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estudos:mcneill:dimensao-ontologica-do-etico

DIMENSÃO ONTOLÓGICA DO ÉTICO

MCNEILL, William. The Time of Life. Heidegger and êthos. New York: State University of New York Press, 2006

O Capítulo 2 (O Tempo da Vida), “Cuidar de Si Mesmo: Ética Originar em Heidegger e Foucault”, tenta, por meio de um diálogo entre Heidegger e Foucault, abrir a dimensão ontológica do ético na obra de ambos os filósofos em termos da relação ontológica com o eu, desviando nossa compreensão de “ética” de um conjunto de normas, princípios ou regras teoricamente construídos que regem a prática, e (xiii) para uma compreensão do ético em termos de nossas maneiras concretas de Ser no mundo, nosso ethos. O capítulo tenta mostrar que o domínio do ethos é o da práxis “originária”, de uma dimensão pré-teórica e pré-filosófica do habitar mundano que excede e, de fato, é anterior à distinção tradicional entre teoria e prática, na qual a teoria é entendida antecipadamente como separada da prática, mas de tal forma que pode e deve ser subsequentemente “aplicada” à prática ética e política. Nessa compreensão tradicional, a filosofia ou teoria é, implícita ou explicitamente, entendida como não mundana, separada do mundo — e, portanto, de seus próprios fundamentos originais como uma práxis, uma maneira concreta de Ser daquele que filosofa. Em contraste, o cultivo filosófico do ethos que este capítulo discerne tanto em Foucault quanto em Heidegger permanece atento à singularidade, à unicidade concreta, de uma existência particular, buscando habitar nessa mesma dimensão que de outra forma seria eclipsada por nossa compreensão científica do mundo, que a partir de Aristóteles começou a se apoderar da própria filosofia. Neste segundo capítulo, tentamos abordar essa dimensão originária do ético, ou do ethos, trazendo à tona uma constelação de questões que serão desenvolvidas mais adiante nos capítulos restantes. O ethos de uma pessoa não é algo permanente e imutável: nunca é inteiramente redutível ao que Hans-Georg Gadamer chamou apropriadamente de “uma rede viva de convicções, hábitos e valores comuns” transmitidos pela comunidade histórica e pelo mundo de uma pessoa. 2 Pelo contrário, está constantemente em transição, é uma maneira de habitar o ser em curso e, como tal, designa uma maneira de Ser e habitar o mundo que pode — e, de um ponto de vista filosófico, deve — ser interrogada, compreendida e transformada através de várias práticas do eu. O Ser do eu, como relação ontológica primária com o eu tanto para Heidegger quanto para Foucault, não é uma abstração teórica do óntico ou concreto, mas é, como o presente capítulo tenta mostrar, o acontecimento concreto de uma liberdade originária que nunca é redutível ao que se é ou se foi. A tarefa filosófica e “protoética” de cuidar do eu (Foucault) ou da existência autêntica (Heidegger), uma tarefa que expressamente assume e envolve essa liberdade no cultivo consciente e questionador do ethos de cada um, exige uma compreensão do eu em termos da temporalidade da ação, do fenômeno do mundo e da determinação histórica do Ser mundano de cada um.

São esses três momentos que, juntos, articulam a compreensão de Heidegger do ethos, uma compreensão que, em muitos aspectos, é devida à descrição de Aristóteles da phronesis (sabedoria prática ou excelência na deliberação relativa à práxis). Na ética aristotélica, podemos lembrar, o ethos de uma pessoa é determinado pelas virtudes éticas (xiv) que nos dispõem a agir com coragem, autocontrole, justiça, etc.; pela virtude deliberativa da phronesis, que nos permite deliberar bem na situação particular da ação; e pela nossa theoria ou contemplação do mundo proporcionada pela sophia, ou sabedoria filosófica. No entanto, Heidegger, apesar de sua admiração pela descrição de phronesis feita por Aristóteles (conforme apresentada no Livro Seis da Ética a Nicômaco), não adota simplesmente a compreensão de Aristóteles sobre o ethos humano.

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