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Ordem do Mundo
MATTÉI, Jean-François. L’ordre du monde: Platon, Nietzsche, Heidegger. Paris: Presses universitaires de France, 1989.
- Prefácio
- Interrogação poética inicial, retirada de René Char em Posteridade do sol, que situa o problema do caminho obliterado e da possibilidade de nomear novamente as coisas simples entre o crepúsculo e o céu, estabelecendo desde o início a tensão entre perda de sentido e exigência de palavra.
- Justificação intempestiva do livro O Ordre du Monde no contexto da modernidade tardia, caracterizada pela dispersão dos sentidos, pela perda das referências arcaicas e pela suspeita generalizada diante de qualquer discurso de ordem, sobretudo quando este parece remeter a fundamentos esquecidos ou arcaizantes.
- Afirmação de que a obra não pretende restaurar um mundo perdido nem propor uma doutrina normativa, mas examinar o que subsiste de “ordem” quando esta já não pode ser pensada como sistema fechado, princípio hierárquico ou fundamento transcendente.
- Indicação de que o conceito de ordem será abordado como algo fragmentário, ambíguo e instável, situado no cruzamento entre começo e desvanecimento, mais próximo de um limiar do que de uma estrutura totalizante.
- Aproximação entre filosofia e poesia como lugares privilegiados onde ainda se manifesta a questão da ordem, especialmente na medida em que ambas conservam vestígios de uma palavra arcaica que não se reduz ao discurso técnico ou instrumental da razão moderna.
- Referência central à figura de Martin Heidegger, não como autoridade doutrinária, mas como pensador que recolocou a questão do mundo, da terra e da linguagem a partir de uma crítica radical à metafísica e à racionalidade moderna.
- Leitura do ensaio A origem da obra de arte como momento decisivo para pensar a emergência do mundo não como construção subjetiva, mas como acontecimento de abertura, no qual terra e mundo entram em tensão produtiva.
- Distinção explícita entre o projeto aqui assumido e qualquer tentativa de mitologização ou retorno romântico ao sagrado, insistindo que o recurso ao mito não visa substituir a razão, mas desestabilizar sua pretensão de autossuficiência.
- Discussão do papel do mito como dimensão simbólica irredutível, capaz de revelar limites da racionalidade técnica sem se confundir com irracionalismo ou regressão obscurantista.
- Confronto com Platão, sobretudo a partir do Górgias e da República, para mostrar que a suspeita em relação ao mito não é exclusiva da modernidade, mas que a expulsão do mito inaugura também uma tensão constitutiva da filosofia ocidental.
- Articulação entre terra, mundo e linguagem como eixos fundamentais para pensar uma ordem não normativa, na qual a palavra não domina as coisas, mas responde à sua resistência e à sua opacidade.
- Diálogo crítico com Gaston Bachelard, especialmente com A poética do espaço e A poética do devaneio, reconhecendo a importância da imaginação material e da casa, da terra e dos elementos como lugares de enraizamento simbólico.
- Referência a poetas como Friedrich Hölderlin, René Char, Paul Celan, Giuseppe Ungaretti e outros, apresentados como aqueles que, mais do que os filósofos, mantêm aberta a relação entre linguagem e mundo em tempos de devastação simbólica.
- Recusa explícita da acusação de nostalgia ou regressão antimoderna, defendendo que a atenção à terra e ao mundo não implica negação da modernidade, mas crítica de sua redução ao cálculo, à produção e ao domínio técnico.
- Enfrentamento da questão política ligada a Heidegger, reconhecendo o peso histórico do nacional-socialismo, mas recusando leituras simplificadoras que reduzam sua filosofia a uma ideologia totalitária.
- Distinção entre o uso ideológico da linguagem e a tentativa filosófica de pensar a origem do sentido, insistindo que a crítica da razão instrumental não conduz necessariamente ao autoritarismo ou ao irracionalismo.
- Análise da linguagem moderna como linguagem de adesão, de eficácia e de comunicação funcional, em contraste com uma linguagem poética e filosófica que aceita a demora, o silêncio e a ambiguidade.
- Denúncia da pretensão moderna de eliminar o mito, mostrando que essa eliminação produz mitos ainda mais perigosos, como o mito do progresso ilimitado, da técnica redentora ou da racionalidade total.
- Reafirmação de que pensar a ordem do mundo não é fornecer respostas prontas, mas manter aberta a pergunta sobre o sentido, recusando tanto o cinismo quanto o dogmatismo.
- Conclusão do prefácio como convite a uma escuta atenta do mundo, da terra e da linguagem, entendendo a ordem não como imposição, mas como algo que se deixa entrever na atenção, na fidelidade e na paciência do pensamento.
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