1.3 A "esfera"
MARTINEAU, Emmanuel. La provenance des espèces: cinq méditations sur la libération de la liberté. Paris: Presses universitaires de France, 1982.
A “esfera” e a tarefa de uma filosofia fenomenológica decidida
1. A questão propriamente filosófica do presente exige mostrar concretamente a possibilidade de uma decisão capaz de assumir o hoje como centro de uma destinação vindoura, e o signo poético dessa decisão pode ser encontrado em Hölderlin, para quem a liberdade singular somente se determina no interior da lei do todo, não como submissão ao destino, mas como exigência de decidir a maneira própria de nele estar.
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«Não se deixar constranger pelo máximo, mas deixar-se, contudo, conter pelo mínimo.»
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«Em qualquer caso, somente no interior da lei do todo cada vontade livre deve decidir como quer estar.»
2. Essa exigência hölderliniana pode parecer uma antecipação da injunção de uma decisão futura, mas sua determinação não se deixa reduzir a uma simples atribuição imperativa, pois a decisão (Austrag), tal como posteriormente formulada em Ser e tempo, torna-se resolução que se transmite ou se entrega a uma tradição, vinculando o decidir à historicidade da existência e àquilo que nela é transmitido.
3. A relação entre destinação, decisão e liberdade permanece problemática quando se pretende fazer de Hölderlin apenas um precursor poeticamente mediado por Heidegger, pois a libertação em relação aos ídolos que cada época constrói não consiste nem numa submissão a um imperativo categórico nem numa transformação da poesia em legislação da finitude, mas exige compreender a destinação como acontecimento apropriador (Ereignis), no qual o destino metafísico-historial do Ocidente se cumpre como decisão ou discriminação (Austrag), sem que tal decisão possa ser reduzida à consciência existencial de um destino previamente atribuído.
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A poesia de Hölderlin pode ser profética somente enquanto se dirige à finitude sem convertê-la numa legislação que ordene a fraqueza humana.
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O acontecimento apropriador (Ereignis) é mais amplo do que aquilo que simplesmente sobrevém como destino, pois designa o processo no qual a própria metafísica, constituindo-se, não cessa de ultrapassar-se.
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A decisão ou diferenciação (Austrag) não constitui apenas uma nova denominação da diferença, mas aquilo mediante o qual o destino se efetua, sem que por isso a destinação possa ser simplesmente identificada com a liberdade.
4. A verdadeira questão decisiva consiste, portanto, em determinar o que a própria vigência (Wesen) pode ensinar para além da mera atribuição ou destinação que atravessa a existência, uma vez que o problema já não é somente saber a que se está destinado, mas compreender o próprio modo segundo o qual o ser se desdobra.
5. A resposta deve partir do estatuto concreto da filosofia enquanto pensamento inteiramente exposto à dimensão e aos perigos do atual, sem se orientar por uma exegese de Heidegger, mas procurando esclarecer de que maneira a filosofia pode apreender aquilo que no presente solicita uma decisão.
6. A fenomenologia, considerada primeiramente como possibilidade, constitui a herdeira privilegiada da metafísica porque é capaz de reconduzi-la às experiências originárias da doação do ser do ente e, ao mesmo tempo, de destruí-la a partir dessas experiências, embora a própria fenomenologia tenha frequentemente se afastado delas enquanto continuava a conservá-las como princípio diretor e garantia de validade.
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A fenomenologia pensa a vigência (Wesen) como desdobramento e dirige sua atenção às modalidades ou essências fundamentais (Grundwesen) segundo as quais esse desdobramento se manifesta.
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O caráter modal dessa atenção permite distingui-la das formas clássicas de pensamento herdadas do século XIX, limitadas à administração e à classificação do ente, às técnicas de aprofundamento ou nivelamento do mundo e à consideração da linguagem apenas segundo a constituição do ente.
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Nem a função, nem a estrutura, nem a evolução e nem as estratégias de desconstrução conduzem por si mesmas à vigência (Wesen), pois permanecem ainda referidas à constituição (Beschaffenheit) do ente e ao tratamento da linguagem como ente dos entes.
7. A fenomenologia, considerada agora de uma segunda maneira, deve ser interrogada quanto à sua própria decisão: importa saber se ela realmente se situa na oposição harmônica correspondente ao seu domínio, se constitui efetivamente uma esfera no sentido sugerido por Hölderlin e se, enquanto pensamento moderno, pode ser chamada de absolutamente moderna.
8. A resposta somente pode ser afirmativa se a fenomenologia for compreendida como um pensamento incumbido, por decisão, de interpretar o ser como desdobramento, pois justamente essa interpretação deixa ainda obscuro o caráter próprio do desdobramento e sua possível significação plena para todas as demais essências fundamentais (Grundwesen), tornando necessário pensar aquilo que pode ser chamado de especificidade do desdobramento.
9. A especificidade do desdobramento não significa que o desdobramento seja uma espécie eminente da presença tomada como gênero, mas que a própria presença de um desdobramento, o advento da essência (Wesen) como presença (Anwesen) e, mais radicalmente, como acontecimento apropriador (Ereignis), implica necessariamente uma pluralidade de espécies.
10. O plural das espécies não equivale simplesmente a uma multiplicidade, pois a questão intrinsecamente específica da natureza (physis), já presente em Aristóteles na pluralidade dos sentidos do ser, permanece marcada por uma extraordinária indeterminação: a doutrina aristotélica da analogia não chega a constituir uma teoria do desdobramento e, ao procurar ordenar a multiplicidade dos sentidos do ser, deixa esquecida a questão mais originária do uno e do múltiplo, expressa no enigma do «um-tudo» ou, mais precisamente, do «um e tudo».
11. Pensar «um-e-tudo», e não simplesmente «um-muitos», exige evitar tanto a redução do múltiplo a uma totalidade heraclítica quanto sua substituição contemporânea por repetições, multiplicidades, distribuições, pluralidades ou disseminações, sendo necessário, em vez disso, aprofundar a fenomenologia mediante a exploração sistemática de experiências originárias nas quais a essência (Wesen) não se desdobre apenas segundo uma variedade modal ou uma pluriperspectividade de adumbramentos (Abschattungen), mas segundo o sentido rigoroso de uma expansão ou desdobramento (Entfaltung) capaz de produzir uma profusão radiante.
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Hölderlin caracteriza essa profusão como «matéria inteiramente clara e vida» (lauter Stoff und Leben).
12. Entre as experiências capazes de tornar pensável essa profusão encontra-se primeiramente o imaginário, não entendido como reprodução nem como produção arquissintética do múltiplo, mas como imitação do desdobramento elementar (Entfaltung) em sua dimensão pânica ou totalizante, ao lado de uma experiência que, inspirada em Malevitch, pode ser chamada de economicidade, pela qual uma fenomenologia econômica procuraria pensar, no destino ou envio (Geschick), não apenas uma destinação neutra (Schickung), mas também uma ordenação ou dispensação (Beschickung) pela qual o ser dispõe seu próprio domínio.
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A expressão alemã «ordenar sua casa» (sein Haus beschicken) permite compreender essa economicidade como disposição do ser pela qual nada lhe é mais próprio do que tornar-se mundo.
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Se o acontecimento apropriador (Ereignis) é um singular absoluto, o mundo não se reduz por isso ao uno, porque nele subsiste originariamente o múltiplo como dispensação, abertura e espaço, e não como simples multiplicidade quantitativa ou totalidade.
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O mundo, enquanto morada aberta, solicita pensar se a mundanidade pode realmente ser compreendida como aquisição definitiva ou se nela permanece uma abertura essencial pela qual o ser e a verdade se pertencem reciprocamente.
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A quadratura (Geviert) pode ser compreendida como abertura dessa dimensão econômica do mundo, na qual a ocultação própria da natureza e a experiência originária da retirada não se opõem à dispensação, pois a própria retirada pode amar a dispensação.
13. Uma fenomenologia econômica permitiria aproximar-se do ente autêntico sem retornar às antigas divisões positivistas ou neokantianas do trabalho, reconhecendo que as ciências, embora já não sejam filosofia, conservam o segredo de uma especificidade que não pode ser simplesmente anulada, enquanto a filosofia deve evitar instalar-se acima delas e limitar-se a celebrar abstratamente o mundo, seu ritmo ou sua harmonia.
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O câmbio ou alternância (Wechsel), que Hölderlin reconhece como segredo transcendental da harmonia, impede que o pensamento do ser se fixe numa identidade melancólica de si consigo mesmo.
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A indisponibilidade do ser deve ser pensada de modo a não sufocar a alegria, permitindo repovoar o mundo de espécies e deixar que o ser se encarne sem preconceito em favor de uma retirada abstrata, justamente porque toda profusão também encontra na retirada o lugar em que se abriga.
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A decisão necessária a esse repovoamento não pode ser deduzida como simples condição técnica ou lógica, pois permanece ligada ao mistério da liberdade.
14. O atual, mesmo profanando esse mistério, não deixa de celebrá-lo sem o saber, e a decisão talvez constitua a chave da libertação obscuramente procurada no presente, cuja aspiração última não seria outra coisa senão a alegria; por isso, torna-se significativo que Hölderlin, antes de pronunciar essa palavra, tenha procurado estudar a natureza e perscrutar o enigma da proveniência das espécies, isto é, o sagrado.
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«A natureza natal me apreende tanto mais poderosamente quanto mais a estudo. A tempestade, não apenas em sua aparição suprema, mas precisamente sob esse aspecto (Ansicht), como potência e como figura (Gestalt), entre as outras formas (Formen) do céu; a luz em sua operação, nacionalmente e como princípio configurador dos modos (Weise) da partilha ou destino (Schicksal), de modo que alguma coisa nos seja sagrada; sua força quando se aproxima e quando se retira; o característico (das Karakteristische), as florestas e o encontro, numa única região, de diversos caracteres (verschiedene Karaktere) da natureza; o fato de todos os lugares sagrados da terra estarem reunidos em torno de um lugar, e a luz filosófica em torno de minha janela: eis agora minha alegria.»
