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A Convergência de Aiôn e Kairos na Constituição do Tempo e da Presença
Maldiney1975
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A exploração do motivo iconográfico comum entre Aiôn e Kairos revela uma relação conceptual profunda que fundamenta a constituição do tempo.
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A representação de ambos como figuras juvenis e aladas, distinta das imagens convencionais do tempo (Chrônos), sugere uma polaridade conceptual unificada.
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A imagem de Aiôn-Phanès, enlaçado pela espiral do serpente e rodeado pelo zodíaco, simboliza a criação como auto-gênese da vida universal num ciclo eterno de vida-morte-renascimento.
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A imagem de Kairos, capturado no instante de tocar o prato de uma balança, simboliza a decisão que surge no instante e o erige em presente.
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O elo entre estes dois conceitos reside na sua origem comum como momentos cosmogênicos de emergência absoluta.
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A criação (Aiôn) emerge do chaos entendido como fenda ou abismo (béance).
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A decisão (Kairos) emerge do fluxo indiferente dos fenômenos.
A reflexão de Paul Klee sobre o processo criativo oferece uma articulação teórica precisa para esta união entre origem cósmica e decisão.-
O chaos autêntico, para Klee, não é o oposto do Cosmos, mas um fundo indizível, simbolizado pelo ponto cinza não-dimensional.
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O momento cosmogénético é definido como a fixação de um ponto neste chaos, conferindo-lhe um caráter central e originário do qual a ordem irradia.
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Este ponto radiante e tensorial, independente de qualquer sistema de coordenadas, é uma ilustração espacial rigorosa do aspecto verbal.
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Tal como a energia pontual é o germe do espaço, a tensão aspectual é o germe do tempo.
Klee une explicitamente o decisivo e o originário, identificando o momento cosmogénético com o conceito de ovo, reatando assim com a simbolização de Phanès e do Aiôn.O objetivo do artista é estabelecer-se no centro orgânico da criação, onde se determina todo o movimento espaço-temporal.A língua realiza, na sua estrutura gramatical, a união entre Aiôn e Kairos que a arte busca, através do processo de cronogénese no sistema verbal.-
A génese do esquema temporal subjacente ao sistema verbal converge para um ponto focal virtual que se torna real no presente do indicativo.
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Este processo é descrito como uma marcha ao estreito, uma progressão longitudinal que, desde a infinitude escalar do verbo no infinitivo, avança para a finitude extrema do presente.
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O presente do indicativo constitui um limite, uma interpolação ou corte na infinitude do tempo.
A constituição completa do tempo requer compreender uma operação complementar e simultânea à marcha ao estreito.-
A interpolação do presente como limite não reduz a infinitude do tempo, mas modifica a seu estrutura, ou seja, a cronótese ou sentido do tempo.
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No modo subjuntivo, a infinitude do tempo é cinética, com uma extensão bilateral indeterminada.
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No indicativo, com a interpolação do presente separador, a infinitude aparece bilateralmente dividida em passado e futuro, ambos como extensões unilaterais determinadas que têm origem nesse presente.
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Esta transformação é uma marcha ao largo, uma abertura transversal em direção ao passado e ao futuro.
A abertura dos horizontes temporais não é um mero efeito da inserção de um limite, mas depende de uma redefinição ontológica do presente.-
O poder-ser de uma presença é o que suscita o horizonte sob o qual ela existe.
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Um presente-limite, fundado pelo tempo, é substituído por um presente-origem, fundador do tempo.
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A partir deste novo estatuto, as extensões do tempo tornam-se protensão e retenção.
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O presente não interpola uma fração do tempo, mas extrapola a partir de uma presença extática.
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A passadificação do passado permanece sempre por vir.
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A futurição do futuro está sempre em partida.
Esta perpétua gênese do presente como origem, em todo o momento dado como limite, é o sempre.O presente é, portanto, identificado com o Kairos, o momento decisivo que abre o tempo fixando o seu sentido.-
O momento cosmogenético manifesta-se tanto no aspecto, como energia criadora das tensões de duração, quanto no presente como Kairos.
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O problema central reside em unir estas duas origens, o que equivale a compreender a dupla dimensão do presente como instante-limite e presente-origem.
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A raiz deste problema é o paradoxo do jorro do presente no sempre, onde o sempre remete para o Aiôn, conceito que evoluiu para significar a eternidade.
A solução para este problema exige considerar a triplicidade das dimensões temporais e a estrutura diastólica-sistólica da presença.-
Os horizontes de anterioridade e posterioridade do presente estão unidos na diástole-sístole da presença.
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Esta pulsação já está em esboço provisório em todos os níveis anteriores da cronogênese, no eixo longitudinal da construção do esquema temporal.
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Isto significa que o presente tem também um horizonte de originariedade que se abre ao nível do Aiôn.
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A presença já está lá, antes do presente do indicativo, projetada no aspecto e no Aiôn.
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Nos estádios linguísticos mais antigos, o falante tinha consciência de uma situação actual monádica, sem oposição de épocas.
Com a constituição integral do tempo, a presença toma posição, como presente, em relação ao seu mundo, e só no termo desse processo se recolhe a si mesma.A análise da constituição do tempo encontra uma correspondência estrutural precisa no sistema pulsional do eu, conforme analisado por L. Szondi.-
O estreitamento evidenciado por Guillaume corresponde à egossístole, associada ao fator catatônico (k) que implica um estreitamento do eu.
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A abertura dos horizontes presenciais corresponde à egodiástole, associada ao fator paranoide (p) que implica uma extensão do eu.
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Cada um destes fatores tensores é constituído por uma tensão bipolar de radicais operativos do eu.
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Fator k: (k+) introjeção, (k-) negação.
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Fator p: (p+) inflação, (p-) projeção.
O presente é o cruzamento onde se articulam estas instâncias pulsionais, configurando um campo de possibilidades temporais.-
A presença nua, confrontada consigo mesma, tem um presente indeciso que a coloca na exigência de decidir.
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Neste estado, o eu está em fluxo, tensionado pelos quatro radicais, numa situação descrita por Kierkegaard como o abismo do possível, onde falta o tempo para a realização.
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A tomada de posição do eu pode ocorrer através dos radicais, cada um gerando uma temporalidade específica.
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Via introjeção (k+): apresentificação possessiva, reunindo todas as dimensões do tempo na sístole de um presente que recolhe o passado ou sintetiza as tensões do Aiôn.
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Via negação (k-): adesão a um presente de instantaneidade infinita.
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Via inflação (p+): alargamento do presente à infinitude do passado e do futuro, no instante eterno ou no retorno eterno.
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Via projeção (p-): participação no todo, existência na origem incessante do Aiôn, onde o presente do criador se projeta na criação.
O presente fundamental comporta em si todas estas possibilidades, correspondendo ao perfil k± p±, onde todos os radicais estão presentes.-
Este perfil situa-se no limite entre dois estados-limite patológicos.
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Estado de perigo extremo (k+ p+): vontade contraditória de ter tudo e ser tudo.
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Estado de adaptação por domesticação (k- p-): negação da projeção, sem consciência dos desejos.
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