estudos:ldmh:stimmung
Stimmung (tonalidade afetiva)
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Stimmung definida como modalidade fundamental de sintonização pré-cognitiva com o mundo, constituindo acesso originário ao ser como Dasein lançado e exigindo reviravolta radical na concepção antropológica.
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Fundamento etimológico em Stimme (voz) e sufixo -ung, indicando processo ativo; voz como índice de singularidade (Jemeinigkeit) e tom como tensão de afinação.
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Ser-no-mundo implica prévia afinação a um tom, sendo Stimmung essa tonalidade, atmosfera ou humor que ressoa da existência.
Três horizontes de significação da Stimmung derivados de sua base etimológica e indissociáveis na determinação do ser humano.-
Horizonte musical/artístico: afinação do instrumento e tonalidade geral de uma obra.
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Horizonte individual-existencial: humor compreendido não como estado psicológico fugaz, mas como modo integral de o ser sintonizar-se com a existência, superando dicotomias interior/exterior e psique/corpo, conforme expresso por construções idiomáticas francesas.
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Horizonte comunitário: ambiente ou clima (ambiance, moral) que reina em um grupo humano.
Tradução de Stimmung como “tonalidade” justificada pela ideia de uma melodia mundante ativa, que não é forma sobrejacente, mas tom que afina e determina o modo de ser.-
Citação de Mallarmé sobre a “alma melodia” interpretada não como metáfora, mas como expressão literal da condição de ser-no-mundo como religação de harmonias.
Crítica ao cogito cartesiano: a abertura originária do Dasein dá-se através da tonalidade (Stimmung), não da consciência reflexiva.-
No estar afinado, o Dasein descobre-se sempre já lançado, mesmo que de forma evasiva na cotidianidade, na constatação bruta de “que é e que tem de ser”.
Befindlichkeit (ser-encontrado) conceituada como abertura afetiva que possibilita ao Dasein encontrar-se a si mesmo antes de qualquer conhecimento ou volição.-
Três caracteres ontológicos da Befindlichkeit: revelação do ser-lançado, invasão totalizante que descobre o ser-no-mundo em sua totalidade, e abertura co-originária do mundo e do ser-com.
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A abertura tonal do mundo é condição de possibilidade para o encontro significativo (discernimento ou phronesis) com os entes intramundanos.
Distinção entre tonalidades quotidianas e tonalidades de fundo (ex.: angústia, tédio, espanto), estas últimas fundamentais por suspenderem a evasão e colocarem o ser humano por inteiro face a si mesmo e ao mundo.-
Tonalidades de fundo não são “paixões primárias” deriváveis, mas modos de afinação integral que revelam a totalidade do ente como tal.
Exemplo da tristeza como modelo analítico para desvendar a estrutura da Stimmung: sua essência não é um estado interno, mas uma transformação do *como* (Wie) do ser-com e do estar-no-mundo.-
A transformação tonal altera fundamentalmente a relação com os outros e com as coisas, mesmo que as ações externas permaneçam similares.
Revolução conceitual decorrente do pensar a partir da Stimmung: superação da psicologia dos estados internos e da metafísica da subjetividade.-
Tonalidades não são afetos intrapsíquicos transmitidos por empatia, mas manifestação primária do ser-com originário.
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Implicações para a terapêutica: projetos de Daseinsanalyse (Binswanger, Boss, Maldiney) baseados na escuta das tonalidades existenciais.
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A abertura tonal “põe fora de si” e funda a corporalidade como habitação e a linguagem como expressão.
Nexo intrínseco entre Stimmung e linguagem poética: a palavra poética tem por fim próprio partilhar as possibilidades existenciais da tonalidade.-
A poesia guarda relação essencial com a Stimmung, sendo o pensamento uma escuta da palavra como ressonância tonal do mundo.
Relação constitutiva e problemática entre Stimmung (tonalidade) e Bestimmung (determinação/vocação).-
Toda determinação ou condição de possibilidade (Bestimmung), inclusive a do ser, deve ser pensada a partir da afinação (Stimmung).
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A análise da Stimmung é a primeira figura da Lichtung (clareira).
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A contradição aparente entre o “estar sempre já afinado” e a tese “há muito o homem está desafinado (stimmungslos)” resolve-se na questão: “A *quê* se está afinado?”.
Evolução do pensamento de Heidegger sobre a origem do tom, deslocando-a progressivamente do “mundo” para instâncias mais originárias.-
O tempo como potência histórica que adjunta e possibilita a afinação (1934).
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A pátria (Heimat) como potência telúrica que dá o tom (1934/35).
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A tonalidade como aquilo que nos “encontra lugar” (versetzt) e funda um espaço-de-tempo (1937/38).
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Os deuses gregos como die Stimmenden, os que dão os tons, a partir de seu ouvir o ser (1942/43).
Conclusão metafísica: a fonte última da tonalidade é o ser mesmo, que se dá a ouvir como voz silenciosa da linguagem.-
O esquecimento do ser é a causa do desacordo (Stimmungslosigkeit) do homem moderno.
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