User Tools

Site Tools


estudos:ldmh:escuta

Escuta

LDMH

  • Embora a formulação kantiana em Opus postumum (“Pensar é falar e falar é escutar”) sugira uma continuidade entre escuta e racionalidade, Heidegger deslocou radicalmente essa relação: a escuta (Horchen) não se limita a uma operação lógica ou linguística, mas se dirige à “abertura insigne” própria à existência do Dasein, onde a razão encontra seu “ser mais abissal” (GA85, 137), definindo-se como um “estender-se sondando” (noûs) que arrebata e recolhe (logos), revelando que a audição e a escuta pertencem aos fenômenos originários que fundamentam o ser do Dasein, o qual se realiza ao prestar atenção ao que só pode se dar a ouvir na abertura do “aí” (Da) que ele é e tem a ser.
  • O ser humano, tendo a ser seu próprio ser, é chamado por esse mesmo ser a responder, a estar à sua escuta, a ser essencialmente aquele que escuta, como destacado em uma das passagens centrais de Ser e Tempo: “A percepção acústica funda-se na escuta [Hören]. Estar à escuta de… é o ser-aberto existencial do Dasein enquanto ser-com voltado para os outros. A escuta constitui mesmo a abertura primordial e verdadeira do Dasein a seu poder-ser mais próprio…” (p. 163), embora, na cotidianidade, absorvidos pelas coisas do mundo ambiente, façamos ouvidos moucos a nosso próprio ser, negligenciando esse “poder-escutar existencialmente primeiro”.
  • A capacidade de escuta é existencialmente primeira porque a escuta assinala a própria abertude do “aí” na relação que o Dasein mantém com o ser, não se tratando tanto de escutar no sentido fisiológico, mas de estar à escuta como disposição fundamental que precede toda percepção auditiva, como Heidegger desenvolve em Logos: “Estamos à escuta quando estamos todo ouvidos. Mas a 'audição' não designa o aparelho do sentido auditivo. A audição (ou as orelhas) que a anatomia e a fisiologia conhecem nunca produz, como órgão dos sentidos, uma escuta, nem mesmo quando a restringimos a ser apenas uma percepção de ruídos, sons ou notas musicais” (GA7, 219).
  • Uma tal percepção não pode ser constatada anatomicamente, provada fisiologicamente ou apreendida biologicamente como um processo que se desenrola no interior do organismo, embora a percepção só ganhe vida ao encarnar-se, o que leva Heidegger a afirmar que “se as orelhas não pertencem verdadeiramente à escuta autêntica no sentido de poder estar atento [Horchsamkeit], então aquilo de que se trata na escuta e nas orelhas diz respeito a uma singular conjunção: não é porque temos orelhas que estamos à escuta, mas porque estamos à escuta que temos orelhas, que podemos ser dotados de orelhas corporais” (GA7, 219), pois os mortais ouvem o troar do céu, o murmúrio da floresta, o fluxo da fonte, os acordes da lira, o ronco dos motores, o ruído da cidade, mas só podem estar à escuta na medida em que, de alguma maneira, estão ou não tensionados pela escuta em uma pertencença a todas essas coisas.
  • A escuta verdadeira (das eigentliche Hören) só é possível a partir de uma pertença essencial (Zugehören) que sinaliza a co-pertença (Zusammengehörigkeit) entre ser e ser humano, indicando que a escuta não é um ato isolado, mas uma disposição fundamental que revela a estrutura ontológica do Dasein como ser-com, onde o outro não é um objeto a ser apreendido, mas um co-participante na abertura do mundo, como desenvolvido na análise da co-originalidade entre ser-com (Mitsein) e ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).
  • Essa co-pertença entre ser e ser humano, que se desdobra como escuta daquilo que o ser dirige em sua palavra (Zuspruch), foi também pensada por Heidegger de maneira historial, segundo as diferentes épocas dessa direção, notando-se que a metafísica, onde domina amplamente o registro da visão (teoria, ideia, especulação), permaneceu surda ao chamado do ser, não por uma deficiência dos pensadores, mas pelo desdobramento historial do próprio ser, que na modernidade se oculta sob a técnica e a racionalidade calculante, impedindo a escuta autêntica e reduzindo-a a mera percepção sensorial ou consumo de estímulos sonoros.
  • Preparada por Ser e Tempo, a possibilidade de uma primeira escuta do ser ofereceu-se ao pensamento — fenomenológica e hermeneuticamente aberto — naquilo que Heidegger denomina, a partir de meados dos anos 1930, a assonância do próprio ser (Anklang), cuja ressonância inaugura a fuga conjunta dos Contribuições à Filosofia, onde a técnica moderna, ao mesmo tempo em que domina a existência humana, priva o homem de sua escuta autêntica: “Nossa escuta e nossa visão definham sob o domínio que a técnica estende através do rádio e do cinema” (GA79, 77), pois todo aparelho acústico rechaça o “mundo ambiente” e sugere ao “ouvinte” uma atitude subjetivista, convidando-o a consumir afetos a vontade, implodindo toda distância sem permitir que a proximidade autêntica surja.
  • Convidados a consumir afetos (GA69, 60), realizamos o impedimento ao ser (das Unwesen) de nossa escuta, que se acomoda ao que concede (das Gewährende), enquanto a escuta originária se dispõe a uma autoridade que se dirige ao ser humano e lhe fala, como destacado no último texto de Caminhos para a Palavra: “De qualquer maneira que, além disso, escutemos, em toda parte onde ouvimos algo, a escuta é o deixar-se-dizer que já contém em si toda percepção e toda representação” (GA12, 243), precedendo assim todas as escutas ordinárias de maneira inaparente, pois falar, por sua vez, não é nada além de uma escuta da palavra para o ser humano.
  • Segundo o hábito, opõe-se falar e escutar: um fala, o outro escuta, mas escutar não apenas acompanha e envolve falar, como ocorre em uma conversa, pois que falar e escutar tenham lugar ao mesmo tempo significa mais, já que “falar é, a partir de si mesmo, escutar, é escutar a palavra que falamos, assim, falar não é ao mesmo tempo escutar, mas falar é, antes de tudo, escutar” (GA12, 243), revelando que a linguagem não é um instrumento de comunicação, mas uma resposta ao chamado do ser, onde a palavra humana só se realiza na medida em que se dispõe a escutar o que lhe é dirigido desde a abertura originária do Dasein.
estudos/ldmh/escuta.txt · Last modified: by mccastro