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EXISTÊNCIA CRISTÃ

MACQUARRIE, John. An Existentialist Theology: A Comparison of Heidegger and Bultmann (1955)

Existência cristã

  • Conforme o ensinamento do Novo Testamento, Deus, em Jesus Cristo, interveio na situação humana e restaurou à humanidade a possibilidade existencial, perdida pelo pecado, de alcançar seu ser autêntico, isto é, tornar-se filho de Deus; para o indivíduo, essa é uma possibilidade oferecida no presente quando ele ouve Deus falar-lhe na proclamação da Palavra, sendo, em relação ao passado, a possibilidade do perdão e, em relação ao futuro, a possibilidade de entrar em uma nova vida; aceitar a cruz e a ressurreição de Cristo é abandonar a autossuficiência e viver em dependência e comunhão com Deus, sendo a fé a atitude pela qual o homem entra nessa nova vida.
  • Bultmann oferece uma definição preliminar de fé como a decisão diante da graça que nos confronta na proclamação da Palavra, ligando-a intimamente à decisão; isso levanta a questão de se o lugar importante dado à decisão na vida cristã é legítimo, uma vez que uma decisão genuína é algo que o homem deve tomar por si mesmo, o que parece implicar que a entrada na existência autêntica é algo que o homem deve fazer por si mesmo, contrariando o ensinamento do Novo Testamento de que isso é exatamente o que o homem não pode fazer e que somente Deus pode fazer por ele, levantando a questão do que acontece com o conceito de graça.
  • Essa ênfase na decisão parece refletir uma influência imprópria do existencialismo, pois a decisão ou resolução tem um lugar muito importante no conceito de Heidegger de existência autêntica, na qual o homem decaído, que habita no presente inautêntico, é caracterizado pela irresolução; quando a consciência o convoca para o momento da decisão, sua situação total é revelada e a resolução genuína se torna possível, unificando o eu que estava disperso na irresolução da decadência, pois a resolução olha para o passado aceitando a facticidade, para o futuro projetando-se sobre uma possibilidade autêntica e é realizada no presente autêntico.
  • A resolução, na filosofia de Heidegger, é um fenômeno puramente humano que representa o esforço extremo do homem na direção da autossuficiência, sua luta última para se elevar acima do vazio no qual ele é lançado, sendo ele “condenado a ser livre”; a decisão não pode ter esse lugar na vida cristã, que nega a autossuficiência do homem e afirma que ele não pode, por si mesmo, alcançar uma existência autêntica, mas isso não significa necessariamente que Bultmann tenha sido levado por Heidegger a uma ênfase exagerada na decisão.
  • Há uma grande diferença entre Heidegger e Bultmann quanto à decisão, pois, enquanto para Heidegger a possibilidade sobre a qual o homem se projeta na resolução autêntica é derivada inteiramente de seus próprios recursos, para Bultmann a possibilidade autêntica para a qual o homem é convocado a decidir é inteiramente derivada de Deus, apresentada pelo ato da graça de Deus em Cristo; a própria decisão é, em certo sentido, um dom de Deus, na medida em que a graça de Deus torna possível a decisão humana, sem que esta perca seu caráter de decisão, pois o dom da salvação só pode ser dado como uma possibilidade pela qual o homem pode decidir.
  • Essa visão não é inconsistente com o ensinamento do Novo Testamento, como Paulo o expõe, pois sua pregação e exortação trazem o ouvinte ao momento da decisão; a exposição paulina traz o leitor a um momento de decisão que exibe as características da análise de Heidegger — uma consciência desiludida da situação total, passado, presente e futuro — e na fé há uma unificação do eu que estava disperso no mundo, agora projetado em sua possibilidade autêntica de vida em dependência de Deus, unificação que também pode ser considerada um dom de Deus.
  • Além da decisão, a fé cristã está sempre relacionada a um fundamento bem definido — a fé na obra salvadora de Cristo — e, para receber a Palavra, ela deve ser autenticamente ouvida ou compreendida, de modo que outro elemento constitutivo na estrutura da fé é a compreensão; essa compreensão é um novo entendimento de si mesmo, no qual o antigo entendimento do eu como suficiente para si mesmo é abandonado, e esse novo entendimento tem um caráter prático e existencial.
  • O entendimento em questão não é um entendimento objetivo, mas uma compreensão existencial de si mesmo que transforma a pessoa, sendo um conhecimento prático que envolve a obediência, considerada por Bultmann como outro elemento importante no conceito neotestamentário de fé; na rendição da autossuficiência, o homem se compromete com Deus para a direção de sua vida, e é nesse ato de obediência que o homem entra em uma existência autêntica, tornando-se ele mesmo.
  • A compreensão que acompanha a fé envolve um conhecimento genuíno, reconhecido no Novo Testamento como um dom do Espírito e também como uma tarefa, pois o cristão pode e deve crescer nesse conhecimento; a teologia cristã propriamente dita é a elucidação e exposição sistemática desse conhecimento dado com a fé, sendo a compreensão de si mesmo sob a graça divina, uma autocompreensão existencial na fé.
  • Bultmann resume sua interpretação existencial da fé dizendo que a fé não é apenas uma relação do homem com Deus, mas também uma relação do homem consigo mesmo; a nova relação com Deus, possibilitada pelo ato da graça, é a condição da justificação do homem e da vida de obediência na qual ele atinge seu ser autêntico, e ao atingi-lo, ele entra em uma nova relação consigo mesmo, passando da alienação de si mesmo para a unidade consigo mesmo.
  • A fé não é um ato que ocorre de uma vez por todas, mas resulta na vida de fé — a orientação constante do eu para as possibilidades autênticas repetíveis disponibilizadas ao homem na cruz e ressurreição de Cristo; enquanto está na carne, o homem nunca está livre das tentações do mundo, mas enquanto olha para Deus, ele tem um poder que não é seu e existe autenticamente como filho de Deus, sendo essa existência autêntica a recuperação de seu verdadeiro ser, possibilitada pelo ato da graça de Deus em Jesus Cristo.
  • O conceito de fé não é peculiar a Paulo, sendo encontrado também nos escritos joaninos, onde a forma verbal “crer” é preferida ao substantivo; essa fé, assim como a de Paulo, é de caráter existencial, assim como o conhecimento que ela apreende, e a verdade que ilumina o crente não é uma verdade intelectual nua, mas a verdade da existência, identificada com o próprio Cristo, de modo que crer nele é aceitar e apropriar-se da possibilidade de vida que ele veio tornar disponível aos homens.
  • Apesar das diferenças terminológicas, há um acordo essencial entre os conceitos paulino e joanino de fé, e os escritos joaninos, embora não usem termos como graça e justificação, contribuem para a compreensão da vida de fé, como na alegoria da videira e seus ramos, que expressa a relação entre indicativo e imperativo de maneira tão clara quanto Paulo em sua linguagem teológica mais técnica.
  • A primeira característica da vida de fé a ser examinada é a liberdade, pois o ser do homem é tal que não se pode conceber uma existência autêntica para ele a menos que nessa existência ele seja livre, e tanto no existencialismo quanto no ensinamento do Novo Testamento, a liberdade de uma existência autêntica é contrastada com a falta de liberdade na existência inautêntica, onde o indivíduo escravizado à massa despersonalizada perdeu sua liberdade porque fugiu dela.
  • O Novo Testamento representa o homem como escravizado aos poderes personificados do pecado e da morte, mas esses poderes são criações do próprio homem, e ele escolheu servi-los; uma vez feita essa escolha fatal, o poder de escolha se perde, e o homem não pode, por si mesmo, reverter sua decisão, alcançando-se a posição paradoxal de que o homem é responsável por sua própria irresponsabilidade, tendo escolhido a escravidão.
  • O conceito cristão de liberdade envolve outro paradoxo, pois essa liberdade é ao mesmo tempo o serviço de Deus, e o ato de fé que se apropria do dom da liberdade é o ato de rendição e obediência a Deus; enquanto para Heidegger a liberdade do homem em um mundo hostil tem um caráter desafiador, para o crente a liberdade é encontrada quando ele se volta do culto à criatura para o culto ao Criador, cujo serviço é a liberdade perfeita.
  • Bultmann define a liberdade cristã como estar aberto para o futuro genuíno, uma definição formal que seria aceitável para Heidegger, mas cujo conteúdo difere devido à ausência de Deus em sua filosofia; a estrutura formal da liberdade é tripla em ambos os casos, envolvendo a libertação do corpo coletivo despersonalizado, a libertação da facticidade ou da escravidão ao passado, e a liberdade para um futuro genuíno.
  • A liberdade cristã é a libertação da escravidão ao coletivo caído, uma liberdade que não é uma licença para a imoralidade, pois o crente é libertado da lei como restrição externa precisamente porque seu deleite interior está em obedecer livremente à vontade de Deus, e a obediência radical a Deus, que vai além da mera conformidade com a lei tradicional, é uma característica daqueles que são guiados pelo Espírito.
  • O cristão é livre de seu passado, compreendendo a si mesmo como um pecador perdoado e libertando-se assim da tentativa de construir sua própria justiça, e a liberdade em relação ao passado implica também a liberdade em relação à ansiedade sobre o futuro, pois a vida de fé é a vida do homem que está aberto para o futuro e livre dele, confiando em Deus; enquanto Heidegger fala da liberdade “para” a morte como a aceitação corajosa do nada, o Novo Testamento fala da liberdade “da” morte, trazida pelo espírito de vida em Cristo Jesus, que liberta o crente da morte porque, na possibilidade aberta a ele na ressurreição de Cristo, ele foi trazido para a vida eterna fundada em Deus.
  • A esperança é outra característica da vida de fé, pois o cristão, crendo que é criatura de Deus e que Deus agiu em Jesus Cristo para sua salvação, tem o dom da esperança, especialmente a esperança da vida futura; enquanto a desunião que surge com o pecado leva à morte, o caminho da fé leva à vida, que é o comando de Deus como Criador e ao mesmo tempo seu dom no Cristo ressurreto, direcionando o cristão para além do mundo visível para o mundo invisível de Deus.
  • Alegria e paz são características adicionais da vida de fé, e Heidegger também as menciona em sua descrição da estrutura formal de uma existência autêntica, embora com a diferença de conteúdo usual; a alegria na resolução carregada de temor para viver na antecipação da morte é uma alegria sombria, enquanto a paz no cristianismo surge da unidade do eu que é ao mesmo tempo uma comunhão com Deus e segue da entrega do eu a Deus na fé.
  • O amor é a característica mais importante da vida de fé, sendo maior que a esperança ou a própria fé, e é o mandamento de Cristo; Bultmann parece ter relativamente pouco a dizer sobre o amor, o que é notável, e ele praticamente identifica o amor de Deus com a graça, entendida como um ato, o envio de Cristo, mas essa visão parece inadequada, pois o amor de Deus é a motivação de seu ato, e não o ato em si.
  • O amor entre os irmãos, segundo Bultmann, não é uma emoção ou um ideal, mas a demanda feita agora em uma situação particular, compreendida no contexto de uma relação entre Eu e Tu, onde o próximo é sempre alguém que já está ali; o amor está presente quando se compreende a conexão com o próximo como um Tu em cada situação que surge, sendo uma compreensão de si mesmo em relação ao Tu, e essa compreensão amorosa é também a nova compreensão de si mesmo na fé.
  • A visão de Bultmann sobre o amor de Deus e o amor cristão é inadequada e revela a infecção do individualismo existencialista, pois não tem lugar para a comunhão ou a participação no ser que pertence apenas àqueles dentro da comunidade de crentes, fundada em sua comunhão com Deus em Cristo, e o Novo Testamento parece indicar isso ao falar de uma comunhão do Espírito e dos crentes sendo “todos um em Cristo”, deixando Bultmann de fora o amor que une a própria comunhão.
  • A vida de fé no indivíduo cristão, além da fé com suas estruturas constitutivas de decisão, entendimento e obediência, é caracterizada por liberdade, esperança, alegria, paz e amor; formalmente, essas podem ser consideradas possibilidades existenciais do homem, mas concretamente têm um conteúdo unicamente cristão, pois surgem como dons do ato da graça de Deus em Jesus Cristo, sendo possibilidades do homem que só são atualizadas como “fruto do Espírito”.
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