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Possibilidade (Möglichkeit)
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Possibilidade
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Die Möglichkeit
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Na tradição metafísica, sobretudo em Kant, a possibilidade é tratada como modalidade ao lado da existência e da necessidade (Crítica da Razão Pura, A 80/B 106), e essa triangulação repousa numa compreensão implícita do ente como “estar-aí-diante” e, portanto, numa determinação categorial inspirada por Aristóteles.
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Heidegger, porém, insiste que, em Aristóteles, a questão de dynamis e energeia, possibilidade e realidade, não pertence ao domínio das categorias, devendo-se sustentar isso contra as interpretações usuais (Aristóteles, Metafísica Θ 1-3, Da essência da realidade e da força, GA 33, 9).
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Ao fundo da reflexão heideggeriana sobre a possibilidade ecoa um diálogo incessante com Aristóteles, buscando uma compreensão nova de dynamis, liberta tanto da leitura categorial da metafísica quanto da tradução romana que a converteu em potentia, isto é, em “potência” no sentido de poder.
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No interior desse diálogo, e no momento em que Heidegger concebe Ser e Tempo sob a tarefa de reler Aristóteles em chave existencial, ele chega inclusive a traduzir hexis por “possibilidade”, deslocamento que indica uma reorientação ontológica do vocabulário ético e prático (ver a nota de Ph. Arjakovsky em sua tradução do livro VI da Ética a Nicômaco, p. 133-135).
Ruptura entre possibilidade categorial e possibilidade existencial em Ser e Tempo-
Para medir a distância entre a compreensão metafísica e a compreensão existencial, basta notar que, em Heidegger, a possibilidade não se opõe à existência entendida no sentido clássico de simples presença, pois ela constitui o próprio do ser do Dasein, isto é, desse ente que tem de existir o seu ser.
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Por isso Heidegger pode afirmar que o sentido da possibilidade e o modo das estruturas de possibilidade que pertencem ao Dasein permaneceram completamente fechados até hoje (GA 21, 228), e com isso o possível recebe desde o início um lugar eminente.
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O abandono da visada categorial conduz Heidegger, numa das páginas mais decisivas de sua escrita, a pensar o possível como um nome do ser (GA 9, 316; Carta sobre o humanismo, p. 34 s.), deslocando a possibilidade do regime modal para a proximidade do próprio acontecer do ser.
A ambiguidade metafísica: o ser como presença e como “tornar possível”-
A tese de que o ser tem a ver com a possibilidade não é inteiramente nova: pela interpretação platônica da idea como agathon, o ser torna-se aquilo que torna o ente apto a ser, mostrando-se como tornar possível e condicionar, gesto que inaugura o passo decisivo da metafísica ao conferir ao caráter a priori do ser o traço de condição (GA 6.2, 202; Nietzsche II, p. 180).
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Contudo, ao receber o traço essencial do “tornar possível” (das Ermöglichende), revela-se no início da metafísica uma ambiguidade singular: o ser é, de um lado, pura presença e, de outro, possibilitação do ente (GA 6.2, 204), ambiguidade que brota da dominação grega do ser como presença constante.
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Assim, a possibilidade é pensada como capacidade: o “bem” estabiliza o ente, e o possível, concebido a partir da enticidade do ente, é apreendido como aptidão que confere consistência de ser.
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Em termos modernos, a potência do possível mede-se por seu poder de efetivar-se como real; o possível torna-se potencial, deixando entrever a passagem de dynamis a potentia, e passa a servir de medida para a vontade de potência.
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É somente com a metafísica da subjetividade, afirma Heidegger, que o traço antes velado da idea — ser o que torna possível e condiciona — se libera plenamente e entra num jogo sem entraves, culminando na modernidade na definição do ser como condição de possibilidade do ente enquanto objeto representado (GA 6.2, 206; Nietzsche II, p. 183).
Ser e Tempo: o primado do possível e a possibilidade como existencial-
Ser e Tempo rompe com esses pressupostos: o ente guia da questão do ser não é um ente “aí-diante”, mas o Dasein, que não é uma nova figura da subjetividade, e assim o primado da presença é quebrado.
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Por isso a questão da possibilidade é retomada por via existencial, especialmente no § 31, onde Heidegger afirma que o Dasein não é um ente aí-diante que, adicionalmente, poderia algo, mas é antes e primordialmente ser-possível; ele é sempre o que pode ser e é, em seu modo de ser, essa possibilidade.
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O ser-possível existencial distingue-se tanto da possibilidade lógica vazia quanto da contingência de um ente aí-diante para o qual tanto pode “ocorrer” isto quanto aquilo; enquanto categoria modal do aí-diante, possibilidade significa o não-ainda-real e o jamais-necessário, sendo ontologicamente inferior à realidade e à necessidade.
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Em contraste, a possibilidade como existencial é a determinação ontológica mais originária do Dasein, a mais “positiva”, não porque o Dasein possua uma coleção de possibilidades, mas porque, existencialmente, ele não tem possibilidades: ele é possibilidade.
Projeção: abrir sem precisar realizar-
Essa possibilidade não tem de tornar-se real; enquanto tal, ela abre e descobre (erschließt), por meio da projeção (Entwurf), o Dasein para seu poder-ser e, com isso, para seu ser-livre (ETFV, 144).
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A projeção não se confunde com um “projeto” que precisa efetivar-se e, ao efetivar-se, anular-se no ente; ela constitui o “espaço de jogo do poder-ser fático” (ETFV, 145), no qual o Dasein é suas possibilidades enquanto possibilidades.
A morte como possibilidade “mais extrema” e revelação do caráter de possibilidade-
Nada ilumina mais a compreensão nova da possibilidade do que a morte, dita por Heidegger a possibilidade “mais extrema”, na qual o caráter de possibilidade do Dasein deve revelar-se com máxima acuidade (ETFV, 248-249).
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Do ponto de vista modal, a morte não é possibilidade, mas necessidade; contudo, Heidegger a pensa como a possibilidade mais alta porque ela não é mero episódio da existência, mas o horizonte que delimita e, por isso, abre a ek-sistência ao seu ser-inteiro.
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A morte é o “poder-ser descobridor” (erschließendes Seinkönnen, ETFV, 144) em que o Dasein se abre ao seu poder-ser mais próprio, poder que não é essencialmente potência ou capacidade, mas, segundo o sentido primeiro de können, um saber e, assim, um modo de deixar-ser aquilo que nos é o mais próprio: nossa abertura.
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Por isso, no ser-para-a-morte, a possibilidade deve ser entendida sem enfraquecimento como possibilidade, desenvolvida como possibilidade e, no comportamento para com ela, suportada como possibilidade (ETFV, 261), tarefa que recai sobre nós como responsabilidade de abrir-nos à possibilidade que temos de ser, deixando-a ser como tal.
Vorlaufen: a “marcha de avanço” que deixa a possibilidade permanecer-
Em Ser e Tempo, o modo de ser perante a possibilidade, fazendo tudo para deixá-la ser como possibilidade, chama-se Vorlaufen (ETFV, 262), “marcha de avanço”, imagem que pode ser esclarecida pelo uso no esqui, onde o Vorläufer abre a pista, indicando o caráter abridor dessa relação para o Dasein.
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Por isso, avançar (vorlaufen) para a possibilidade significa não atraí-la para si e trazê-la ao presente, mas deixá-la permanecer como possibilidade e relacionar-se com ela desse modo (Prolegômenos à história do conceito de tempo, GA 20, 439).
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A frase de Emily Dickinson, “I dwell in Possibility” (“Eu habito o Possível”), torna sensível que a possibilidade não é uma possibilidade entre outras, mas o próprio “lugar de morada” do ser, desde que sejamos capazes de habitar poeticamente.
O possível como nome do ser no “outro começo”-
Assim, o ser mesmo, enquanto se dispensa em sua abertura, é possibilidade, como dizem claramente os Aportes à filosofia: é no próprio “ser” pensado como Seyn que o possível (Mögliche) advém como a mais abissal abertura, e é sob a forma do possível que o Seyn deve ser pensado na meditação do outro começo (GA 65, 475).
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Talvez o termo português “possível” não baste para dizer o que está em jogo, pois possibilis, criado por Quintiliano (De Inst., 3, 8, 25) para traduzir dynaton, aparenta-se a posse (potis esse), “estar em posição de poder sobre”, “ter a potência de”, o que parece opor-se ao sentido heideggeriano.
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Ernout e Meillet observam, porém, que o sentido primeiro de potis foi eliminado no sentido de “poder sobre, poderoso” em favor de potens e se especializou em “que pode, capaz” e, no neutro, “possível”, sugerindo que o “potencial” é, nesse sentido, a aniquilação do possível em seu sentido verdadeiro.
Mögen, Vermögen e a via de uma potência não brutal-
Para pensar como fala o alemão, é decisivo notar que Heidegger torna novamente audível o verbo mögen (amar), situado no coração de Möglichkeit (possibilidade) e de Vermögen (poder, faculdade, capacidade), em diversas passagens (GA 4, 117; GA 75, 87 s.; GA 7, 129; sobretudo GA 9, 316 s.).
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É verdade que mögen remonta à raiz indo-europeia *magh-, ligada ao poder, visível no grego méchané, no latim machina, no inglês may e might e no alemão Macht (potência); mas justamente por isso se abre a via para pensar uma “potência do possível” que não se confunda com o poder bruto de eficiência nem com o poder total da subjetividade incondicionada na época da Machenschaft e do reino ilimitado da vontade de potência.
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Nos Aportes à filosofia, Heidegger afirma que é precisamente a Machenschaft, o império da eficiência, que, reclamando-se apenas do “eficaz” (Wirksame) e assim do “poderoso” (Mächtige), não concede lugar algum à verdadeira potência (echte Macht) (GA 65, 47).
A calma força do possível e o poder de amar como deixar-ser-
A verdadeira potência, medida pelo critério da eficiência total do fazer, aparece paradoxalmente como impotência (Ohnmacht; GA 65, 47), e Heidegger a nomeia como “Die stille Kraft des Möglichen”, a calma força do possível, insinuada em Ser e Tempo (p. 394) e desdobrada na Carta sobre o humanismo.
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Ela é calma e silenciosa porque não precisa agitar-se incessantemente para assegurar sua potência por um acréscimo perpétuo de potência; e sua força (Kraft) é buscada em das Mögliche no próprio mögen (amar), pensado por Heidegger como “fazer dom do ser” (GA 9, 316).
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É por esse dom que o amado pode advir a si; e é desse amar (mögen) que todo poder (Vermögen) verdadeiro recebe seu conteúdo, pois “o poder de amar” (das Vermögen des Mögens) é aquilo pela “graça” (“kraft”) de que algo pode propriamente ser capaz (vermag) de ser.
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No grande Entrevista vespertina de 1946-1948 lê-se: “Sem o amar próprio do amor (das Mögen der Liebe) não podemos (vermögen) nada” (GA 75, 89); e no início de O que chama a pensar?: “Nós só somos capazes (vermögen) daquilo que amamos (mögen), isto é, daquilo a que, com afeto, nos confiamos e assim admitimos ao deixá-lo ser” (GA 7, 129; Ensaios e conferências, p. 151).
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O poder de amar é o que torna capaz porque deixa-ser; essa é sua graça, que é também sua força: conceder favor ao ser, de modo que o ser se desdobre sem esgotar-se na eficácia do ente.
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Dispensa-se, assim, como possibilidade “à altura” do Dasein: o ser não “torna possível” como condição instrumental, mas abre, libera e faz dom inesgotavelmente, com a força singular do que “ama de preferência”, como diz René Char (“Aisé à porter”).
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