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Marques Cabral (2014:42) – A QUESTÃO DO SAGRADO EM HEIDEGGER

(…) Tomando como exemplo uma passagem paradigmática da Carta sobre o humanismo (GA9), verifica-se com nitidez a reinscrição de Deus e do sagrado a partir de questão levantada da verdade do seer (Seyn):

É só a partir da verdade do ser que se pode pensar na essência do sagrado. E é só a partir da essência do sagrado que se pode pensar a deidade. É só à luz da essência da deidade que se pode pensar e dizer o que deve nomear a palavra “Deus”. Ou não será necessário que possamos compreender e ouvir todas essas palavras com cuidado se quisermos, como homens, isto é, como seres ek-sistentes, poder experimentar uma relação de Deus com o homem. Pois como deve o homem que pertence à história universal da atualidade poder ao menos perguntar com seriedade e rigor se Deus se aproxima e se subtrai, quando ele mesmo negligencia adentrar primeiramente e pensar a única dimensão na qual aquela questão pode ser colocada? Esta é, porém, a dimensão do sagrado, a qual, quiçá já como dimensão, permanece vedada, se o aberto do ser não for iluminado e não estiver próximo do homem em sua clareira.

Apesar de não se poder aqui explicitar os diversos conceitos em jogo nessa passagem, deve-se observar que, após a viragem heideggeriana, o cerne de sua meditação recai sobre o acontecimento da verdade do seer (Seyn), concomitantemente, do mundo epocal que com sua essenciação se abre. Nesse acontecimento (Ereignis), destituído de fundamentos últimos para determinar os mundos históricos, emerge o abismo da diferença ontológica, que assinala a negatividade presente em todo e qualquer mundo epocal. A medida que a ek-sistência humana aparece como o lugar de articulação da verdade do seer, ela mesma experimenta a negatividade congênita em todo e qualquer mundo. Dessa remissão emerge a possibilidade de se repensar a essência do sagrado. Portanto, se a questão primordial de Heidegger, após a viragem (Kehre), é pensar os contornos e elementos ontológicos presentes na dinâmica de essenciação do seer, então, considerando que o problema do sagrado refere-se ao acontecimento da verdade do seer, o problema da (hierofania) irrompe naturalmente de sua filosofia.

(MARQUES CABRAL, Alexandre. Niilismo e Hierofania I. Rio de Janeiro: Mauad, 2014)

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