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Filosofia da Existência de Jaspers
KLH
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A filosofia como possibilidade para o desprotegido consciente na época atual
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Para Jaspers, a filosofia é hoje a única possibilidade para o indivíduo consciente e desprotegido.
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Deixa de ser questão de círculos reduzidos, tornando-se um assunto de muitos enquanto realidade da pergunta sobre como viver.
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O mérito do escrito de Jaspers está em clarificar, por meio de distinções críticas, este buscar-se a si mesmo obscuro da época.
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Sua análise oferece linhas de orientação para possíveis decisões, mas não respostas precipitadas, cedendo a resposta à decisão do indivíduo.
Ponto de partida: a consciência de um ponto de giro histórico universal-
Jaspers parte do panorama de uma tradição histórica de consciência difundida no presente: a de estar num ponto de virada da história universal.
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Esta virada afeta tanto o aspecto do mundo quanto o modo de ser do homem.
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Sua origem mais próxima é a mudança do mundo no início do século XIX, a entrada na era técnico-econômica.
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Incontáveis documentos após Hegel expressam esta consciência de estar ante o nada ou ante um futuro completamente transformado.
A antecipação de Kierkegaard e Nietzsche e sua atualidade-
Kierkegaard, seguindo as pegadas de Fichte, expressou numa crítica do presente (1846) este estar ante o nada.
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Para Jaspers, esta descrição torna-se clarificadora e característica precisamente do nosso presente.
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Nietzsche, sem conhecer Kierkegaard, viu o advento do niilismo europeu e fez um diagnóstico implacável de sua época.
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Ambos foram compreendidos apenas como curiosidades por seus contemporâneos, mas tornaram-se pensadores completamente atuais hoje, por terem visto o futuro no que já estava lá.
O projeto de Jaspers: esclarecer a situação e abrir novas possibilidades metafísicas-
Jaspers tenta esclarecer e caracterizar a situação atual a partir do desenlace desses documentos da “consciência epocal”.
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Seu objetivo último é abrir, por meio de uma relação existencial com uma transcendência “oculta”, novas possibilidades de “metafísica” para a existência concreta sem fé do mundo moderno.
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O homem não estaria apenas aí (Dasein), condicionado, mas também “existe” (Existenz), decidindo em liberdade o que pode vir a ser.
A tensão entre a existência em massa e a possibilidade da mesmidade-
O homem não se esgota na mera preocupação econômica e social, embora a moderna “existência em massa” e seu aparato universalmente compulsivo estreitem as possibilidades reais da mesmidade.
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Todos os ordens têm seu limite absoluto, que só é superado pelo homem existente em “situações limite”.
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Tais situações limite (morte, sofrimento, luta, culpa) mostram que a vida como mera existência mundana não tem sustento.
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A situação do homem se torna “espiritual” apenas quando ele se sabe absolutamente nessas situações limite, quando “existe” em sentido estrito.
O perigo da extinção no mundo técnico e a pergunta pela realidade verdadeira-
Existe o perigo de o homem, liberado da perplexidade cósmica, extinguir-se no mundo por ele criado, tornando-se uma existência nua e “muda” regida pela técnica.
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À pergunta sobre o que é ainda hoje verdadeiramente real, Jaspers responde: “a consciência do perigo e da perda”.
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Toda a realidade objetiva da vida tornou-se ambígua: o verdadeiro aparece no perdido, a substância na desorientação, a realidade na mascarada.
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O verdadeiro ser do homem está agora, como mesmidade isolada, sem configuração objetiva, mais ou menos sem mundo, mas é o único ponto de partida para novas realizações.
A gênese do novo mundo a partir da crise e do ser do homem-
O mundo novo surgiria da crise não pelo ordenamento racional da existência concreta em si.
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O homem poderia alcançar-se mais por meio do Estado na vontade total, para a qual o ordenamento da existência concreta se torna meio, e por meio da criação espiritual, que dá acesso à consciência da essência.
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Por ambos os caminhos pode recuperar a certeza da origem e da meta, do ser do homem na nobreza da autocriação livre, perdida no mero ordenamento existente.
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Se confia no Estado ou no espírito como ser em si, ambos se tornam questionáveis, forçando-o a retroceder ao ser do homem, sua fonte.
A crítica à ideia de mesmidade como ideologia da singularização social-
As análises particulares de Jaspers pressupõem uma ideia de “mesmidade” que é uma ideologia, enquanto expressão sublimada de uma singularização social.
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Hegel já caracterizou essa singularização como signo da sociedade burguesa moderna.
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Esta mesmidade sem mundo, lançada sobre si mesma, é em essência refletida.
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A reflexão particular em que Jaspers se move tem como consequência não dizer nada determinado ao leitor, pois tudo se limita mutuamente.
A “falta de claridade de todos os frentes de combate” e o “combate sem frente”-
Esta carência de expressões e posições determinadas baseia-se numa “falta de claridade de todos os frentes de combate atuais”, reconhecida pelo próprio Jaspers.
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O “combate sem frente” determina desde o exterior a dificuldade interna da posição refletida de Jaspers.
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O resultado é a intranquilidade por desconhecimento do que se luta por ou contra; os frentes se confundem, aliados e inimigos se embaralham num turbilhão constante.
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Não há unidade de uma época passada ou futura clara, lutando-se sem compreensão de si mesmo ou da situação.
A crítica de Jaspers às ciências modernas do homem (marxismo, psicanálise, teoria racial)-
Com o propósito de uma filosofia metafísica existencial, Jaspers submete a crítica a essas correntes como fenômenos típicos da ciência moderna do homem.
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Esta crítica se sustenta ou cai pelo conceito pressuposto de mesmidade.
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Essas teorias têm características destrutivas: desmascaram, reduzem a condicionamentos, são a ruína de tudo absoluto, expressando uma fé no nada.
A superação pela filosofia da existência e a leitura das “cifras” do ser-
A mera ciência específica do homem é superada pela filosofia da existência.
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Esta se certifica, na leitura das “cifras” do ente, do ser único e absoluto, numa fé sem revelação.
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O pensamento, levado à suspensão pela superação de todo conhecimento mundano, apela à liberdade e cria o espaço de ação absoluta ao conjurar a transcendência.
O frente de combate de Jaspers: o “nivelamento” versus a “mesmidade”-
O frente de Jaspers, como já em Kierkegaard, é o chamado “nivelamento” do ser humano num mero Dasein universal.
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O parâmetro fixo para julgar o nivelamento é uma ideia exagerada de “mesmidade”, em oposição à “existência da massa”.
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O que é comum hoje não seria o espírito impregnante, mas pensamentos banais, transportes, diversões, a água em que se nada, não a substância em que participar significa ser.
A singularização socialmente condicionada e a transformação da necessidade em virtude-
A situação “meramente sociológica” é, na verdade, o reflexo de uma singularização socialmente condicionada.
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Esta transforma a necessidade do Dasein na virtude da Existenz, assim como Kierkegaard ganhou sua categoria de “indivíduo” da destruição de todos os ordens humanos.
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Na “existência” do indivíduo orientada para a “transcendência” reflete-se ainda a relação da “alma” com “Deus”, mas agora mediada pela “fantasia”.
A metafísica do naufrágio como consequência da pressuposição da “mesmidade”-
A metafísica do naufrágio é a última consequência da pressuposição da “mesmidade”.
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Desta mesmidade se diz que ainda hoje “não” pode tornar-se objetiva e só forma mundos “peculiares”.
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Jaspers crê que esses mundos peculiares encerram em si o mundo universal, e não o contrário.
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A razão para a não-objetivação reside na essência da subjetividade que decide, cujo cume moral é a “consciência” (Hegel), a qual é negada tornar-se universal e concreta nas configurações objetivas.
O conceito romântico de existência e as consequências mundanas meramente postuladas-
O conceito de existência em Jaspers é profundamente romântico, caracterizado por transcender toda objetualidade.
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As consequências mundanas de sua filosofia permanecem meros postulados, como a apelação a uma “nobreza” dirigente para um verdadeiro Estado.
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Esta nobreza é puramente existencial, anônima, sem base social ou racial, idêntica à “vida filosófica” e à forma da mesmidade.
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Referências a realidades concretas (como a resistência de soldados) são imediatamente recusadas e dissolvidas em possibilidades existenciais indeterminadas, elevadas ao nível de “símbolo”.
O círculo metódico e a distinção fundamental entre Dasein e Existenz-
O obscurecimento das condições universais da existência concreta pela clarificação da existência constitui um círculo metódico.
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O problema decisivo é o descenso ao pressuposto deste círculo ambíguo.
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A distinção fundamental em Jaspers entre o simples ser do homem em Dasein e Existenz tem sua razão última na relação com a “transcendencia”.
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Esta relação com um absoluto ser em si, que está acima do homem, deixa para trás os problemas imediatos da vida mundana.
A estrutura ternária da filosofia de Jaspers e suas raízes históricas-
A estrutura em “Orientação filosófica no mundo”, “Esclarecimento sobre a existência” e “Metafísica” apoia-se historicamente em Kant.
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Justifica-se objetivamente a partir do “desprendimento” do ser íntegro num mundo perimido e uma transcendência infinita.
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A orientação da existência autêntica para uma transcendência inescrutável produz a distinção fundamental do homem em Dasein mundano e Existenz.
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Jaspers desenvolve as possibilidades do ser autêntico não a partir das condições fáticas, mas pressupondo o homem como referido a uma transcendência “oculta”.
As raízes cristãs e idealistas da distinção e a secularização-
A distinção entre Dasein condicionado e Existenz incondicionada retoma a distinção idealista do yo em “empírico” e “absoluto”.
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Esta remonta, através de Kant, até a distinção cartesiana de res extensa e res cogitans.
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Um último grande intento de superá-la foi empreendido por Hegel com sua filosofia dialética da mediação, mas permaneceu preso nas tradições idealistas e cristãs.
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A distinção fundamental cristã do homem em espiritual/interno e mundano/externo funda, em última instância, a distinção entre Dasein e Existenz, realizando uma secularização do cristianismo.
A problemática da transcendência num mundo sem Deus e a interpelação nietzschiana-
Num mundo sem “Deus”, o homem tampouco tem “alma”.
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Esta problemática de “transcendencia” e “existência” impede Jaspers de orientar-se para um conceito natural e simples do ser humano.
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Impede retomar a pergunta pelo homem onde Nietzsche a deixou, em seu intento de restabelecer um ser humano natural mediante o desmantelamento das interpretações vaidosas e exaltadas sobrepostas ao “texto fundamental” do ser do homem.
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Nietzsche interpela sobre a vaidade do homem que se sente como “homem” no mundo e na natureza, apontando para uma humanidade demasiado humana.
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