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Etimologia
- Eliminar dois preconceitos sobre a etimologia em Heidegger
- É necessário desfazer dois preconceitos persistentes: o de que Heidegger pensaria exclusivamente a partir de etimologias e o de que, além disso, ele se divertiria forjando etimologias fantasiosas, como se o trabalho com as palavras fosse um jogo arbitrário.
- Uma vez publicado o conjunto dos cursos disponíveis, torna-se visível, ao contrário, que Heidegger adverte com frequência seus estudantes contra os riscos do recurso etimológico, insistindo que a análise verbal não deve substituir o acesso ao próprio fenômeno em questão.
- No curso de 1931-1932 sobre Platão, ao explicitar o sentido próprio de alétheia como suspensão do retraimento, ele imediatamente impõe cautela contra a “acrobacia” etimológica, capaz de produzir debates estéreis e erros graves, lembrando inclusive que os gregos também conceberam a verdade como homoiôsis (homoiôsis), isto é, adequação e acordo, em sentido oposto ao que a etimologia sugeriria.
- Crítica à superstição da “origem” e limites do procedimento etimológico
- Na primeira versão da Introdução à metafísica, ao preparar o estudo da etimologia da palavra “ser”, Heidegger recusa a “superestimação” ilusória que supõe extrair por golpe de varinha a essência de “ser” mediante retorno direto à raiz do verbo, pois tal gesto transforma a etimologia em fetiche.
- Ao mesmo tempo, ele rejeita a recusa precipitada que declara mortas as significações originárias por pertencerem a um “passado findo”, mostrando que a questão não se resolve nem por absolutização nem por desprezo; e o próprio percurso etimológico do “ser” termina reconhecidamente em impasse, o que atesta seu caráter experimental e não dogmático.
- Essas advertências remetem a uma interrogação mais ampla sobre a ideia de uma “origem” primeira dos vocábulos e sobre a noção de raiz como portadora de um sentido “originário” supostamente estável, tema que atravessa, por exemplo, Parmênides (GA54, 31; GA55, 194).
- Distanciamento de Heidegger da filologia das raízes indo-europeias e da metafísica da origem
- O projeto de uma nomenclatura geral das raízes indo-europeias, em consolidação nas primeiras décadas do século XX, particularmente no entorno da Sociedade Linguística de Paris e dos trabalhos de Antoine Meillet e de seus alunos, que conduziriam a obras como O Vocabulário das Instituições Indo-Europeias de Émile Benveniste e o Dicionário das Raízes das Línguas Europeias de Grandsaignes d’Hauterive, é inteiramente estranho a Heidegger, embora anuncie em certo sentido o estruturalismo.
- A etimologia praticada como pesquisa puramente diacrônica — e, no fundo, acrônica — de uma raiz pura que serviria como metro-padrão do significado, formula a questão da origem da linguagem sob um horizonte previamente enviesado pela metafísica: a crença numa significação originária em si, da qual derivariam as demais, constitui para Heidegger um protótipo de ilusão metafísica.
- Tais representações dominantes em linguística remontam ao fato de que a primeira reflexão sobre a língua, a gramática grega, foi conduzida pelo fio da Lógica, no horizonte de uma doutrina do dizer e da proposição, onde os vocábulos são tomados essencialmente como conceitos que exprimem um universal em si.
- Ao explicitar a tese aristotélica da unidade do ser como analogia, Heidegger conclui que há relações próprias no próprio idioma que parecem exprimir-se em forma lógica, mas que a lógica habitual falha já no modo de significar; por isso, a linguagem não pode ser apreendida logicamente, e é preciso libertar as categorias da linguagem de seu conteúdo lógico dominante desde a época alexandrina, ainda que preparado por Platão e Aristóteles (Aristóteles, Metafísica Θ 1-3, GA33, 39).
- Trabalho com os vocábulos como gesto fenomenológico de tornar a palavra falante
- Se Heidegger trabalha incessantemente os termos, ele não o faz num horizonte filológico de erudição, nem numa metafísica da origem, mas num gesto fenomenológico: fazer com que os vocábulos se tornem falantes, deixando ressoar o que ainda podem dizer e fazer ouvir de inédito.
- Ao evocar o dialeto alemânico em que escreve J. P. Hebel, Heidegger afirma que todo dialeto (Mundart, modulação de boca) é fonte secreta de onde continua a afluir o que o espírito da língua abriga e resguarda, isto é, relações fundamentais — embora inapparentes — com Deus, com o mundo, com os seres humanos, com suas obras e seus gestos; e, mais decisivamente, uma presença alta e soberana a partir da qual cada coisa (Ding) recebe sua proveniência (Herkunft) e ganha vigor e fecundidade (GA13, 135; Questões III, p. 47).
- Palavra como existencial e a libertação da gramática em Ser e Tempo
- Em Ser e Tempo, Heidegger exige que a tarefa de libertar a gramática da lógica seja precedida por uma compreensão positiva da estrutura a priori da fala em geral enquanto existencial, isto é, enquanto traço constitutivo da abertura do Dasein.
- Que a fala seja existencial significa que ela precede sempre já os vocábulos efetivos de uma língua e é co-originária com a disposicionalidade e com o entender, de modo que a estrutura a priori da fala deve ser vista antes que a força das palavras elementares em que o Dasein se exprime seja achatada pelo senso comum (Ser e Tempo, p. 165; SZ, 161; SZ, 221).
- Esse ver exige interrogar não só o sentido próprio das palavras, mas a compreensão de mundo que elas abrigam e as tonalidades (Stimmungen) que elas afinam em sua melodia, para que à abertura do Dasein responda a abertura do mundo.
- Desse modo, o cuidado etimológico em Heidegger não é caça a uma origem impossível, mas um modo de desobstruir a estrutura existencial a priori da fala no ritmo da compreensão de mundo e de suas melodias, pressupondo que a “língua falada” (Sprache) é mais pensante e mais abridora do que nós (GA15, 205; Heráclito, p. 176).
- Segundo preconceito: a acusação de etimologias imaginárias e o estatuto do “fantasioso”
- Ainda assim, poderia parecer que esse a priori existencial abre caminho para a solicitação arbitrária; é aqui que se injeta o segundo preconceito, segundo o qual Heidegger, como um Sócrates entusiasmado do Crátilo, forjaria etimologias imaginárias.
- A questão, porém, é mais sutil, porque o leitor de fato encontra por vezes etimologias desconcertantes; contudo, Heidegger dispõe de formação filológica de alto nível, especialmente em filologia clássica, e permanece inevitavelmente dependente da ciência filológica de seu tempo e, por vezes, de tempos anteriores, dadas as longas durações dos dicionários.
- Exames cuidadosos mostram que muitas etimologias atribuídas a invenção são, na verdade, usos de dicionários então vigentes: ao interpretar to chreôn como “a primeira palavra do ser” em A Palavra de Anaximandro (GA5, 365; Caminhos que não levam a lugar nenhum, p. 441), Heidegger afasta o sentido clássico de “necessidade” (confirmado como derivado por Chantraine) e parte de modo justificável de chraô, chraomai, com sua gama de sentidos (aspirar a; ter à disposição para usar; proferir oráculo; recorrer ao oráculo; emprestar; tomar emprestado).
- O ponto desconcertante é quando ele tenta desdobrar chraô a partir de cheir, “mão”, sugerindo um horizonte de manejar, dar a mão, entregar em mãos próprias, e, daí, pensar uma pertença em que a presença mantém (main-tient) o presente ao entregá-lo, transmiti-lo ou abandoná-lo, como modos de “manter na mão”.
- O helenista comum se espanta porque Chantraine, Boisacq e Frisk não registram essa derivação nem como hipótese errada; contudo, Heidegger não inventa: basta abrir os Grundzüge der griechischen Etymologie de Georg Curtius (edição de referência de 1879) para encontrar explicitamente atestada e “justificada” essa filiação, além de Frisk mencioná-la.
- Por que a questão não se reduz a “acertar” ou “errar” etimologias
- Mesmo assim, não se alcança ainda o núcleo do problema, pois, ainda que Heidegger inventasse algumas etimologias (o que ocorre), o ponto decisivo não é julgá-las apenas pelos critérios de uma genealogia diacrônica positiva.
- A ideia de progresso positivo da filologia, quando aplicada à etimologia, torna-se problemática porque pressupõe, ainda que tacitamente, que a pura genealogia diacrônica é a verdade do sentido; e essa suposição é ela mesma uma ficção da ciência positiva.
- O mérito de P. Chantraine está em romper com essa ficção ao compreender que não há etimologia sem história do uso das palavras na língua, nem, portanto, visada diacrônica sem horizonte sincrônico, isto é, sem a motivação e a compreensão implícita — imaginária ou real, dita ou silenciosa — que têm os falantes ao empregar seus termos.
- Por isso, importa menos determinar quais dicionários Heidegger consultava do que reconhecer a lei efetiva do etymo-logos: a etimologia de “etimologia” como “palavra verdadeira” sugere que, para a escuta genuína da palavra, todas as etimologias são verdadeiras, inclusive as falsas, isto é, as imaginárias, poéticas, populares ou fantasiosas, o que retoma precisamente a lição do Crátilo de Platão.
- Encontro “diamythológico” entre diacronia e sincronia e a crítica heideggeriana aos dicionários
- Heidegger está plenamente consciente do enlace entre a etimologia diacrônica e a etimologia sincrônica, numa espécie de encontro “diamythológico”, isto é, numa junção em que dialogos e mythos se casam, para usar a linguagem de Platão.
- Prova disso é sua crítica recorrente aos dicionários: na conferência sobre A Coisa, ao estudar Ding, ele afirma que os dicionários nada dizem sobre o que as palavras dizem quando são pensadas ao mesmo tempo em que são faladas; e conclui que não é nosso pensamento que vive da etimologia, mas que as etimologias, inclusive as dos dicionários, ainda pensam pouco (GA79, 14).
- Sócrates no Crátilo, anthropos e a redefinição do humano como ser do logos
- Outra prova é o interesse de Heidegger por etimologias socráticas, como a interpretação de anthropos no Crátilo 399c: o humano se distingue dos animais porque observa (skopein) o que vê, relaciona (analogizesthai) e reconsidera (anathrein), de modo que, tão logo vê (opopê), re-vê e reconduz ao logos (logizesthai) o que viu, sendo por isso adequadamente nomeado anthropos como aquele que reconsidera o que viu.
- Em um curso sobre Aristóteles, Heidegger comenta que aí se encontra a maneira adequada de entender a definição clássica do humano como animal falante: em grego, aquilo que chamamos “língua” é desde o início conduzido pelo logos, e o homem “tem a palavra” como modo pelo qual se torna manifesto para si seu ser e o lugar em que se encontra no todo do ente (GA33, 128).
- A língua não é apenas meio de enunciar e comunicar, embora também o seja, mas o âmbito em que irrompem a manifestidade e o anúncio do mundo em geral; por isso, originariamente e em sentido próprio, a língua está em casa na poesia, não como ocupação literária, mas como o clamor com que o mundo responde ao apelo do deus.
- Palavra e coisa: superação da bipolaridade metafísica e a experiência poética
- A experiência evocada por Francis Ponge — segundo a qual os poetas se aprofundam na noite do logos até o nível das raízes onde coisas e formulações se confundem — indica que o problema da etimologia reconduz à necessidade de repensar o vínculo entre “palavras” e “coisas”.
- Em Caminho da Linguagem, Heidegger mostra que a bipolaridade metafísica entre um mundo de palavras e um mundo de coisas se torna insustentável, pois o vínculo do termo com a coisa não é uma relação externa entre dois polos, mas o próprio evento relacional em que o vocábulo carrega e mantém a coisa de modo que ela “é” coisa (p. 154; GA12, 159).
- Consequentemente, pensado com rigor, não se deveria dizer do termo “ele é”, mas “ele dá” (es gibt), não no sentido de que “há” palavras, mas no de que o próprio termo dá; e o que ele dá, segundo a experiência poética e a tradição poética mais antiga, é ser (GA12, 182; Caminho da Linguagem, p. 178).
- A escuta etymo-lógica como desdobramento do logos como alétheia
- Se livre, a escuta etymo-lógica consiste em desdobrar — até o silêncio — a compreensão do logos como alétheia, isto é, como desvelamento que não se separa do próprio dizer.
- No centro de seu estudo do fragmento DK B 50 de Heráclito, Heidegger formula de modo simples a lei dessa escuta: o Logos é ao mesmo tempo desabrigamento do retraimento e abrigamento em retraimento, sendo ele mesmo a alétheia (Ensaios e conferências, GA7, 225).
- Nessa lei se concentra o sentido próprio do exercício etimológico: não a idolatria de uma origem, nem a arbitrariedade do capricho, mas o esforço de ouvir, no dizer, o jogo originário entre abertura e retração que constitui o próprio logos.
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