não podemos fundir-nos nele nem ele passar em nós, pois a visão desapareceria. Não há coisas idênticas a si oferecidas depois a um vidente vazio, mas algo de que só nos aproximamos palpando-o com o olhar, coisas que não se podem ver “nuas”, porque o olhar as veste com sua carne. Resta compreender por que, envolvendo-as, o olhar as deixa em seu lugar, por que a visão parece vir delas e por que, velando-as, ele as desvela.

3. O vermelho diante dos olhos não é um quale, película de ser sem espessura, mensagem evidente e indecifrável, mas emerge de uma vermelhidão mais geral onde o olhar se atolava antes de fixá-lo, e retoma sua existência atmosférica quando os olhos erram. Sua forma é solidária de uma textura lanosa, metálica ou porosa, e ele só é o que é relacionando-se com outros vermelhos e outras cores, nó na trama do simultâneo e do sucessivo, concreção da visibilidade, e não átomo. O vestido vermelho pontua o campo das coisas vermelhas e o dos vestidos, e seu vermelho não é o mesmo conforme nele se precipite a essência da Revolução, do eterno feminino ou do acusador público: uma cor é um estreito entre horizontes exteriores e interiores, diferença entre coisas e cores, cristalização momentânea da visibilidade, e sob os visíveis há o tecido que os duplica e sustenta, possibilidade, latência e carne das coisas.

  • Claudel diz, mais ou menos, que certo azul do mar é tão azul que só o sangue seria mais vermelho; o campo das coisas vermelhas inclui as telhas, a bandeira dos guarda-barreiras e da Revolução, certos terrenos perto de Aix ou em Madagascar, as togas de professores, bispos e procuradores e os ciganos vestidos à hussarda de uma cervejaria dos Champs-Élysées.

4. Voltando ao vidente, isso não é analogia, deve ser tomado ao pé da letra: o olhar envolve e esposa as coisas como numa harmonia preestabelecida, e não se sabe se é ele ou elas que comandam. A palpação tátil, de que a do olho é variante, explica essa pré-posse: a mão só se inicia ao mundo tátil porque, sentida por dentro, é também tangível por fora, uma das coisas que toca, e os dois sistemas aplicam-se um sobre o outro como as metades de uma laranja. No tato distinguem-se o tocar do liso e do rugoso, o sentimento passivo do corpo e o tocar do tocar, em que o sujeito tocante passa a tocado; todo visível é talhado no tangível e todo tangível prometido à visibilidade, com encavalamento entre ambos, pois o mesmo corpo vê e toca, e os dois mapas são completos sem se confundirem, partes totais não superponíveis.

5. Sendo a visão palpação pelo olhar, é preciso que ela se inscreva na ordem de ser que desvela e que quem olha não seja estranho ao mundo que olha: a visão é duplicada por outra, de mim mesmo visto de fora, instalado no visível. Quem vê só possui o visível se é possuído por ele, se faz parte dele e é, por um singular retorno, um dos visíveis capaz de vê-los.

6. Por isso vemos as coisas em seu lugar e, ao mesmo tempo, estamos afastados delas por toda a espessura do olhar e do corpo: essa distância é sinônimo da proximidade, e a espessura de carne entre o vidente e a coisa, constitutiva da visibilidade dela e da corporeidade dele, é meio de comunicação, e não obstáculo. O indefinível do quale é uma maneira breve de dar, num só tom do ser, visões passadas e futuras em cachos, e a espessura do corpo é o único meio de ir ao coração das coisas, fazendo-me mundo e fazendo-as carne.

7. O corpo interposto não é coisa nem tecido conjuntivo, mas sensível para si, conjunto de cores e superfícies habitadas por um tocar e uma visão, sensível exemplar que dá a quem o habita com que sentir tudo o que lhe assemelha e comunica às coisas essa identidade sem superposição, diferença sem contradição, desvio entre dentro e fora que é seu segredo natal. Ele nos une às coisas por sua própria ontogênese, soldando seus dois lábios, a massa sensível que é e a massa do sensível onde nasce por segregação, e só ele, ser de duas dimensões, conduz às coisas, que são seres em profundidade. Falar da carne do visível não é antropologia: o ser carnal, ser de latência e apresentação de certa ausência, é protótipo do Ser, e o paradoxo já está no cubo, que reúne visíveis incompossíveis. O corpo não é feito de duas folhas, mas é a Visibilidade ora errante, ora reunida, e vê o mundo de todos sem sair de si; sentido e sentinte são como avesso e direito, dois segmentos de um só percurso circular, e mundo e corpo, carne aplicada a carne, não se contêm um ao outro: há inserção recíproca, entrelaçamento, dois círculos concêntricos na vida ingênua e levemente descentrados quando se interroga.

  • Resta saber como o sentinte sensível pode ser também pensamento, mas, antes de confrontar-se com um cogito a rever, deve-se tomar ao pé da letra que temos uma carne que sofre e mãos que tocam; o corpo é visível de direito, sob uma visão inelutável e adiada, e em seu interior só há “trevas cheias de órgãos”, isto é, ainda visível.

8. Há visão quando um visível se volta sobre todo o visível de que faz parte, formando-se uma Visibilidade que não pertence nem ao corpo nem ao mundo como fatos, como duas séries de imagens entre dois espelhos, um par mais real que cada superfície. Há um narcisismo fundamental de toda visão: o vidente vê a si mesmo no que vê e sofre a visão da parte das coisas, sentindo-se olhado por elas, como disseram muitos pintores, a ponto de não se saber quem vê e quem é visto. Essa Visibilidade, generalidade do Sensível em si, anonimato inato de mim mesmo, é a carne, que não é matéria, espírito nem substância, mas “elemento”, no sentido da água, do ar, da terra e do fogo, coisa geral entre o indivíduo e a ideia, princípio encarnado que importa um estilo de ser: facticidade, inauguração do onde e do quando, e coesão que faz os fatos terem sentido, de modo que toda visão falha é substituída por outra mais exata, “riscada” e não apagada, como diz Husserl.

9. Se a carne é noção última, esse enrolamento do visível sobre o visível pode animar outros corpos além do meu, e o princípio da captação abre campo a outros narcisos, a uma “intercorporeidade”. Se minha mão esquerda toca a direita tocando, por que, tocando a mão de outro, não tocaria nela o mesmo poder de esposar as coisas? Minhas duas mãos tocam o mesmo tangível não por pertencerem a uma só consciência, mas por serem mãos de um mesmo corpo, cuja unidade pré-reflexiva reúne lateralmente as pequenas “consciências de” de cada órgão, como a visão ciclópica dos dois olhos; essa generalidade pode abrir-se aos outros corpos, e o aperto de mão também é reversível. Quando olho uma paisagem e falo dela com alguém, o verde da pradaria passa para ele sem deixar-me, e reconheço em meu verde o seu, como o fiscal reconhece no passante o homem descrito: não há problema do alter ego, pois uma visibilidade anônima habita a ambos, pela propriedade da carne de, estando aqui e agora, irradiar em toda parte, sendo indivíduo, dimensão e universal.

10. A reversibilidade do visível e do tangível abre, se não o incorporal, ao menos um ser intercorporal, domínio presuntivo do visível e do tangível que se estende além das coisas que toco e vejo atualmente.

11. Há um círculo do tocado e do tocante, do visível e do vidente, inscrição de um no outro e propagação dessas trocas a todos os corpos do mesmo estilo, pela fissão fundamental do sentinte e do sensível que comunica os órgãos de meu corpo e funda a transitividade de um corpo a outro.

12. Vendo outros videntes, já não temos diante de nós apenas o espelho sem aço das coisas, mas, por outros olhos, tornamo-nos plenamente visíveis, e a lacuna de nossos olhos e costas é preenchida por um visível de que não somos titulares. Como o visível é superfície de uma profundidade inesgotável, pode abrir-se a outras visões, que acusam os limites da nossa e a ilusão solipsista de que toda superação é superação por si. Pela primeira vez o vidente que sou me é visível e os movimentos dirigem-se ao corpo em geral: o corpo abraça outro corpo, desenhando com as mãos a estranha estátua que devolve tudo o que recebe, fazendo-se o fora de seu dentro e o dentro de seu fora, e no trabalho silencioso do desejo começa o paradoxo da expressão.

13. A carne visível e tangível não é toda a carne, e a reversibilidade existe em outros campos, mais ágil, capaz de ultrapassar o círculo do visível: há movimentos que não vão a lugar algum, os do rosto, os gestos e sobretudo os da garganta e da boca que fazem o grito e a voz, e terminam em sentido. Sou um ser sonoro que ouve sua vibração por dentro, como diz Malraux, que se ouve com a garganta, e, perto de quem fala, assisto ao nascimento da vociferação; há uma reflexividade da fonação e da audição, e essa nova reversibilidade, emergência da carne como expressão, é o ponto de inserção do falar e do pensar no mundo do silêncio.

14. Na fronteira do mundo mudo, onde meu visível se confirma como exemplar de uma visibilidade universal, surge um sentido segundo da visão, a intuição do espírito (intuitus mentis) ou ideia, sublimação da carne em pensamento, cuja semente deve estar em meu corpo, pois o pensamento é relação consigo, com o mundo e com outrem. Não se propõe uma gênese empirista: o sentir está disperso no corpo, mas seria absurdo concebê-lo como colônia de experiências, e busca-se compreender a visão central que liga as visões esparsas, o “eu penso” que acompanha as experiências, sabendo apenas que todo pensamento conhecido advém a uma carne.

15. A carne não é matéria, mas enrolamento do visível sobre o corpo vidente e do tangível sobre o corpo tocante, pelo qual o corpo desce entre as coisas e as domina por deiscência de sua massa, pacto em que lhes empresto meu corpo para que nele inscrevam sua semelhança, sistema bem ligado que define uma visão em geral e um estilo constante da visibilidade. A carne é textura que volta a si e convém a si, e, na junção do corpo e do mundo opacos, há um raio de generalidade e de luz; a fisiologia não fecha o funcionamento nervoso sobre si, e o vidente se premedita no desenvolvimento embrionário, fazendo de um embrião um recém-nascido e de um visível um vidente. A reversibilidade é sempre iminente e nunca realizada: a mão tocada e a tocante nunca coincidem, e minha voz vibra antes em minha cabeça, mas esse desvio não é fracasso nem vazio ontológico, é o zero de pressão entre dois sólidos que os faz aderir, e a visibilidade primeira dos quale supõe uma visibilidade segunda de linhas de força e dimensões, a carne maciça uma carne sutil, o corpo momentâneo um corpo glorioso.

  • O horizonte de Husserl, exterior e interior, não é coleção de coisas nem potencialidade da consciência, mas um novo tipo de ser, de porosidade, prenhez ou generalidade, em que quem o vê está englobado.

16. O ponto mais difícil é o laço entre a carne e a ideia, e ninguém foi mais longe que Proust ao descrever uma ideia que não é o contrário do sensível, mas seu forro e sua profundidade: as ideias musicais, a essência do amor que a “pequena frase” torna presente a Swann, e noções “sem equivalentes”, “as noções da luz, do som, do relevo, da volúpia física”. A literatura, a música e a experiência do visível exploram um invisível tão rigoroso quanto a ciência de Lavoisier e Ampère, mas essas ideias não se destacam das aparências nem se erigem em segunda positividade: não há visão sem anteparo, e sem corpo nos seriam inacessíveis, tirando sua autoridade de estarem em transparência atrás do sensível. Quando Swann reduz a frase às cinco notas e ao “doçura retraída e friorenta”, já só tem “simples valores substituídos à misteriosa entidade”; como a negrura secreta do leite de que fala Valéry, só acessível através de sua brancura, essas ideias são o outro lado dos sons e das luzes, negatividade que não é nada, circunscrita e “perfeitamente distintas umas das outras”.

17. Com a primeira visão, o primeiro contato, o primeiro prazer, há iniciação, abertura de uma dimensão que não se fechará, nível pelo qual toda experiência será referida: a ideia é esse nível, não um invisível de fato nem um invisível absoluto, mas o invisível deste mundo, sua possibilidade interior, o Ser desse ente. As ideias musicais ou sensíveis, por serem ausência circunscrita, nos possuem, e o executante está a serviço da sonata que canta através dele, a ponto de “precipitar-se sobre o arco” para segui-la. Há uma idealidade rigorosa em experiências da carne, cuja coesão sem conceito é do mesmo tipo que a das partes do corpo, e o corpo, medida das coisas, não é coisa nem ideia: é preciso reconhecer uma idealidade que não é estranha à carne e lhe dá eixos, profundidade e dimensões.

18. Uma vez nesse domínio, não há como sair: se o visível atual, por uma espécie de invaginação, exibe uma visibilidade que é seu princípio, horizonte interior e exterior, a distinção dualista entre visível e invisível, extensão e pensamento, é recusada, pois são avesso e direito um do outro. Resta saber como se passa da idealidade de horizonte à idealidade pura e à cultura, mas esta já brota nas articulações do corpo estesiológico: é como se a visibilidade migrasse para um corpo menos pesado, trocando a carne do corpo pela da linguagem, liberta, mas não livre de toda condição. A linguagem, como a música, capta um sentido em suas malhas quando é conquistadora, e a gramática, como a notação musical, é retrato posterior da linguagem operante; as ideias acompanham a fala interior como a “pequena frase” possui o violinista, desvio sempre por refazer entre signo e signo. Há reversibilidade da fala e do que ela significa: a significação contrai os meios da elocução num ato, como a visão completa o corpo estesiológico, e quem fala se faz alocutário e delocutário, oferecendo-se a uma Fala universal. A estrutura do mundo mudo já contém as possibilidades da linguagem, compreender uma frase é ouvi-la em seu ser sonoro, cujo sentido não está sobre ela como manteiga no pão, e, como diz Husserl, a filosofia restitui um sentido selvagem, enquanto, como diz Valéry, a linguagem é tudo por ser a voz das coisas, das ondas e dos bosques: são dois aspectos da reversibilidade, verdade última, sem síntese.

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