estudos:merleau-ponty:1945:1.6

1.6 Corpo, expressão, fala

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

VI. O CORPO COMO EXPRESSÃO E A FALA

1. Reconhecida no corpo uma unidade distinta da do objeto científico, e descoberta até em sua função sexual uma intencionalidade e um poder de significação, a descrição da fala e do ato expresso de significação oferece a oportunidade de superar definitivamente a dicotomia clássica entre sujeito e objeto.

2. A tomada de consciência da fala como região original é tardia, porque a relação de ter, visível na própria etimologia de “hábito”, é primeiro mascarada pelas relações do domínio do ser. A posse da linguagem é entendida como existência de “imagens verbais”, traços corporais ou psíquicos que se ativam em terceira pessoa: não há sujeito falante, mas um fluxo de palavras sem intenção de falar, e o homem pode falar como a lâmpada elétrica pode tornar-se incandescente.

3. A teoria da afasia pareceu transformar-se ao distinguir a anartria, que afeta a articulação, da afasia verdadeira, que atinge a linguagem intencional: o doente não perdeu um estoque de palavras, mas uma maneira de usá-las. A amnésia dos nomes de cores revelou-se ligada à incapacidade de classificar amostras por categoria, e nomear passou a ser visto como subsumir o dado sob uma essência, de modo que a linguagem apareceu condicionada pelo pensamento.

  • O doente encontra o “não” para recusar as perguntas do médico, mas não o pronuncia num exercício sem interesse vital.
  • Ao classificar amostras, aproxima-as uma da outra e, depois de reunir fitas azuis, acrescenta um verde ou um rosa pálido, guiado pela semelhança imediata e não pela participação num eidos, tendo passado da atitude categorial à atitude concreta.

4. Empirismo e intelectualismo concordam num ponto: para ambos, a palavra não tem significação. No primeiro, ela é um fenômeno evocado por causalidade objetiva, e não há ninguém que fale; no segundo, é apenas o signo exterior de um reconhecimento interior que poderia ocorrer sem ela, e há um sujeito pensante, mas não um sujeito falante. Ambos são superados pela simples constatação de que a palavra tem sentido.

5. Se a fala pressupusesse o pensamento, não se compreenderia por que o pensamento tende à expressão como a seu acabamento, nem por que o objeto familiar parece indeterminado enquanto não se lhe encontra o nome. A fala não traduz um pensamento já feito, mas o realiza, e a denominação é o próprio reconhecimento. Quem escuta também recebe o pensamento da própria fala, pelo poder de pensar segundo outrem, e toda linguagem ensina a si mesma e importa seu sentido no espírito do ouvinte.

  • Um pensamento que existisse só para si, sem a fala, cairia na inconsciência; muitos escritores começam um livro sem saber exatamente o que porão nele.
  • Para a criança e para o pensamento pré-científico, o nome é a essência do objeto: Deus cria os seres nomeando-os, e a magia age sobre eles falando deles.
  • Compreender outrem não é resolver um problema determinado, pois só a solução faz os dados aparecerem como convergentes; como num país estrangeiro, entra-se numa filosofia reproduzindo seu estilo, seu tom e seu acento.

6. No sujeito falante, o pensamento não é representação: o orador não pensa antes de falar, sua fala é seu pensamento, e o ouvinte é possuído pelo discurso sem pensamentos à margem dele. Tampouco se representam as palavras: elas estão atrás de nós como o horizonte da cidade em torno da casa, e delas resta um estilo articulatório e sonoro, uma das modulações possíveis do corpo. O papel do corpo na memória e na fala é a mesma função de projeção da iniciação cinética.

  • A alternativa bergsoniana entre memória-hábito e lembrança pura não explica a presença próxima das palavras, que persistem como a Imago freudiana, essência emocional desligada de suas origens.
  • Imaginar Pedro ausente é obter uma pseudopresença de Pedro desencadeando a “conduta de Pedro”, e a imagem verbal é uma modalidade da gesticulação fonética.

7. A fala não é signo do pensamento como a fumaça é do fogo, nem sua vestimenta, mas sua presença no mundo sensível, seu emblema ou seu corpo. Sob a significação conceitual das palavras há uma significação existencial que as habita. Pensamento e expressão constituem-se simultaneamente, como o corpo se presta a um gesto novo no hábito: a fala é um verdadeiro gesto e contém seu sentido como o gesto contém o seu, e a fala constituída do cotidiano pressupõe o passo decisivo da expressão, que rompe um silêncio primordial.

  • Doentes leem um texto com a entonação certa sem compreendê-lo, o que revela uma camada de significação aderente às palavras, dada como estilo e mímica existencial.
  • A significação da sonata desce nos sons, e a atriz se torna invisível para que Fedra apareça: a expressão realiza a significação, e o mesmo vale para a fala.
  • O suposto silêncio interior é povoado de palavras, e a vida interior é linguagem interior; comunica-se primeiro não com representações, mas com um sujeito falante, um estilo de ser e o mundo que ele visa.

8. O sentido dos gestos não é buscado na experiência íntima do espectador nem percebido como a cor do tapete: é compreendido, isto é, retomado por um ato que não é operação de conhecimento. A comunicação se dá pela reciprocidade entre as intenções de um e os gestos do outro, como se a intenção alheia habitasse o próprio corpo. É pelo corpo que se compreende outrem, como é pelo corpo que se percebem as coisas.

  • Lê-se a cólera no gesto, que é a própria cólera, mas não se compreende a mímica sexual do cão nem as emoções de meios muito diferentes; uma cena sexual só tem sentido para a criança que já atingiu a maturidade correspondente.
  • A lareira percebida, como o esquema corporal, é um sistema de equivalências fundado numa presença corporal, e gerações compreendem o gesto da carícia antes que o filósofo defina sua significação intelectual.

9. O gesto linguístico desenha seu próprio sentido, apoiado num mundo comum de significações disponíveis fornecido pela cultura. Signo natural e signo convencional não se opõem, pois no homem não há signo natural: as palavras são maneiras de cantar o mundo, extraindo sua essência emocional, e emoções e condutas passionais são inventadas como as palavras. Tudo no homem é fabricado e tudo é natural, e a fala é um caso particular de uma potência irracional que cria e comunica significações.

  • Se se descontasse o que devem às leis fonéticas, aos empréstimos e aos gramáticos, as línguas revelariam um sistema expressivo em que não é arbitrário chamar luz à luz se se chama noite à noite; por isso o sentido pleno de uma língua é intraduzível, e só se vive numa.
  • A linguagem parece mais transparente que a música porque se permanece na linguagem constituída, mas sua clareza repousa num fundo obscuro.
  • O japonês encolerizado sorri, o ocidental cora ou empalidece: não só o gesto, mas a própria maneira de viver a situação é contingente em relação ao organismo, e até a paternidade é uma instituição.

10. Entre todas as operações expressivas, só a fala se sedimenta e constitui um acervo intersubjetivo. Cada escritor visa o mesmo mundo que os outros, e a fala instala em nós a ideia de verdade como limite presuntivo, esquecendo-se como fato contingente e sugerindo o ideal de um pensamento sem palavras. Pode-se falar sobre a fala, mas não pintar sobre a pintura, e há um privilégio da Razão, que só se compreende recolocando o pensamento entre os fenômenos de expressão.

11. As análises mais recentes da afasia caminham, sem sabê-lo, para uma teoria existencial que trata pensamento e linguagem como manifestações da atividade fundamental pela qual o homem se projeta num mundo. A atividade categorial é uma maneira de relacionar-se com o mundo, uma atitude (Einstellung) que funda também a fala, e o sentido habita a palavra, de modo que a linguagem é a tomada de posição do sujeito no mundo de suas significações. Deve-se reconhecer como fato último a potência aberta de significar, pela qual o homem se transcende pelo corpo e pela fala.

  • No amnésico, cada amostra de cor fica confinada em sua existência individual; em percepção passiva, também o normal vê o monte de amostras oscilar entre agrupamentos possíveis, e o distúrbio atinge menos o entendimento que a imaginação produtora.
  • “O comportamento categorial e a posse da linguagem significativa exprimem um só e mesmo comportamento fundamental”, e a palavra que perde o sentido se esvazia como um corpo inanimado, tornando-se estranha como os nomes repetidos demais.
  • O franzir de sobrancelha, que protegeria o olho do sol, torna-se meditação; do mesmo modo, uma contração da garganta e um sopro sibilante se investem de um sentido figurado.

12. A fala não é operação da inteligência nem fenômeno motor, mas inteiramente motricidade e inteiramente inteligência, repousando numa estratificação de poderes relativamente isoláveis sem que haja distúrbio puramente motor. Em Schneider, cuja linguagem parece intacta, falta a necessidade de falar e toda referência ao possível, o que revela, por contraste, que a intenção de falar nasce numa experiência aberta, como a ebulição num líquido. Distinguem-se uma fala falante, em que a intenção significativa está em estado nascente, e uma fala falada, que usufrui das significações disponíveis como de uma fortuna adquirida.

  • Na afasia motora, as palavras perdidas correspondem a seu valor para o sujeito, e a correção articulatória e a sintática estão em razão inversa; na parafasia literal, há um nivelamento da figura e do fundo.
  • “Assim que o homem se serve da linguagem para estabelecer uma relação viva consigo mesmo ou com seus semelhantes, a linguagem não é mais um instrumento, é uma manifestação do ser íntimo”, e ao doente falta essa produtividade, que é a essência mais profunda do homem.
  • A fala é o excesso da existência sobre o ser natural, mas o ato de expressão faz recair no ser o que tendia para além dele.

13. A análise da fala revela a natureza enigmática do corpo próprio, que não está onde está nem é o que é, pois secreta em si um sentido que não vem de parte alguma e o comunica a outros sujeitos encarnados. Para exprimir o pensamento, o corpo deve tornar-se o pensamento que significa, e essa revelação de um sentido nascente estende-se a todo o mundo sensível.

  • Cézanne dizia de um retrato: “Se pinto todos os pequenos azuis e todos os pequenos marrons, faço-o olhar como ele olha… Pouco importa se desconfiam de como, casando um verde matizado a um vermelho, se entristece uma boca ou se faz sorrir uma face.”
  • Sobre a toalha “branca como uma camada de neve recém-caída” de Balzac, Cézanne afirmava que só se deve querer pintar os talheres que se erguiam simetricamente e os pãezinhos louros, pois, se pintasse “coroados”, estaria perdido (je suis foutu); equilibrando talheres e pães como na natureza, as coroas e a neve estariam lá.

14. A tradição cartesiana purifica as noções de corpo e de alma, fazendo do primeiro uma soma de partes sem interior e da segunda um ser inteiramente presente a si, de modo que só se existe como coisa ou como consciência. A experiência do corpo próprio revela um modo de existência ambíguo: o corpo não é objeto, a consciência dele não é pensamento, e só se conhece o corpo humano vivendo-o, retomando o drama que o atravessa. O corpo é um sujeito natural, esboço provisório do ser total, e a obscuridade que ele opõe à reflexão estende-se a todo o mundo percebido.

  • Visão, motricidade e sexualidade não se ligam por causalidade, mas estão implicadas num drama único; o corpo é sempre sexualidade e liberdade, enraizado na natureza enquanto se transforma pela cultura.
  • Descartes distinguia o corpo concebido pelo uso da vida do corpo concebido pelo entendimento, mas subordinava esse saber ao conhecimento por ideias, apoiado em Deus como autor racional da situação de fato.
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