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O Tempo Verbal

Maldiney1975

As três dimensões do verbo não formam três estágios simplesmente superpostos. A anterior emerge na seguinte e esta daquela. O desiderativo, por exemplo, envolve um futuro imediato a partir do qual o futuro se desenvolve como região temporal específica. Esse envolvimento-desenvolvimento vale para todos os momentos da cronogênese. Se foi necessário esperar até meados do século XIX para que fosse reconhecida cientificamente a dimensão aspectual do verbo grego, embora um grego de hoje e de sempre possua dela o sentimento direto, é porque, nem no seu emprego sincrônico, nem na diacronia imanente à constituição do sistema verbal, o aspecto e o tempo são — embora distintos — exatamente contíguos. As dimensões da temporalidade expressa pelo verbo não comunicam entre si pelos limites que as separam, mas pelos seus horizontes. A segunda nasce sob o horizonte da primeira, na abertura prospectiva da qual ela própria possui o seu horizonte de anterioridade. Tal é o princípio de continuidade da cronogênese. A temporalização que se cumpre ao curso e ao interior da língua procede de um estado anterior da temporalidade, sustentado ele mesmo por uma primeira atividade temporalizante. A razão disso é que as dimensões aspectuais, modais e temporais (no sentido estrito do tempus) não são nem em si mesmas nem em sua relação estruturas estáticas, mas processos. Do mesmo modo que no vivo o avanço do comportamento sobre o órgão e a função condiciona toda evolução, cada dimensão verbal transgride ou transcende o sentido imanente à sua estrutura. Ela é — na própria língua — da ordem do signo, não do símbolo — salvo quando a língua se tornou um bem de mão-morta. Todas as dimensões verbais são temporalizantes porque todas possuem a constituição existencial da preocupação, no sentido da pré-ocupação da presença.

O querer e o desejo — diz Heidegger — estão, por necessidade ontológica, enraizados na presença enquanto preocupação; não se pode caracterizá-los simplesmente como Erlebnisse ontologicamente indiferentes que ocorrem em um fluxo ele mesmo inteiramente indeterminado quanto ao seu sentido de ser. O mesmo ocorre com a inclinação e a impulsão. Esta visão de Heidegger apropriada aos modos vale também para o aspecto. No verbum infinitum que compreende as formas quase nominais do infinitivo e do particípio, a relação pática se apaga com a marca da pessoa. A temporalidade é imanente ao estado de coisa ou ao curso do processo expressos pelo verbo: ela é aspecto. A primazia da dimensão aspectual nas formas quase nominais, que representam no sistema verbal o primeiro nível da cronogênese, possui o seu correspondente no antigo indo-germânico, onde a noção gramatical de tempo ainda não existe. Tempo (tempora) no sentido ulterior, não o eram nem o presente nem o perfeito. Em grego, a noção de aspecto é mais estável do que a de tempo.

O que se denomina sistema temporal do grego nem sempre designa, mesmo no indicativo, um tempo determinado do ponto de vista do locutor; frequentemente designa até mesmo um outro que não aquele cujo nome carrega. Por outro lado, todas as formas pertencentes ao que se nomeia um sistema temporal, isto é, todas as formas que comportam o mesmo radical de tempo, o indicativo como os modos no sentido estrito e o verbum infinitum, mostram o mesmo aspecto. É somente pelo aspecto e não temporalmente que se distinguem em geral um subjuntivo, optativo, imperativo, infinitivo ou particípio de Presente e de Aoristo. Apenas os indicativos possuem também, sem outra indicação, uma relação com o tempo.

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