Quatro causas aristotélicas
(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001:53-55)
O concerto das quatro causas
1. Reservada deliberadamente para último exame está a mais importante partição de Aristóteles, que comanda secretamente todas as demais: a teoria das quatro causas, à qual se consagra a integralidade do livro A da Metafísica, sem prejuízo de numerosos outros textos do corpus aristotélico.
2. Nas primeiras páginas da Metafísica, Aristóteles avança que a sabedoria (sophia) trata das primeiras causas e dos primeiros princípios, identificando causas (aitia) e princípios (archè) como termos recíprocos, conforme precisa o capítulo primeiro do livro Δ ao afirmar que todas as causas são princípios, tendo por caráter comum ser o inicial (τὸ πρῶτον) a partir do qual há o ser, o devir ou o conhecer.
3. Ao comentar esse texto em seu artigo de 1929, “A Essência do Fundamento”, Heidegger busca o que os três fundamentos — da essência, da existência e da verdade — possuem em comum sob a unidade do termo archè, aproximando essa tripartição geral dos princípios de outra partição, quádrupla, a das causas, exposta sistematicamente no capítulo III do livro A da Metafísica e no capítulo III da Física.
4. Aristóteles distingue quatro sentidos de causa — a substância formal ou quididade, a matéria como substrato, o princípio de onde parte o movimento, e a causa final ou o bem —, precisando o livro II da Física, com insistência, que há exatamente quatro causas: a matéria, a forma, o motor e a causa final.
5. Esse conjunto de quatro causas constitui um sistema completo e fechado, dito “saturado a quatro elementos”, suficientemente geral para operar nos domínios biológico, lógico, cosmológico e no que mais tarde se chamará metafísica, sendo portanto do lado das causas, e não das categorias, que se deve buscar a ontologia ou filosofia primeira de Aristóteles, o qual reivindica ser o único filósofo a tê-las enumerado por inteiro.
6. Contrapõe-se a essa teoria a dos três princípios do devir — matéria, forma e privação —, tributária da estrutura tripartite do tempo (passado, presente, futuro), cujo recobrimento com a tétrade das causas se manifesta pela presença comum, nos dois esquemas, da matéria e da forma, uma vez que o próprio Aristóteles assimila princípios e causas sob a filosofia primeira.
7. Aristóteles hesita quanto ao número desses princípios, reconhecendo-os ora como dois (os contrários), ora como três (acrescido o sujeito neutro que os sustenta), enquanto no livro Λ, 4 da Metafísica acaba por concluir à quadruplicidade das causas e princípios, num deslizamento do esquema binário ao ternário e finalmente ao quaternário.
8. A tríade dos princípios do devir dissimula, portanto, uma tétrade mais profunda do ser em sua generalidade, tal como Pierre Aubenque discerne, sob a triplicidade aparente, uma dupla dualidade que brota do próprio ser desde que este comporte a possibilidade do movimento, conclusão a que o próprio Aristóteles chega ao afirmar que causas e princípios, em certo sentido, são os mesmos para todos os seres.
9. Aplicando-se essa observação aos fundamentos últimos, todo ente em devir é regido pela forma, a privação e a matéria, sendo necessário introduzir um quarto termo, o motor, quando intervém um fator externo ao ente, o que conduz a uma dupla partição parcialmente recoberta entre elementos (três) e causas e princípios (quatro).
10. O cotejo entre a tétrade dos princípios de Metafísica Λ, 4 e a tétrade das causas de Metafísica A, 3 e Física II mostra estrutura idêntica, podendo a causa final ser assimilada ao repouso (ἠρεμία), definido por Aristóteles como privação do movimento, papel análogo ao que a privação da forma desempenha na tétrade dos princípios.
11. À questão inicial da Física sobre o número dos princípios, respondem-se três estágios sucessivos de complexidade.
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há dois princípios se considerada apenas, de modo abstrato, a contrariedade entre forma e privação da forma, como saúde e doença
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há três princípios quando se acrescenta, de modo concreto, a matéria ou sujeito como suporte das determinações contrárias através do devir
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há quatro princípios quando se leva em conta, além disso, a causa motriz que afeta do exterior o processo imanente do ente, ficando a triplicidade dos princípios subordinada à tétrade das causas, o que equivale a subordinar a física, como ciência do ente em devir, à filosofia primeira ou metafísica
12. Heidegger não levanta o problema da relação entre a tríade dos princípios e a tétrade das causas, privilegiando esta última como fio condutor para percorrer o campo da metafísica, ao ponto de identificar implicitamente a quadratura etiológica à quadratura ontológica, partindo dos quatro modos do ser já destacados por Brentano em Aristóteles.
13. Já em 1922, no curso sobre as Interpretações Fenomenológicas de Aristóteles, Heidegger levanta, sem ainda responder, a problemática das “quatro causas originárias” (vier Ursachen) que resultam da problemática ontológica dos entes por natureza (φύσει ὄντα); alguns anos depois, em “A Essência do Fundamento”, reconduz a tripla divisão dos princípios superiores ao fracionamento da causa (αἴτιον) em quatro espécies — material, formal, eficiente e final —, notando que a coesão interna dessas classificações permanece na penumbra e que a metafísica jamais explorou o que há de comum entre as diferentes espécies de causas.
14. Heidegger investiga se Aristóteles teria buscado compreender o fundamento que motiva o número quatro das causas em sua coesão sistemática, recusando-se, contudo, a entrar na história do problema do fundamento, aludindo apenas de passagem ao princípio de razão suficiente de Leibniz, ao princípio de razão determinante de Crusius e à quádrupla raiz do princípio de razão suficiente de Schopenhauer, para então voltar-se ao “fenômeno do mundo”, cujas quatro significações remetem à triplicidade heideggeriana própria do fundamento como possibilidade, base e legitimação, aproximada de modo interrogativo, mas não decidida, ao número tradicional das quatro causas.
15. Essa questão de um todo homogêneo e ramificado retorna vinte anos depois, na conferência de 1949, Das Gestell, retomada e modificada em 1955 sob o título A Questão da Técnica, na qual a instrumentalidade, fundada na causalidade, é reconduzida à quádrupla causalidade — causa material, causa formal, causa final e causa eficiente, exemplificadas pela prata, a forma, o sacrifício e o ourives na fabricação de uma taça —, indagando-se por que precisamente quatro causas e o que determina de modo tão uno seu caráter causal solidário.
16. A interpretação heideggeriana remete esse caráter uno, que torna cada causa solidária das demais, a um princípio inicial, “o ato do qual se responde” (Verschulden), entendido em sentido mais profundo que o da instrumentalidade ou da responsabilidade jurídica, apoiando-se desta vez em Platão, para quem, no Banquet, a produção (ποίησις) é definida como causa (αἰτία) da passagem do não-ente ao ente.
17. A unidade desse “fazer-vir” (Veranlassung) do ente à presença, que desdobra em sua quádrupla manifestação a causa, é nomeada ἀλήθεια, “desvelamento” — traduzido pelos romanos como veritas e pelos alemães como Wahrheit —, sendo a verdade, em seu sentido metafísico ocultado, a unidade do quádruplo desvelamento da coisa sob a convergência das quatro causas, de modo que a técnica, interpretada como esse desvelamento, é o modo metafísico determinante do desvelamento do ente que a tradição chama racionalidade, caindo assim toda a razão sob a unidade reunificadora das quatro causas que a metafísica, irrigada por essas quatro ramificações, desde a origem deixou na sombra.
