User Tools

Site Tools


estudos:ldmh:physis

Physis

LDMH

  • Physis no começo grego da filosofia
    • O nome physis ocupa uma posição singular no início grego da filosofia, como atesta o fato de que as obras de Heráclito, Parmênides e Empédocles foram transmitidas sob o título Peri physeôs, “sobre a physis”, o que não é mero dado textual, mas expressão de uma necessidade historial mais profunda.
    • A situação contemporânea — a disponibilização das “forças naturais” como reserva energética, a indeterminação crescente entre “natural” e “artificial” e a exigência de preservar uma “natureza ameaçada” — não constitui um conjunto de problemas ocasionais, mas manifesta, como diz Heidegger, a “mensagem destinal do ser da Europa e hoje do planeta”, cuja marca própria se imprime no modo singular de relação com aquilo que se chama “natureza”, tradução latina de physis.
    • Reconhecer que outras civilizações não conheceram uma noção de “natureza” em sentido próprio é distinto de compreender a proveniência que vincula o destino do Ocidente a uma metafísica, pois é metafísica toda forma de pensamento cujo horizonte essencial se encontra na prova da physis.
    • Nesse sentido, a afirmação galileana segundo a qual a natureza se lê em linguagem matemática é tão metafísica quanto a Física de Aristóteles, e a nomeação da physis constitui o primeiro começo da história metafísica do Ocidente.
  • Tradução de physis por “natureza” e empobrecimento do sentido
    • A tradução de physis por “natureza” possui sua legitimidade e sua história, mas já não deixa transparecer a força do que os gregos pensaram nesse termo, força que, segundo Heidegger, ainda hoje apenas mal conseguimos medir.
  • Physis, phuô e a experiência da eclosão
    • O termo physis remete ao verbo grego phuô, que significa “impelir”, “fazer crescer”, raiz que reaparece no latim e, por seu intermédio, em certas formas do verbo “ser” nas línguas modernas, como no francês “je fus”, indicando uma antiga proximidade entre ser e crescer.
    • Na Introdução à metafísica, ao investigar a etimologia de “ser”, Heidegger reconduz o sentido lexical corrente a um sentido fenomenologicamente primeiro, no qual o “crescer” se mostra como eclosão, e o que é concedido a eclodir recebe seu sentido a partir do que se desdobra na presença ao vir a aparecer.
    • A eclosão (Aufgehen) não deve ser entendida apenas a partir de imagens simples, como a flor que se abre, mas como o dom da dimensão na qual toda coisa pode desabrochar em seu ser.
    • Por isso, os gregos não extraíram da observação de “processos naturais” um conceito abstrato de physis; ao contrário, foi a experiência do ser como eclosão no aberto que tornou possível um olhar para os fenômenos naturais enquanto tais.
  • Do espanto à théoria
    • Não é evidente que a alternância do dia e da noite, das estações e da vida dos viventes se deixe ver unitariamente como physis; a tradição filosófica, desde Platão, reconheceu no espanto a experiência em que as coisas se apresentam a partir da maravilha de sua eclosão na presença.
    • No espanto, o ente enquanto ente e em sua totalidade é tomado livremente em vista, mas esse olhar rapidamente se fixa no que vem à presença, passando a considerar teoricamente princípios e causas que determinam forma e constância.
    • Assim se instaura a tarefa da théoria, historialmente decisiva para o Ocidente, na qual o ente é apreendido em seus aspectos e gêneros.
  • Retração do aberto e esquecimento do ser
    • Heidegger não vê nessa consideração teórica o simples progresso necessário da razão humana, pois ela repousa secretamente sobre a retração da experiência fundamental do aberto em sua eclosão, que conferia ao espanto sua tonalidade originária.
    • O apagamento desse retraimento, que deixa o campo livre para o conhecimento do ente em sua “natureza” e em suas causas, coincide com aquilo que Ser e Tempo nomeou como o esquecimento do ser.
  • Retorno ao sentido originário de physis
    • O esforço de pensar contra a corrente da representação metafísica da natureza orienta a meditação heideggeriana do termo physis, buscando uma via capaz de dizer a aparição das coisas a partir do próprio foco de sua aparição.
    • Isso se manifesta na leitura do segundo livro da Física de Aristóteles, onde a physis é definida como princípio de movimento e de mudança, e onde Heidegger compreende a mudança não como acréscimo externo, mas como a virada em que o próprio rosto da coisa irrompe em forma, revelando ao mesmo tempo a matéria de sua metamorfose.
    • No seio da mobilidade assim compreendida, tudo o que é “segundo a physis” desperta incessantemente da latência e se ergue na plenitude de seu ser, sem jamais se concluir como uma obra acabada.
  • Energeia, technè e obra
    • Aristóteles nomeia essa plenitude como energeia, termo em que ressoa a experiência da obra (ergon), o que não indica uma projeção antropomórfica, mas revela que a compreensão da physis encontra sua dimensão originária no vínculo com a technè.
    • A technè, entendida não como técnica moderna, mas como saber essencial, designa a disposição fundamental em que os seres humanos fazem a experiência das coisas, sustentados pela possibilidade de nelas se entender.
    • Na forma da poièsis, a technè faz advir algo cujo princípio se encontra em outro; contudo, esse outro — o olhar e a mão do artesão — é soberano precisamente porque se coloca a serviço do que se produz de si mesmo.
    • Assim, technè e physis pertencem uma à outra: a technè é orientada para a physis, e a physis só se deixa ver a partir da technè, como mostram tanto a Introdução à metafísica quanto A origem da obra de arte.
  • Produção, retração e domínio
    • Toda obra humana é secretamente sustentada pelo que se produz de si mesmo, entendido como aquilo que, no ritmo de sua eclosão, conduz do “lá” para o “aqui” da presença.
    • Contudo, o que é assim produzido tende a eclipsar a própria eclosão, que se retrai diante do olhar teórico e se perde à medida que a technè se orienta para o domínio e a apropriação do que produz.
  • O retraimento como essência da physis
    • É a experiência da obra, mais originária que o olhar desinteressado da théoria, que abre o caminho para o foco da aparição, embora esse foco seja em si mesmo o mais inaparante.
    • Nesse inaparante se deixa pensar a fonte de toda eclosão, razão pela qual Heidegger atribui importância decisiva ao fragmento 16 de Heráclito: physis kryptesthai philei.
    • Longe de significar que “a natureza ama esconder-se”, esse dizer exprime que nada é mais próprio da eclosão do que o retraimento, isto é, que a manifestação só se dá no jogo com o ocultamento.
  • Physis e alétheia
    • Na meditação da clareira como desvelamento que se vela, o que os gregos disseram tanto por alétheia quanto por physis, Heidegger não busca restaurar um sentido originário perdido.
    • Ele convida antes a entrar num relacionamento aberto com o espaço dos primeiros começos, de modo a contrabalançar a forma cada vez mais unívoca com que pensamos hoje aquilo que ainda chamamos “natureza” e “verdade”.
estudos/ldmh/physis.txt · Last modified: by mccastro