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estudos:ldmh:daseinsanalyse

Daseinsanalyse

LDMH

  • O significado ontológico da analítica do Dasein e sua transposição para a psiquiatria: A Daseinsanalyse, no sentido próprio da analítica do Dasein desenvolvida por Heidegger em Ser e Tempo, é uma investigação ontológica que visa desvelar as estruturas existenciais (ser-no-mundo, cuidado, temporalidade) do Dasein como o ente para o qual, em seu ser, está em jogo esse próprio ser. O termo “analítica” aqui não implica decomposição em elementos simples (como nas ciências naturais ou na psicanálise freudiana em seu aspecto metapsicológico), mas um método regressivo que, partindo da unidade irredutível do Dasein, remonta às suas condições de possibilidade. A transposição desta analítica para o campo psiquiátrico surge do desejo de renovar a compreensão das doenças “mentais” e das práticas terapêuticas, libertando-as dos pressupostos metafísicos (como o dualismo corpo-alma, o naturalismo e a modelagem energética do psiquismo). Esta aplicação gera uma relação complexa, pois estabelece um diálogo entre uma ontologia fundamental (a de Heidegger) e uma ontologia regional (a da psiquiatria fenomenológica), onde a dimensão ôntica dos fenômenos clínicos só pode ser adequadamente acessada à luz da abertura (clareira) ontológica do Dasein.
  • Ludwig Binswanger e a primeira fundação da Daseinsanalyse psiquiátrica: O psiquiatra suíço Ludwig Binswanger, formado na fenomenologia husserliana e em diálogo crítico com a psicanálise freudiana, foi o primeiro a buscar fundamentar uma psiquiatria fenomenológica na analítica do Dasein de Heidegger. Após a leitura de Ser e Tempo, ele utilizou conceitos como “ser-no-mundo” como “fio de Ariadne metodológico” para caracterizar os mundos alterados na psicose (ex.: na esquizofrenia) e os estilos existenciais (ex.: na mania). No entanto, segundo Heidegger e Medard Boss, a apropriação de Binswanger manteve-se prisioneira de uma compreensão ainda subjetivista. Ao tentar “complementar” o “lúgubre cuidado” heideggeriano com o fenômeno do “amor” e ao focalizar-se excessivamente no “ser-no-mundo” de modo dissociado da unidade da analítica, Binswanger, na verdade, não teria rompido com a fenomenologia da consciência de Husserl. Sua “análise existencial” (como foi inicialmente traduzida) constitui, assim, um “mal-entendido produtivo” que, apesar de seus méritos clínicos inegáveis (como evidenciado no tratamento de Aby Warburg), não realizou uma fundação radicalmente nova da terapêutica.
  • Medard Boss e a refundação da Daseinsanalyse a partir do diálogo direto com Heidegger: A verdadeira refundação da Daseinsanalyse como prática terapêutica congruente com o pensamento heideggeriano foi obra do psiquiatra suíço Medard Boss, a partir de um diálogo direto e prolongado com Heidegger, materializado nos Seminários de Zollikon (1959-1969). Para Boss, a relação correta é a de uma ontologia fundamental (Heidegger) que ilumina e funda uma ontologia regional (a psiquiatria). A prática terapêutica (a “análise do Dasein”) é necessariamente ôntica, pois lida com fenômenos determinados na clínica, mas ela só é possível sobre o fundo da “clareira do ser” aberta pela analítica. A originalidade de Boss frente a Binswanger reside em uma ambição mais modesta e, ao mesmo tempo, mais radical: não se trata de mostrar ao paciente como ele “falhou a estrutura do ser-homem” (visão que Boss considerava pessimista e desmesurada), mas de restaurar, tanto quanto possível, a abertura do Dasein ao ser, sua liberdade para consentir a um “poder-ser-no-mundo” determinado. Contra a “resignação terapêutica” freudiana, Boss demonstrou a eficácia desta abordagem mesmo em psicoses como a esquizofrenia.
  • Crítica aos pressupostos metafísicos da psicanálise e rejeição do inconsciente: A Daseinsanalyse de Boss opõe-se explicitamente aos pilares metafísicos da metapsicologia freudiana. Ela rejeita a concepção energética e quantificável da pulsão, substituindo-a pela noção de um “poder-ser-no-mundo” ao qual o Dasein pode se abrir ou se fechar. Rejeita igualmente o modelo do “aparelho psíquico” e, de modo mais decisivo, a hipótese do inconsciente, considerada uma construção fictícia e uma “diferença catastrófica”. Para Boss e Heidegger, a noção de inconscientesurge da necessidade de manter uma cadeia explicativa causal onde falta uma compreensão genuína do que é “compreender” e “escutar”. Esta rejeição, contudo, não visa restaurar um sujeito transparente e onipotente; pelo contrário, ela se funda no reconhecimento da facticidade e do ser-lançado (Geworfenheit): o Dasein é entregue a si mesmo sem ser seu próprio fundamento, e sua tarefa é assumir essa condição finita. A doença surge muitas vezes como uma tentativa de esquiva desta tarefa. A atenção à corporalidade viva do Dasein, em seu sentido extático (corporalidade como modo de ser-no-mundo), torna-se assim central para uma prática terapêutica “à medida do Dasein”.
  • Implicações terapêuticas e o legado dos Seminários de Zollikon: A prática terapêutica que emerge deste diálogo privilegia a escuta da palavra do analisando e a relação analítica como um “cuidado mútuo” que liberta o outro para seu próprio cuidado, antecipando seu poder-ser (uma ideia que Boss vê como congruente com a prática freudiana, embora não com sua teoria). A interpretação, especialmente dos sonhos, é radicalmente reorientada: o sonho não é a via real para um inconsciente, mas uma modalidade específica de ser-no-mundo, cujo tom (Stimmung) e conteúdo devem ser compreendidos no contexto da existência total do sonhador. A obra de Boss sobre os sonhos ilustra esta abordagem, criticando as interpretações “selvagens” e destacando como conteúdos significativos podem, de fato, se manifestar primeiramente no sonho. O legado dos Seminários de Zollikon é, portanto, duplo: oferece uma crítica profunda aos fundamentos metafísicos das ciências do homem e aponta para a possibilidade de uma medicina e uma psiquiatria que, longe de objetificar o humano, saibam acolher e responder ao mistério de sua abertura ontológica, à sua condição de ser-lançado destinado à liberdade. É um antídoto vital em uma época em que a medicina científica frequentemente pretende decifrar o enigma humano sem tê-lo antes verdadeiramente considerado em sua dignidade ontológica.
estudos/ldmh/daseinsanalyse.txt · Last modified: by mccastro