estudos:ldmh:dilthey
Dilthey, Wilhelm (1833-1911)
- Dilthey representou para Heidegger uma figura central, desde os anos de formação até a publicação de Ser e Tempo, onde ecoa, no §77, uma homenagem solene ao pensador mais velho, sugerindo que à filosofia caberia colocar-se a serviço de sua obra, gesto que, contudo, ressoa mais como uma despedida da chamada filosofia da vida, levantando a questão sobre em que medida esta constituiu uma etapa necessária no caminho de Heidegger e por que razões precisou ser ultrapassada.
- Para o jovem Heidegger, Dilthey aparecia sobretudo como defensor da historicidade da vida, em contraste com a fenomenologia husserliana de inspiração teórica que reivindicava sua própria anistoricidade ou mesmo hostilidade em relação à historicidade, preparando assim sua guinada transcendental, enquanto o projeto diltheyano essencial consistia em compreender a vida a partir dela mesma, como arquifênomeno irredutível, recusando um sujeito transcendental atemporal em favor do complexo interativo do eu concreto, vivo, livre e histórico, que se adquire mediante um trabalho duplo de expressão e compreensão, aproximando-se assim da hermenêutica da facticidade que caracteriza os primeiros desenvolvimentos do pensamento heideggeriano.
- Heidegger reconhece que Dilthey, através dessa interrogação sobre a historicidade da vida, aproximou-se como nenhum outro da questão do ser, embora critique a ampliação diltheyana da hermenêutica como uma limitação funesta, identificando razões significativas que impediram Dilthey de alcançar efetivamente a questão do ser, particularmente a tensão entre seu projeto gnoseológico de crítica da razão histórica, voltado para fundamentar as ciências do espírito, e sua visão psicológica de uma autointerpretação da vida, o que suscitava o espectro do relativismo e acabava por imobilizar a vida como objetividade estática de uma vivência, cujo núcleo era um feixe de forças pulsionais organizadas em torno da oposição entre eu e mundo.
- Por esse caminho insinuava-se o momento da constituição, o caráter objetivo, universal e formal de um sujeito concebido como condição de possibilidade da inteligibilidade da vida por si mesma, de modo que a temporalidade da vida, embora enfatizada por Dilthey, reduzia-se a um desenrolar no modo tradicional da sucessão, falhando assim em desenvolver uma conceitualidade verdadeiramente extraída da vida, carecendo do solo da fenomenologia, sobre o qual sua questão sobre a vida deveria ser repetida e transformada.
- Somente a intuição fenomenológica permitiria fazer aparecer a morte como atravessando a vida por completo e estruturando-a essencialmente como cuidado, ponto de partida da análise e da conceitualidade existencial que faz a temporalidade pender para o futuro, alterando radicalmente o relacionamento com Dilthey e levando ao abandono da questão da vida em favor da questão do ser, assinalando, para além de Ser e Tempo, que Dilthey permaneceu vinculado a um horizonte estético e a um ideal de harmonia que explicariam o fracasso de suas tentativas, enquanto a crítica radical ao vivido, à visão de mundo e à antropologia, a partir dos anos 1930, confirmaria sua pertença a uma tradição metafísica que precisava ser superada.
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