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BULTMANN

MARQUES CABRAL, Alexandre. Heidegger em Bultmann : da destruição fenomenológica à desmitologização teológica. Rio de Janeiro : Via Verita, 2017

Introdução

  • O pensamento não se estrutura destituído de laços históricos, pois o passado nos precede, de modo que nenhum pensamento acontece fora de um sistema de dependências, enraizando-se sobre um solo histórico que determina seu campo de realização, o que faz de todo exercício de pensamento uma tarefa tradicional, embora não signifique que seja mera cópia do passado, mas sim uma conexão necessária com o legado histórico, onde conceitos filosóficos e teorias dependem de contextos mais amplos, identificáveis com um a priori histórico, como afirmou Nietzsche ao dizer que os conceitos filosóficos não são fortuitos, mas crescem em relação e parentesco uns com os outros.
  • A singularidade de um pensador salvaguarda, ainda que tacitamente, alianças com temas e autores da tradição, mas nem sempre essas alianças são levadas a sério, seja pela dificuldade de uma erudição abrangente em um tempo de especialização intensa, seja porque a pesquisa é orientada por gostos pessoais que tendem a produzir uma aura de sacralidade no autor, obscurecendo suas conexões históricas e favorecendo um encurtamento hermenêutico que impede a compreensão dos contextos mais amplos.
  • A relação entre Heidegger e Bultmann assinala uma aliança de pensamento que precisa ser esclarecida, pois ambos se nutriram mutuamente, indicando que a grandeza de suas obras não nasceu do nada e que os nexos históricos do pensamento não se referem apenas a autores passados, mas também a laços entre contemporâneos; contudo, o modo como se dá essa mútua apropriação não é evidente, e o objetivo primário do livro não é assinalar a amplitude dessa apropriação, mas caracterizar o desenvolvimento da obra bultmanniana como realizadora do modo heideggeriano de compreensão da relação corretiva entre filosofia e teologia, além de apresentar a desmitologização como análogo teológico da destruição fenomenológica.
  • O pensamento de Heidegger é devedor de uma pluralidade de alianças com diversos autores da tradição, e a pesquisa em torno de sua obra destacou binômios clássicos como Heidegger e Aristóteles, Heidegger e Husserl, Heidegger e Dilthey, entre outros, com ênfases que variam conforme a fase do pensamento heideggeriano, mas que geralmente refletem a posição hermenêutica prévia do intérprete; no entanto, a relação com Dostoievski, por exemplo, embora sabida, não é devidamente investigada para mostrar como efetivamente se dá, o que também se manifesta na relação entre Heidegger e a teologia cristã contemporânea.
  • O que se sabe sobre a relação entre Heidegger e a tradição teológica ocidental deve-se em grande parte ao estudo histórico-biográfico de Hugo Ott, que mostra que Heidegger esteve ligado a questões religiosas desde o início, tendo nascido em uma família católica conservadora e sendo introduzido no catolicismo pós-conciliar de postura anti-modernista, onde encontrou um conjunto de iniciativas anti-liberais que combatiam as bases do pensamento moderno e as posturas liberais intra-católicas, como as críticas ao dogma da infalibilidade papal.
  • Heidegger, inicialmente encantado com o catolicismo anti-modernista, começou a se afastar dessa postura a partir de 1916, aproximando-se da escolástica à luz de suas pesquisas em lógica e história, buscando uma fundamentação ontológica para a lógica que pudesse renovar a escolástica a partir de dentro, como se vê em sua tese de qualificação sobre Duns Scotus, onde a pergunta pela essência do ser se coloca como base da metafísica e da lógica, antecipando o procedimento da destruição que se tornaria explícito em Ser e tempo.
  • Após 1919, Heidegger se aproxima cada vez mais da teologia protestante e do cristianismo primitivo, participando de seminários com Bultmann e manifestando seu interesse pelo esteio existencial do pensamento teológico cristão, chegando a afirmar ser ele mesmo um teólogo cristão, não no sentido de consentimento a dogmas, mas no interesse pela dinâmica vital intrínseca à experiência cristã de mundo, o que abre as portas para se repensar as bases fenomenológico-existenciais da filosofia e estabelece uma relação fecunda com a escola teológica de Marburg.
  • Rudolf Bultmann, nascido em 1884, tornou-se um dos maiores expoentes do pensamento teológico contemporâneo, e sua notoriedade deveu-se em muito à relação profícua com o pensamento heideggeriano, que foi condicionada por uma série de pressupostos históricos, incluindo sua formação inicial na teologia liberal, da qual rapidamente rompeu, assim como Barth, devido às críticas ao Iluminismo e ao método histórico-crítico que humanizava a revelação bíblica ao submeter as narrativas escriturísticas ao crivo da razão crítica.
  • O método histórico-crítico, que aplica aos estudos bíblicos o mesmo instrumental usado em qualquer literatura, reduziu as narrativas aos eixos históricos que as condicionam, avaliando sua verdade e valor, e seu desdobramento identificou-se com a gênese do liberalismo teológico, acompanhado de uma subjetivação da mensagem bíblica e da redução da pessoa de Jesus a uma terminologia humanista, como exemplificado na obra de Harnack, que concentrou a essência dos evangelhos em três eixos — o reino de Deus, Deus como Pai e o amor-ágape — desconsiderando os elementos escatológicos e acentuando o otimismo das práticas de humanização.
  • A Primeira Guerra Mundial colocou em xeque a força do liberalismo teológico, e a primeira grande crítica foi realizada por Barth, que descerrou o campo da teologia dialética, baseada na dialética entre a ação de Deus e o lócus da vida humana, afirmando que a salvação não provém da autonomia humana, mas de uma ação graciosa de Deus, de modo que o mundo aparece como profano e não pode legitimar uma teologia natural; a teologia dialética desimanentiza a relação Deus-homem e retira do homem qualquer estatuto de autonomia, fundando sua liberdade no resultado da ação graciosa de Deus.
  • Esse ambiente de crítica ao liberalismo preparou a relação apropriativa de Bultmann com a obra heideggeriana, e, ao assumir a cátedra em Marburg, Bultmann, embora não tenha abandonado o método histórico-crítico, o incrementou com a história das formas, concluindo que as narrativas evangélicas emergiram de pregações e tradições judaico-cristãs e helênicas, de modo que nunca acessamos o Jesus histórico puro, mas uma construção das comunidades primitivas, o que promoveu o deslocamento de Bultmann para a articulação entre existência e fé nos textos neotestamentários, onde o contato com Heidegger foi imprescindível.
  • O encontro entre Heidegger e Bultmann em Marburg em 1923 foi frutífero porque Heidegger, ávido pelas bases fenomenológico-existenciais do pensamento cristão, encontrou em Bultmann um terreno fértil, enquanto Bultmann, decepcionado com o liberalismo e a teologia dialética, encontrou em Heidegger novos conceitos para entender a autocompreensão existencial do cristão primitivo sem cair em otimismo antropológico ou individualismo existencial, e isso explica a convergência e a profunda amizade entre os dois, que estudavam juntos e se apoiavam mutuamente em suas pesquisas.
  • Apesar da convergência notória, há divergências entre Heidegger e Bultmann que precisam ser assinaladas para demarcar o campo de investigação; Heidegger, em carta de 1927, diferencia-se de Bultmann afirmando que sua abordagem é ontológico-crítica, enquanto a de Bultmann é ôntico-positiva, pois Heidegger trata do tema a partir do lado filosófico, sem tematizar o ôntico no sentido da positividade cristã, enquanto Bultmann aborda o assunto do lado teológico, de forma ôntico-positiva, sem fazer temático o ontológico.
  • A abordagem heideggeriana do cristianismo primitivo, como em sua Introdução à fenomenologia da religião, visa descrever a vida fática cristã por meio da experiência, buscando conquistar um fenômeno paradigmático que possibilite o acesso à “vida ela mesma”, de modo que a vida cristã deixa luzir o modo de ser da vida fática em sua historicidade e temporalidade; isso significa que Heidegger se relaciona com o cristianismo de forma ontológico-crítica, enquanto o modo ôntico-positivo de Bultmann caracteriza positivamente as configurações religiosas específicas, independentemente da questão da mobilidade da vida fática enquanto tal.
  • Bultmann, por sua vez, afirmou que a filosofia existencial, que conheceu no contato com Heidegger, teve decisiva importância para ele, pois encontrou um conjunto de conceitos que lhe permite falar adequadamente sobre a existência humana e, por conseguinte, da existência do crente; no entanto, a apropriação bultmanniana é independente e criativa, pois Bultmann autonomiza a analítica existencial heideggeriana, reduzindo a ontologia fundamental a alguns existenciais e usando Heidegger como instrumento para compreender o modo de ser da fé cristã, chegando a afirmar que a análise existencial de Heidegger parece uma exposição filosófica profana da visão neotestamentária do ser-aí humano.
  • Bultmann lê Heidegger através das lentes bíblico-cristãs, posicionando a obra heideggeriana como ancilla theologiae, e, em resposta a Jaspers, mostra que todo conceito existencial em sua desmitologização não possui autonomia, pois surge de uma situação hermenêutica concreta, e a análise existencial de Heidegger e a teologia contemporânea possuem o mesmo solo histórico, que fornece os critérios para a teologia se apropriar de Heidegger, o que mostra que não há uma relação harmônica entre as obras, mas divergências que exigem uma articulação cuidadosa.
  • Para relacionar Heidegger e Bultmann, não se pode fazer uma justaposição conceitual, pois isso desconsideraria a diferença entre seus horizontes hermenêuticos, já que ambos assinalaram suas diferenças; ainda que tenha havido apropriações criativas, o deslocamento de conceitos de horizontes distintos gera ressignificação, de modo que o que Heidegger entendeu por existência em Ser e tempo, quando apropriado por Bultmann, já não se identifica plenamente com o horizonte semântico heideggeriano.
  • O primeiro objetivo do livro é relacionar Heidegger e Bultmann pela hipótese de que a teologia bultmanniana realiza plenamente a tarefa corretiva da filosofia em sua relação com a teologia, como pensada por Heidegger, pois a obra de Bultmann inscreve todos os seus conceitos no caráter existencial da fé, mostrando a conexão entre ciência ôntica e ontológica sem anular a especificidade de seus horizontes, mas pensando uma relação positiva entre eles; um segundo objetivo é mostrar que Bultmann criou um procedimento análogo à destruição heideggeriana, a saber, a desmitologização, que, assim como a destruição, é uma reapropriação criativa da tradição por meio de uma redução fenomenológica que inscreve os conceitos na dinâmica existencial da fé.
  • O livro se chama Heidegger em Bultmann porque Heidegger está em Bultmann não somente como fornecedor de conceitos existenciais, mas pelo fato de Bultmann ter realizado a articulação entre teologia e filosofia pensada por Heidegger, e também no projeto da desmitologização teológica, que funciona como análogo teológico da destruição fenomenológica; o caminho do livro é seguir exegeticamente as obras de ambos e reconstruir a gênese de certos conceitos, evitando simplificações e buscando uma leitura cuidadosa, já que o diálogo desses dois pensadores já é parte da tradição.
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