User Tools

Site Tools


estudos:ldmh:abgrund

Abgrund

LDMH

  • Ao evocar nos Beiträge zur Philosophie [GA65] o “caráter cada vez mais abissal da questão do ser”, Heidegger não pretende sugerir que seu pensamento se perca em um indeterminado obscuro, como um “grande não-sei-o-quê” nos moldes da marquise de Fontenelle; embora o termo Abgrund possa sugerir ao leitor francês, ao ser traduzido por abîme [abismo], a imagem de um mergulho em um precipício sem fundo, tal interpretação reduziria equivocadamente seu sentido a um suposto “irracionalismo”; na verdade, Abgrund não designa simplesmente a ausência de fundamento (Grundlosigkeit), mas uma transformação radical, “de fundo em comble” (von Grund aus), da relação do pensamento com aquilo que pensa, indicando não um vazio, mas um movimento de retirada que abre espaço para a presença do ser.
  • No regime metafísico, pensar consiste em estabelecer o fundamento (Grund) de todo conhecimento do ente em sua “entidade” (Seiendheit), ou seja, o ser pensado apenas a partir do ente e fundado como fundamento do ente; quando Heidegger, em Ser e Tempo, coloca a questão do sentido do ser — impensado pela metafísica —, emerge algo simples, porém inédito: esse sentido não pode ser remetido a nenhum ente, pois nele não há nada a pensar além da possibilidade que se abre para a presença do ente em sua totalidade; essa abertura é o que Heidegger chama de Da (o “aí”), dimensão tanto mais inaparente quanto mais nela existimos integralmente, de modo que é no movimento fático de nossa existência que se revela, hermenêutica e fenomenologicamente, o sentido do ser.
  • A impossibilidade de apreender a abertura do Da buscando fundá-la em algo ente foi uma descoberta gradual para Heidegger, exigindo que seu pensamento se aventurasse além dos caminhos metafísicos tradicionais; em Vom Wesen des Grundes (1929) e Vom Wesen der Wahrheit (1930), torna-se evidente que a estrutura constitutiva do “ser-aí” — inicialmente chamada de “transcendência” — revela não ter outro fundamento senão a liberdade, entendida como traço de um ser que só é a si mesmo ao deixar abrir-se o espaço onde o ente pode desdobrar-se; ao final de Vom Wesen des Grundes, Abgrund designa esse “fundo” da liberdade humana que é a abertura do Da, onde o ser humano, exposto e lançado, é chamado a responder à presença do ente, dando-lhe lugar para ser; aqui, a partícula ab- não indica negação, mas o recuo daquilo que se retira para deixar espaço, revelando-se, nos Beiträge zur Philosophie, como “um gênero insigne de abertura” (GA65, 242), permitindo que todas as coisas entrem em ressonância mundial segundo o movimento que Heidegger nomeia Lichtung (clareira).
  • O Abgrund é a dimensão livre onde toda fundação (Gründung) encontra seu recurso inesgotável, decidindo, a cada vez de maneira única, a possibilidade humana de fundar, a partir do ente, uma morada; nele, entra em jogo a mútua pertença entre ser e homem, cujo único “fundamento” é seu próprio advir (Ereignis); o pensamento heideggeriano reconduz a filosofia à meditação dessa pertença, renunciando a buscar um fundamento ou quadro para assentar o conhecimento do ente; não podemos representar o que diz Abgrund, pois ele é “o que há de mais simples e de mais silencioso” (GA66, 52), onde o pensar filosófico tradicional atinge seu limite e sua fonte; talvez algo análogo ocorra na pintura moderna, como nas últimas aquarelas de Cézanne, onde o branco do papel, sem moldura pré-estabelecida, deixa transparecer o motivo em sua luz própria, assim como o Abgrund não é um vazio, mas a abertura que possibilita toda fundação sem precisar ela mesma de fundamento.
estudos/ldmh/abgrund.txt · Last modified: by mccastro