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estudos:maldiney:maldiney-aitres229-230-a-presenca-so-existe-se-significando

a presença só existe se significando (Aîtres:229-230)

Maldiney1975

A presença só existe para se significar e só se significa para existir. Todo sentido é articulação da evidência e só há evidência do aberto. Mas o aberto, fundamento do sentido, é também o abismo onde todo limite se afunda. A presença se abole tanto na transparência absoluta quanto na opacidade absoluta. Ela só é ex-istência e só se manifesta na abertura do aberto, na elucidação da luz, no espaçamento do espaço, na instância do instante. Só podemos nos determinar a atravessar o espaço ou percorrer o tempo porque já estamos abertos à sua abertura e expostos à sua exposição. Sua abertura é a de uma infinidade de horizontes que se transformam uns nos outros, sustentada pela possibilidade de uma aproximação por distanciamento ou antecipação de nós mesmos. Essa possibilidade faz parte do nosso poder de ser. E o espaço e o tempo estão envolvidos nela sob a forma não temática, tensional, de um esquema subespacial e de um esquema subtemporal. Da mesma forma que a linguagem só é visível a partir de um esquema sublinguístico. O mesmo se aplica ao significado do ser para o existente — que se revela nele. Dos três sentidos do sentido: significado (conceitual), manifestação (sensível), direção (tensionais), o último é a raiz dos outros dois. É esse sentido que está na raiz do mito. “Para o mito antigo”, diz W. Otto, “o deus, embora se apresente sob a figura de uma personalidade cheia de poder, é, em última análise, um só com o espírito e a forma, em uma palavra, com o ser do domínio sobre o qual reina”. Mas se o espírito e a forma do domínio se expressam por meio de um poder, é porque o significado desse domínio é todo de poder: o poder de ser da presença está em jogo. Aqui se descobre o princípio da criação mítica. Ela é análoga, diz W. Otto, a todo tipo de criação monumental; mas com a condição de compreender os monumentos como moradas do ser, onde a própria presença é chamada a estar presente ao seu ser. O mito cria o que é. Mas, para que o homem crie o que é, é necessário que um momento desconhecido — e originalmente próximo — do ser no mundo se imponha a ele em um encontro sem amarras, do qual ele é mais bem a presa, e o obrigue a fazer “a oferenda de sua própria pessoa para se tornar ele mesmo a forma na qual se expressa essa (229) proximidade”. 1. Mas o homem não é originalmente próximo de si mesmo e as moradas míticas têm esta particularidade: ele as constrói para se encontrar “a si mesmo” porque se sente estranho a si mesmo.

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