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Ontologia de Hegel
MARCUSE, Herbert. Hegel’s ontology and the theory of historicity. Cambridge, Mass: MIT Press, 1987.
I
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Publicação original em 1932 e reedições sem revisões em 1968 e 1975; traduções para francês e italiano existem desde os anos 1970, sendo esta a primeira versão em inglês.
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A obra culmina o período do “marxismo heideggeriano” ou “existencial” de Marcuse, que havia obtido doutorado em 1922 e retornado a Freiburgo em 1927 para trabalhar com Heidegger, até deixar a Alemanha em dezembro de 1932.
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O trabalho foi originalmente concebido como tese de habilitação, mas há duas versões sobre seu destino acadêmico: uma alega rejeição por Heidegger devido a diferenças políticas, com intervenção de Husserl; outra sustenta que Marcuse nunca o submeteu formalmente, prevendo a impossibilidade sob o regime nazista.
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A segunda versão é considerada mais plausível, pois projeta para trás simpatias nazistas de Heidegger que só se tornaram públicas em 1933; o próprio Marcuse, embora reconheça aspectos “repressivos” em Ser e Tempo, nega que antes de 1933 houvesse indícios claros disso.
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Em carta de 1947, Marcuse expressa conflito ao enviar ajuda a Heidegger, reconhecendo que o filósofo de 1933-34 não pode ser completamente diferente do anterior, e que Heidegger justificou filosoficamente o apoio ao regime nazista.
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Conclui-se que as circunstâncias acadêmicas da obra permanecem obscuras, com indícios de que Marcuse pode ter fornecido uma cópia informal a Heidegger, havendo contradições em seus próprios relatos sobre a reação do mestre.
II
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O comentário detalhado sobre a Lógica e a Fenomenologia do Espírito de Hegel está em primeiro plano, enquanto a relação com Heidegger e os fundamentos hegelianos do marxismo constituem a intenção oblíqua, não abordada diretamente.
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Entre 1928 e 1933, Marcuse desenvolve uma interpretação do marxismo oposta à ortodoxia comunista e à Segunda Internacional, criticando o uso abusivo da dialética tanto na filosofia quanto na teoria marxista.
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A dialética é tratada ora como panaceia filosófica vaga, ora como resquício hegeliano a ser eliminado, ou ainda como justificativa para erros e recuos, resultando na fuga de decisões concretas.
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Marcuse critica a falta de rigor no uso da dialética e se opõe às interpretações materialistas vulgares que a eliminam, bem como ao marxismo kantiano, que considera eclético e incapaz de tematizar o mundo social.
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Para Marcuse, a filosofia transcendental kantiana não pode fundamentar a experiência social porque exclui a realidade concreta; a fundamentação transcendental da experiência social é uma quimera.
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O ensaio crítico sobre Korsch exemplifica essa tentativa, mostrando como a filosofia, por si mesma, caminha para uma efetivação que a supera (Aufhebung), eliminando formas imediatas inautênticas, preservando o essencial e elevando-o à forma intrínseca adequada.
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A filosofia de Dilthey, como Lebensphilosophie, é apresentada como o reconhecimento do ser da vida humana como fundamento da filosofia, tendo reconhecido o caráter ontológico da realidade histórico-social como “Vida”.
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A “Vida” não significa um estágio da natureza nem o oposto do Espírito, mas o modo como certos fatos existem no todo do mundo dado, referidos a uma consciência compreensível que experimenta um mundo interior de significados.
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A “historicidade” designa o modo como as relações efetivas se corporificam em objetivações da Vida (instituições, práticas, artefatos), cujo surgimento, desenvolvimento e desaparecimento constituem a história.
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A pergunta final sobre a forma da efetivação superadora da filosofia leva Marcuse a definir a filosofia como o esforço humano permanentemente renovado de “autocompreensão” (Selbstbesinnung) sobre a situação histórica, entendida como totalidade de relações e atitudes vividas.
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A filosofia é definida como a expressão científica de uma atitude humana fundamental em relação ao Ser e aos entes, através da qual uma situação histórico-social pode se expressar mais clara e profundamente do que nas esferas práticas reificadas.
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A leitura ontológica de Dilthey por Heidegger é criticada por distorcer princípios básicos, substituindo a categoria fundamental de Vida pela de Ser, alterando os fundamentos e a autocompreensão do projeto filosófico.
III
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A obra abre com a tentativa de desvelar e determinar as características fundamentais da historicidade, que define a história e a distingue da “natureza” ou da “economia”, significando o sentido do “é” histórico, ou seja, o sentido do Ser do histórico.
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A questão não é a historiografia ou a história como objeto de pesquisa, mas o modo de Ser (Seinsweise) do histórico, seguindo a lição heideggeriana sobre a prioridade da pergunta pelo Ser sobre as questões das ciências particulares.
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Distinguem-se dois níveis de investigação: o nível ôntico da experiência cotidiana do histórico, e o nível ontológico, que pergunta pelos pressupostos que levam a experimentar e interpretar a historicidade como um modo de “ser como”.
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O segundo aspecto heideggeriano é a centralidade do Dasein, ente para quem seu próprio Ser está em questão, o que leva a uma “analítica existencial” como foco principal, orientando Marcuse a colocar o problema do Ser em termos do conceito hegeliano de “Vida”.
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A investigação do sentido do Ser do histórico deve ser colocada em relação à investigação mais avançada da historicidade no presente, definida pela obra de Dilthey, que, contudo, não esclareceu sua dívida para com a ontologia hegeliana.
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O conceito ontológico de Vida é central para entender o conceito hegeliano de historicidade, orientando o próprio sentido do Ser em uma direção específica, embora a definição original de Ser orientada para a realidade ontológica da Vida tenha sido obscurecida e reprimida pelo próprio Hegel.
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Para revelar essa tensão, a obra investiga o sentido do Ser na Lógica de Hegel, documenta a ambiguidade e, em seguida, recua aos escritos anteriores à Lógica (Escritos Teológicos de Juventude e Fenomenologia do Espírito), onde a orientação ontológica para o Ser da Vida é explícita.
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Nos primeiros escritos, Hegel define a tarefa da filosofia como a superação da “cisão” (Entzweiung) característica da Vida e da filosofia moderna, mostrando o solo comum do qual procedem as oposições, a totalidade autoprodutora e autossustentadora dos entes.
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Hegel define o sentido do Ser como “unidade”, vista como uma estrutura processual de unificação em movimento, onde a diferença é intrínseca a cada ente, e a unidade não é dada e fixa, mas alcançada e sustentada pela motilidade (Bewegtheit).
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Porque os entes são entendidos como estruturas de unidade unificante em movimento, o passado é um aspecto decisivo do presente; a dimensão da essência (Wesen) revela a historicidade intrínseca, e o Ser é apreendido como efetividade (Wirklichkeit), remetendo à ontologia aristotélica e à categoria de energeia.
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Na Lógica, a Vida é tratada como uma forma inferior da Ideia, que ainda não alcançou a verdade e a liberdade; embora todo o sentido do Ser seja orientado para o fenômeno da Vida, apenas o pensamento conceitual realiza o sentido mais elevado de unidade unificante, revelando a ambiguidade da ontologia hegeliana.
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A tensão entre Vida e Ideia Absoluta na Lógica se repete na Fenomenologia do Espírito através da relação entre Vida e Espírito, onde o Espírito, surgindo da Vida, desdobra-se em um “mundo” transformado por desejo e trabalho, mas sua verdade é a interiorização (Verinnerlichung), não a externalização (Entäusserung).
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Esse dualismo na fundamentação ontológica influencia o conceito hegeliano de historicidade, manifestando-se nas seções finais da Fenomenologia, onde as duas tendências (uma da Ideia Absoluta, que reprime a historicidade; outra do conceito ontológico de Vida, que a culmina) são forçadas a se encontrar.
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A leitura de Hegel proposta por Marcuse encontrou ceticismo quanto à centralidade do termo “historicidade”, que Hegel usou raramente, mas a análise mostra que a transformação conceitual operada por Hegel, onde todo “dado” é um “tornado-se”, torna a relação entre razão e história uma questão central.
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A leitura de Marcuse enfatiza a dialética do trabalho e do desejo na Fenomenologia do Espírito, especialmente no episódio “O reino animal espiritual e o engano”, onde a atividade constitutiva de objetos e a constituição intersubjetiva de um mundo compartilhado são centrais.
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O trabalho é sempre de um indivíduo específico que se realiza através dele, mas para os outros é “estranho” e deve ser superado pela ação transformadora, tornando-se objeto de luta; a realidade do indivíduo e de sua obra prova-se como momentos irreais e que desaparecem.
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A dialética do “trabalho” e do “reconhecimento” resolve-se quando o objeto do trabalho se torna a “coisa mesma” (die Sache selbst), referindo-se a um contexto de relações, uma realidade objetiva formada pela atividade humana cumulativa, e a atividade perde seu caráter individual para representar as realizações de todo um povo.
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Em contraste com Heidegger, que fundamenta a historicidade na temporalidade individual, Marcuse enfatiza a historicidade “objetiva” de todos os entes, distanciando-se significativamente do ensinamento heideggeriano, mesmo que o problema inicial, o método e o quadro categorial utilizados sejam devedores a Heidegger.
IV
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Adorno foi o primeiro a notar que a interpretação de Marcuse se afasta do ensinamento público de Heidegger, tendendo da “significação do Ser” para a revelação dos entes, da ontologia fundamental para a filosofia da história, da historicidade para a história, criando uma ponte entre ontologia e facticidade.
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Adorno observa que, se Marcuse vai tão longe a ponto de deduzir a possibilidade da exposição do ser fático da própria estrutura ontológica, seria consistente perguntar por que a questão “ontológica” deveria preceder a interpretação dos fatos históricos reais.
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“Preencher a lacuna entre ontologia e facticidade” é um desiderato implícito da obra, na medida em que a ênfase nas objetivações da Vida indica um significado que vai além do mero “ser-à-mão” (Zuhandensein) heideggeriano.
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Ao ler a obra, deve-se resistir à tentação de ver mais continuidade com o resto da obra de Marcuse do que realmente existe, e também à tentação de tratá-la como um trabalho juvenil a ser rejeitado.
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A obra não fundamenta muitos elementos da Teoria Crítica plena, pois a investigação ontológica e uma teoria materialista da sociedade são incompatíveis, mas a centralidade dos problemas de objetivação e constituição do mundo indica continuidade com a apropriação de Hegel por Horkheimer.
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A ênfase no radicalismo da afirmação de Hegel de que “o racional é o efetivo” e o reconhecimento do quietismo de seu inverso apontam para o mesmo problema da relação entre história e Saber Absoluto discutido extensivamente na obra presente.
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Uma leitura cuidadosa das duas interpretações de Hegel revelaria, contrariando Palmier, mais continuidades do que rupturas, especialmente no que diz respeito à abertura ou fechamento da história à transformação futura.
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Esse aspecto da historicidade se revela na obra posterior de Marcuse, com a interpretação das fontes da desobediência e da revolta como enraizadas na memória coletiva, indicando que a historicidade não pode ser entendida apenas em termos de objetivações ou da temporalidade individual, mas também nas teias narrativas e comunicativas compartilhadas que constituem o mundo da vida.
V
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A presente tradução, sendo uma interpretação, enfrentou o estilo tortuoso de Marcuse, combinando conformismo acadêmico, neologismos heideggerianos e profundidade filosófica, mas buscou capturar a concisão e a coerência das leituras da Lógica e da Fenomenologia.
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