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Substância
- O trabalho de pensamento de Heidegger realiza uma desobstrução do conceito de substância como nome do ser, desvelando seu enraizamento na interpretação latina do grego ousia.
- A tradução latina de ousia por substantia (e essentia) não é um acidente, mas acentua um movimento historial iniciado pelos gregos: a compreensão do ser como o que entra em presença e permanece em um séjour (parousia).
- Heidegger qualifica esta tradução como dissimuladora (verdeckend), notando que o “conceito de substância não é grego”.
- Diferença entre ousia e substantia: enquanto ousia ainda guarda o movimento inicial de eclosão da presença, substantia o põe em retraimento.
- Ambos os termos, contudo, partilham uma ambiguidade “ôntico-ontológica”: designam tanto o ente quanto o ser do ente.
- A origem do conceito de substantia está ligada à compreensão do ser como hypokeimenon (em latim subjectum), “aquilo que jaz abaixo” dos acidentes.
- Na tradição medieval, a substantia é pensada como id quod substat, “aquilo que se mantém abaixo”.
- Distinção entre subjectum e substantia:
- Subjectum diz “o que jaz abaixo”.
- Substantia diz “o que se mantém e se sustenta abaixo”, enfatizando a cristalização metafísica do ser como fundamento estável.
- Ambos os termos acabam por designar o mesmo: o constantemente subsistente e efetivamente real, aquilo que assegura realidade e consistência.
- A substância torna-se o ente que se erige como fundamento do qual se pode assegurar com certeza através de uma representação.
- A ousia (presença) transforma-se, através da verdade como certeza (certitudo), em presença na representação (repraesentatio).
- Crítica heideggeriana: a substância, enquanto conceito metafísico culminante (de Descartes a Hegel), impede pensar o ser como tal.
- Ela não pode dar conta da maneira como o ser se dirige historialmente ao ser humano que ek-siste e está no mundo.
- Por desdobrar um fundamento que já está sempre dado, a substância “salta” por sobre o fenômeno do mundo e sua relação com a existência humana.
- Exemplo cartesiano: o “mundo” vê seu ser ditado a partir de uma ideia de ser encapsulada na substancialidade e de uma ideia de conhecimento correspondente, com base numa ideia do ser não desvelada em sua origem.
- Determinação temporal do conceito de substância: ele é determinado por uma compreensão do ser como fundamento constantemente presente, derivada de uma determinação não clarificada do tempo como sucessão de instantes presentes.
- A tarefa da desobstrução do conceito de substância exige pensar o ser como tal, e não como ente constantemente disponível.
- Esta é a tarefa de Ser e Tempo: pensar o ser como aquilo que abre ao Dasein a dimensão existencial do tempo em seu por-vir (a-venir).
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