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DESMITOLOGIZAÇÃO E DESTRUIÇÃO

MARQUES CABRAL, Alexandre. Heidegger em Bultmann : da destruição fenomenológica à desmitologização teológica. Rio de Janeiro : Via Verita, 2017

A desmitologização como análogo teológico da destruição fenomenológica

  • A relação analógica entre desmitologização teológica e destruição fenomenológica carece de caracterização prévia, pois nem Heidegger nem Bultmann relacionaram seus procedimentos hermenêuticos à luz do conceito de analogia – e Heidegger, em correspondência a Bultmann, não considerava o programa da desmitologização algo efetivamente relevante dentro da obra bultmanniana.
    • A despeito disso, o princípio hermenêutico schleiermacheriano segundo o qual a hermenêutica deve compreender uma obra melhor que seu autor autoriza ver o que não fora visto por Heidegger e Bultmann.
    • O que importa mostrar é que a desmitologização bultmanniana mantém uma relação de proporcionalidade – analogia de proporcionalidade própria – com a destruição fenomenológica, possuindo caráter claramente positivo e fornecendo a medida para desconstruir a tradição teológica e devolver seus conceitos aos fenômenos originários existenciais que os sustentam.
  • A doutrina tomista da analogia distingue três tipos: analogia de atribuição, analogia metafórica e analogia de proporcionalidade própria – sendo esta última a “analogia metafísica por excelência”, segundo Maritain.
    • Na analogia de atribuição pura, o conceito é em si mesmo unívoco e só se dá a conhecer plenamente por relação com o sujeito primário – como “são” dito de um clima, que remete à saúde do organismo vivo: “Vê-se imediatamente que, nessas condições, a analogia da atribuição, quando está só, não leva a apreender a coisa analogicamente conhecida segundo o significado próprio do conceito”.
    • Na analogia metafórica, um conceito unívoco é transferido de um contexto a outro por semelhança de relações – como “águia” dito de um orador por causa da sublimidade de sua fala comparada às alturas do voo do pássaro – e ela “não leva a alcançar jamais, por si mesma, segundo o significado próprio do conceito, a coisa analogicamente conhecida”.
    • Na analogia de proporcionalidade própria, o conceito é em si mesmo análogo e “se acha intrínseca e formalmente em cada um dos analogados” – como “cognoscente” dito do sentido e da inteligência, ou “ser” dito da criatura e de Deus, que é ato puro de ser enquanto as criaturas são limitadamente seu ato de ser.
  • Ao afirmar que a desmitologização é análogo teológico da destruição, pretende-se designar uma analogia de proporcionalidade própria segundo a qual ambos os procedimentos concretizam, de modos distintos, o que se pode chamar de apropriação criativa da tradição, a partir da desconstrução de conceitos seus e da reinscrição dos conceitos fundamentais nos fenômenos originários de caráter existencial dos quais hauriram suas forças.
  • A destruição fenomenológica heideggeriana é uma exigência da ontologia fundamental – cujo objetivo é investigar o sentido do ser – e parte do reconhecimento de que a tradição já obscureceu o acesso aos fenômenos originários por meio de conceitos calcificados provenientes da existência decadente do ser-aí.
    • A questão heideggeriana do sentido do ser resulta da apropriação da questão aristotélica da relação entre unidade do ser e pluralidade de sentidos dos entes – mas Aristóteles respondeu por meio de uma hipóstase ontológica, a ousía, deixando de lado a diferença ontológica entre ser e ente.
    • Para Heidegger, o elemento uno que sustenta a multiplicidade de modos de ser dos entes é o mundo – correlato intencional do ser-aí –, que é histórico e não contém fundamentos absolutos, o que torna a investigação ontológica também eminentemente histórica.
    • A vigência do passado histórico no labor filosófico transforma a filosofia em acontecimento sempre tradicional: a tradição precede a investigação e a guia, fazendo com que os fenômenos apareçam de modo encurtado, sem a transparência hermenêutica necessária para medir a plausibilidade dos conceitos legados.
    • Heidegger percebeu que os conceitos da história da ontologia foram hauridos do horizonte da existência decadente, onde a homogeneidade ontológica faz com que Deus, um utensílio, o ser humano e uma obra de arte sejam todos interrogados pelo “o que são” – pergunta pelas propriedades previamente dadas.
    • A destruição não é dizimação da tradição: como esclarece Gadamer, trata-se de “uma desconstrução das camadas sedimentadas” com “uma meta segura” – “tratar desconstrutivamente a terminologia tradicional, a fim de reconduzi-la a experiências originárias”.
    • Destruir é remover os “entulhos acumulados” pela tradição referentes aos conceitos decisivos da filosofia, redescobrindo seus campos fenomênicos específicos, o que permite construir novos conceitos condizentes com o modo de ser de cada campo e apropriar-se criativamente do passado filosófico como fonte de revigoramento do pensamento.
  • O procedimento hermenêutico da desmitologização nasce de uma dupla exigência histórica: a modernidade torna inviável a interpretação literal dos textos bíblicos, e a hermenêutica moderna – Schleiermacher, Dilthey – revela que toda interpretação já é movida por pressupostos e que a exegese tradicional parte orientada pelos resultados que deve alcançar, geralmente condicionados por algum dogma.
    • A questão da pré-compreensão adequada ao texto bíblico – como o leitor pode saber que está em sintonia com a questão propriamente dita da bíblia – permitiu a Bultmann introduzir um elemento claramente positivo no conceito de desmitologização.
    • O que conecta o intérprete ao assunto do texto não é intuição congenial nem captação da vivência do autor, mas o fato de o intérprete já estar orientado pelo mesmo “interesse existencial” que determina o texto – e o tema central da bíblia é a ação de Deus na existência humana, que só se desvela para uma compreensão existencial específica: a fé.
    • A fé – não anuência a um sistema doutrinário, mas modo de ser onde a ação de Deus descerra-se como correlato intencional – fornece a “medida hermenêutica” que é condição de possibilidade de uma reta apreensão da mensagem escriturística, sendo ela própria uma modulação existencial que rearticula a estrutura existencial da existência pré-cristã.
  • O mito aparece positivamente para a exegese bíblica porque nele está em jogo uma autocompreensão existencial do ser humano – a finitude do homem e do mundo em contraste com poderes divinos que os fundamentam –, mas o mito imanentiza o transcendente, reduzindo-o ao espaço e ao tempo, confiscando a transcendência e inscrevendo-a na lógica da imanência antropocósmica.
    • O intérprete-crente, com o auxílio de métodos científicos – histórico-críticos, análise morfológica, filologia – e orientado por conceitos da filosofia “existencialista”, desmitologiza os textos escriturísticos, compreende a intenção existencial dos mitos e se apropria criativamente da tradição teológica, retraduzindo conceitualmente a experiência existencial da ação de Deus.
    • A desmitologização permite ao exegeta diferenciar os graus de intensidade da ação de Deus nos textos bíblicos – vislumbrando na fé em Cristo, sobretudo na literatura paulina e no evangelho joanino, o lugar de sua manifestação mais íntegra – e, em última instância, salvaguarda a possibilidade de o ser humano crente alcançar sua plenitude existencial na entrega à ação de Deus pela fé.
  • O caráter análogo da relação entre destruição e desmitologização apresenta-se na relação de proporcionalidade entre apropriação criativa da tradição e reinscrição dos conceitos fundamentais nos fenômenos originários de caráter existencial, podendo ser formulado em três etapas:
    • A) A destruição fenomenológica heideggeriana apropria-se criativamente da tradição filosófica, assim como o faz a desmitologização teológica bultmanniana.
    • B) A destruição de Heidegger reinscreve os conceitos fundamentais da tradição filosófica nos fenômenos originários da filosofia – mundo, liberdade, verdade, tempo, fundamento –, assim como a desmitologização de Bultmann reinscreve os conceitos fundamentais da tradição teológica – salvação, redenção, juízo, condenação – no campo fenomênico originário da fé, onde se descerra a articulação essencial entre ação de Deus, existência humana e conquista da ipseidade autêntica.
    • C) Tanto a destruição quanto a desmitologização dependem do caráter existencial dos fenômenos originários em que se assentam os conceitos fundamentais de seus respectivos saberes.
  • O que Heidegger está em Bultmann não se define por relação causal – os conceitos existenciais de Ser e tempo não “causaram” o modo como Bultmann fez teologia – mas por um diálogo fecundo, por vezes silencioso, no qual a relação entre ambos deixa que cada um venha a ser quem é na especificidade de seus campos investigativos, promovendo a reinvenção de suas tradições.
    • Para Buber, o diálogo autêntico – “não importa se falado ou silencioso” – é aquele “onde cada um dos participantes tem de fato em mente o outro ou os outros na sua presença e no seu modo de ser e a eles se volta com a intenção de estabelecer entre eles e si próprio uma reciprocidade viva”.
    • Na existência dialógica, a ipseidade de cada um é determinada pela relação com o Tu: “A existência dialógica recebe, mesmo no extremo abandono, uma sensação áspera e revigorante de reciprocidade” – e não se pode compreender um singular sem as relações que o geraram.
    • A presença de Heidegger em Bultmann é evidentemente tácita e silenciosa – nem Bultmann nem Heidegger deixaram rastro de que tivessem pensado e querido isso –, mas é ela que permite mostrar como a filosofia e a teologia reinventaram seus caminhos por meio desse diálogo, restando como tarefa para outra ocasião esclarecer como Bultmann esteve presente em Heidegger.
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