User Tools

Site Tools


estudos:marcuse:fenomenologia:dialetica

4 Fenomenologia Dialética

“Contributions to a Phenomenology of Historical Materialism”, in MARCUSE, Herbert; WOLIN, Richard; ABROMEIT, John. Heideggerian Marxism. Lincoln: UNP - Nebraska, 2005.

4. Esboço de uma Fenomenologia Dialética

  • A problemática da existência histórica conduziu por si mesma ao conteúdo material da historicidade – conteúdo que designa o círculo de condições históricas concretas dentro do qual um Dasein concreto existe e no qual, em cada caso, o Dasein e a totalidade de remissões de seu mundo estão enraizados.
    • Marx determinou esse conteúdo material como a base natural e econômica da sociedade – não uma substância imutável que paira fora do movimento histórico e opera sobre ele, mas algo que está incluído nesse movimento.
    • Para Marx, a natureza tem sua própria história, assim como a economia tem uma história – e uma vez que estão dadas, constituem uma “faticidade que não pode ser inteiramente colocada sob o poder do espírito”, a base do Dasein concreto e de sua totalidade de remissões.
  • O marxismo é uma teoria histórica em duplo sentido: primeiro, porque seu objeto é histórico e é tratado de modo histórico; e segundo, porque intervém, dentro de uma situação histórica concreta, no movimento histórico – e o método com que o marxismo se aproxima de seu objeto foi denominado por Marx de método dialético.
  • A tarefa presente é unicamente revelar o significado metodológico da dialética e perguntar se ela é adequada a seu objeto – Marx e Engels sublinharam repetidamente que a dialética não é aplicada arbitrariamente a seu objeto, mas que “corresponde” ao próprio movimento da história.
    • Marx anota, em passagem célebre do posfácio à segunda edição de O Capital, que a dialética capta “toda forma historicamente desenvolvida no processo de movimento”.
    • O método dialético dissolve categorias históricas abstratas que se tornaram rigidamente unívocas, revelando-as como “formas de existência [Daseinsformen], determinações de existência”, reconduzindo-as a seu chão único, vivo e concreto.
    • Engels: “o grande pensamento fundamental de que o mundo não pode ser compreendido como um complexo de coisas prontas, mas antes como um complexo de processos, em que as coisas – aparentemente estáveis não menos do que suas imagens-pensamento em nossas cabeças, os conceitos – passam por um incessante processo de vir-a-ser e perecer […]”
    • Lenin: “A lógica dialética exige que vamos mais longe. Para verdadeiramente conhecer o objeto, é necessário apreendê-lo e pesquisá-lo por todos os lados, em todas as suas conexões e 'mediações'. […] Em segundo lugar, a lógica dialética exige que o objeto seja tomado em seu desenvolvimento, em seu 'automovimento' e em suas mudanças. […] Em terceiro lugar, toda a práxis humana deve ser incluída na 'definição' do objeto, não apenas como critério de sua validade mas também como determinação prática da conexão do objeto com aquilo que o homem requer. Em quarto lugar, a lógica dialética ensina que 'não há verdades abstratas; a verdade é sempre concreta'.”
  • A forma específica de tese, antítese e síntese indica, em seu próprio método, a necessidade de ser fiel à necessidade imanente do movimento histórico – necessidade imanente que encontra sua expressão mais clara no fato de que as causas do movimento histórico do status quo para o que há de vir estão já plenamente presentes no mundo tal como existe no presente.
    • É por esse princípio que impulsos ou intervenções transcendentes, meta-históricos ou a-históricos são excluídos – mas, na medida em que esse desenvolvimento se realiza apenas pela ação histórica do homem, o que há de vir tomará sempre a forma de uma “negação do status quo”.
    • A resolução em direção à existência autêntica, consciente de seu destino, só é possível – como Heidegger esclareceu – como uma “desautorização” do passado, cuja dominação se interpõe sempre sob a forma da decaída – o que, conjugado com o avanço marxiano à concreção prática, constitui a teoria da revolução.
    • O método dialético que torna esses contextos aparentes é “crítico e revolucionário em sua essência.”
    • Marx aplicou a dialética não apenas à análise de objetos sociais e econômicos em geral, mas também à investigação de situações históricas concretas – em particular em As Lutas de Classes na França, O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte e nos endereços do Conselho Geral da Internacional.
  • Toda tentativa de cindir a totalidade do Dasein humano em teoria e práxis como se fossem modos de conduta assentados em fundamentos ontológicos diferentes contradiz a estrutura essencial da historicidade.
  • O pré-requisito para a genuinidade do método dialético é uma historicidade adequada ao ser de seus objetos – o que exige examinar a modificação do método fenomenológico requerida pela historicidade do Dasein.
  • Fenomenologia significa: deixar que questões e abordagens sejam guiadas pelos próprios objetos, trazendo os objetos plenamente à vista – mas ao serem apreendidos, os objetos sempre já se encontram na historicidade.
    • Há um método científico – como o da matemática e da física matemática – que começa por ver seus objetos em completa abstração de sua historicidade, tratando-os como principialmente a-históricos; e pode fazê-lo com sentido, pois o tipo de ser de seu objeto não é histórico.
    • Contornar a esfera da historicidade é, porém, completamente descabido em todas as ciências que tratam da existência humana, dos modos dessa existência e dos domínios de significado que são apreendidos por elas como “objetos de significância” [Bedeutsamkeiten].
  • A fenomenologia não deve jamais deixar sua investigação terminar simplesmente com a exibição da historicidade de seu objeto, para só então devolvê-lo à esfera da abstração – ela deve manter constantemente seu objeto na concreção mais rigorosa, o que significa permitir que a situação histórica concreta, seu concreto “conteúdo material”, penetre na análise.
    • Uma fenomenologia do Dasein humano carece de riqueza e clareza necessárias se passar por cima do conteúdo material do Dasein histórico – e esse é o caso com Heidegger.
    • Se o Dasein é histórico em seu próprio ser, então está a cada momento em uma situação histórica concreta que deve ser primeiramente destruída antes que sua estrutura básica possa ser exibida.
  • A realização do método dialético é precisamente essa última concreção – fazer justiça, em cada momento, à situação concreto-histórica específica de seu objeto, reunindo os abstracta petrificados e flutuantes com a existência humana “que lhes pertence”.
    • A verdadeira dialética só pode cumprir a exigência de concreção última quando, com base no conhecimento da situação histórica concreta, extrai também conclusões corretas para a esfera decisiva da existência humana: a esfera da práxis.
    • A dialética estende a linha da concreção ao extremo ao forçar o Dasein humano específico que ela aborda em suas análises a tomar, com toda a sua existência, uma posição prática e a agir de acordo com sua situação histórica – o significado do método dialético consiste precisamente no fato de que ele culmina em um método de ação de acordo com o conhecimento.
  • Exige-se, por um lado, que a fenomenologia do Dasein humano iniciada por Heidegger avance, chegando à sua completude em uma fenomenologia do Dasein concreto e da ação histórica concreta exigida pela história em cada situação histórica – e, por outro lado, que o método dialético do conhecer torne-se fenomenológico, incorporando a concreção na plena compreensão do objeto.
    • O método dialético não deve, em sua análise do particular dado, contentar-se simplesmente em determinar a posição histórica do dado ou em estabelecer seu enraizamento em uma situação histórica da existência humana – deve antes perguntar se os fatos particulares se esgotam no que é dado ou se o dado preserva em si um sentido próprio que persiste ao longo de toda a historicidade.
  • Somente com a unificação de ambos os métodos – uma fenomenologia dialética que representa um método de constante e extrema concreção – é possível fazer justiça à historicidade do Dasein humano.
  • O domínio de validade da fenomenologia dialética estende-se, em primeiro lugar, a uma existência humana que é histórica em seu próprio ser – em sua estrutura essencial bem como em suas formas e configurações concretas – e abrange ainda todas as dimensões de significado moldadas pela existência humana, o que Dilthey chamou de “história do espírito” [Geistesgeschichte].
    • A esfera da natureza pode também tornar-se objeto da fenomenologia dialética na medida em que aqueles elementos dela que estão “na historicidade” sejam tematizados – há uma ciência natural dialética, não porém na física mais nova, como Engels erroneamente acreditava, mas sim como história da natureza em sua relação ativa com um Dasein particular.
    • A ciência matemática da física não é dialética: ela trata seus objetos em abstração de toda historicidade – e pode fazê-lo com sentido, pois o ser da natureza simplesmente não é histórico do modo como o ser do Dasein é. A natureza tem uma história, mas não é ela mesma história. O Dasein é história.
    • A ciência dialética fundamental é a ciência da essência da historicidade em geral – de sua estrutura e das regras de movimento e das formas possíveis de existência do Dasein histórico; Dilthey abordou esse tema fundamental em sua Introdução às Ciências do Espírito.
    • Para Marx, o termo “materialismo histórico” refere-se a esse domínio de insights básicos sobre a estrutura da historicidade.
  • É somente no domínio da historicidade que a questão da correção do marxismo pode ser posta com sentido – todas as verdades pertinentes à estrutura da historicidade em geral e do Dasein histórico em geral são, nesse sentido, universalmente válidas; mas somente essas verdades, pois todos os outros insights dialéticos referem-se a verdades que pertencem a uma historicidade particular e concreta.
  • O problema do “fato puro” – que ocupou particularmente o estudo da história desde Droysen – revela que uma história de “fatos puros” equivaleria a um completo esvaziamento da história, pois nada restaria além de um esqueleto espacial-temporal nu.
    • Um fato é produzido em sua pureza histórica quando é situado no contexto concreto em que primeiro se tornou um fato – e ao ser situado, o fato assume uma relação multivalente correspondente à multiplicidade de significados que possuía para o Dasein histórico da época.
  • Uma aparente contradição interna da dialética se anuncia: se todos os fatos são apreendidos em sua necessidade histórica, não são todos os fatos então afirmados? Não obstaculizaria essa equivalência dialética de valores a verdade da decisão? – Mas o valor existencial autêntico é a verdade da existência, o que significa existir apropriadamente dentro da possibilidade autêntica da existência.
    • É tarefa urgente diferenciar o valor individual de uma pessoa, sua existência e contribuição, da herança histórica e da situação histórico-social em que a pessoa se encontra.
    • Deve-se examinar se e em que grau formas históricas concretas do Dasein – sistemas sociais – podem ser valiosas em e por si mesmas, de tal modo que formas históricas do Dasein necessariamente tornem impossível a realização de certos valores existenciais, sugerindo que a realização desses valores só se tornaria possível sob uma nova forma histórica do Dasein.
  • A dialética não pode apreender todos os âmbitos de valor – há valores do Dasein solitário, valores conquistados precisamente em reação à historicidade e cuja grandeza se alimenta, em grande parte, do heroísmo trágico da luta sem esperança contra a historicidade; a dialética pode demonstrar a marginalidade de tais figuras, formas e padrões, mas não diz nada sobre seu valor imanente.
  • É precisamente o conhecimento da historicidade que conduz à decisão mais momentosa: a decisão de lutar pela necessidade reconhecida, mesmo contra a própria existência herdada do Dasein, ou de permanecer em formas necessariamente decaídas de existência.
estudos/marcuse/fenomenologia/dialetica.txt · Last modified: by 127.0.0.1