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o verbo ser (Aîtres:171-174)

Ser — esta palavra-chave da metafísica ocidental abriu nela muitas portas que dão para um muro. De Platão a Heidegger, do Sofista a Sein und Zeit, os pensadores assinalaram o paradoxo deste termo de uso corrente que, entre todos os outros, é o mais evidente e o menos apreensível. Não apenas o seu sentido é ambíguo, mas a própria ideia de sentido encontra-se ali ferida de ambiguidade. E isto desde a língua.

O grego — diz E. Benveniste — não apenas possui um verbo ser, mas fez deste verbo empregos inteiramente singulares. Carregou-o de uma função lógica, a de cópula (Aristóteles mesmo já observava que, nesta função, o verbo não significa propriamente nada, que opera simplesmente uma synthesis), e, por este fato, este verbo recebeu uma extensão mais larga que qualquer outro. Além disso, ser pode tornar-se, graças ao artigo, uma noção nominal, tratada como uma coisa; … pode servir de predicado a si mesmo, como na locução to ti en einai designando a essência conceitual de uma coisa, sem falar da surpreendente diversidade dos predicados particulares com os quais ele pode se construir…

Poder-se-ia, a esse respeito, inverter as visões de Hölderlin e dizer: onde cresce o que salva, encontra-se também o perigo. Ao restringir-se à sua função de verbo de existência, o perigo é duplo. Por um lado, a aptidão do verbo ser para tornar-se sujeito pela nominalização conduz a tratar o ser como uma coisa, a reduzir o ser a um ente-aí. Por outro lado, sua aptidão para tornar-se predicado e designar a essência conceitual de uma coisa conduz a identificar o ser e o ser-quê. A língua — diz E. Benveniste — permitiu fazer do ser uma noção objetivável que a reflexão filosófica podia manejar, analisar, situar como qualquer outro conceito. Uma noção objetivável reúne em si o ser-quê e o ente-aí e suprime a sua diferença, vedando a brecha ontológica que foi aberta no ser e, por isso, o perdeu. Todas estas possibilidades analíticas da língua são, em realidade, dissociativas: elas convergem na decadência do ser.

A equívoco da palavra ser lhe é congênita. Verbo de existência, ele designa ora um estado (encontrar-se sendo), ora um ato pleno que se integra a si mesmo, ao mesmo tempo integrante e integrado como uma palavra-frase onde nomear, denominar e dizer seriam um só. É notável que a sua diátese de verbo somente ativo o condene paradoxalmente à passividade. Esti designa… pode-se dizer um processo? cujo sujeito é o autor e que ocorre fora dele. Fora dele quer dizer no conjunto do ente. O ser do sujeito toma lugar nele e, por isso, torna-se-lhe exterior, visto que o ente em seu conjunto não depende dele. Mas ser, no sentido pleno, possui uma diátese comparável àquela do médio, no qual o sujeito é o lugar do processo. Ser, neste caso, é ativo-transitivo ou antes sui-transitivo como o antigo alemão Wesen. Ser, neste sentido, é ser a sua própria possibilidade de ser, o que nomeamos transpossibilidade. Ele não é de antemão dado nem como sendo nem como possível.

Há, portanto, um sentido fraco e um sentido forte de ser. Eles são, no homem, inseparáveis. Quando Descartes diz a respeito do Gênio Maligno na Segunda Meditação: ele não poderia fazer com que eu nada seja enquanto eu pensar ser alguma coisa, o seu ser sustenta-se deste pensamento ativo e, se eu mesmo penso por mim mesmo, é por mim mesmo em mim mesmo que eu sou. Mas, ao mesmo tempo, Descartes percebe que é: ele se encontra sendo. Como mostra o texto do resumo das Meditações: Na segunda, o espírito que, usando de sua própria liberdade, supõe que todas as coisas não são de cuja existência ele possui a menor dúvida, reconhece que é absolutamente impossível que, no entanto, ele mesmo não exista.

Do mesmo modo que este uso da liberdade não é o seu ato de fundação, do mesmo modo o espírito reconhece que existe sobre a base desta proposição impessoal: é absolutamente impossível que… ele não exista.

Estas duas dimensões de ser foram postas em evidência por Kierkegaard. Se o homem é um paradoxo, não é porque seja o lugar ou a cena de contradições objetivas (finitude-infinitude, necessidade-possibilidade, ser por si-não ser por si). Ele é este paradoxo porque ser é, de si, paradoxal e o homem se define como alguém que é. O paradoxo consiste em uma contradição que não é a essência do homem senão enquanto ele a existe, autenticamente ou não, fazendo-se aí presente ou ausente. Eu sou… a ser quem eu existo.

O Eu sou cartesiano elevou-se uma vez a este estatuto. Há na Primeira Meditação um momento rápido, excepcional, onde o eu sou é a sua própria possibilidade e onde o cogito se anuncia dever tirar a sua força do sentido forte do ser. Quando, a despeito da certeza expressa de estar aqui bem acordado, Descartes deve renunciar a todo signo certo de distinção entre a vigília e o sonho, o seu espanto é tal, diz ele, que me confirma quase na opinião de que sonho. E logo após, no texto latino, este traço: Age ergo somniemus (Ora, pois, sonhemos!). Ao dizer isso, Descartes decide-se pela ilusão universal que a sequência detalha em variações, e que culmina na hipótese voluntária do Gênio Maligno como potência infinita de ilusão. Esta hipótese última é o equivalente simétrico do primeiro momento — onde ele decide sonhar; e o eu sou, portanto, se ele me engana reativa um eu sonho, portanto sou. Detlev von Uslar, que põe este momento em evidência, explicita-o assim: Eu sonho, portanto sou significa: meu ser é o ser acima do abismo da incerteza de saber se há algo ou não antes nada. Dito de outro modo, eu sou na medida em que fundo o meu ser imaginando a possibilidade da impossibilidade do ente.

Ora, este argumento ontológico interior ao cogito é o mesmo em Parmênides. Não se pode dizer nem pensar: há que não há (estin hopos ouk estin). Pois não encontrarás o pensamento de que não há sem o há no qual ele se encontra sendo dito. Pensar não é pensar — senão a ser, e pensar não é — senão a pensar. O mesmo é a pensar e a ser.

Do poema de Parmênides ao Peri hermeneias de Aristóteles, o sentido do esti grego extenua-se. Na frase com cópula, a forma do verbo ser precede de tão longe a sua significação que a palavra se encerra no mais baixo grau do sentido. A primazia da função lógica de ligação é ali a marca de uma logicização do ser. No entanto, sob a sua função de synthesis, a cópula, passada ao primeiro plano, conserva uma função posicional. O enunciado do qual ela é o foco põe o que diz, enuncia-o segundo o seu ser na forma da objetidade. Logicização e objetivação estão ligadas. Mas como se articulam elas? É necessário, para sabê-lo, compreender qual tarefa se impõe ao enunciado, em razão da própria constituição da língua.

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