estudos:ladriere:ciencia-estrutura-operatoria
Ciência, estrutura operatória
Capítulo “Ciência” resumido em alguns de seus tópicos essenciais do livro “Os desafios da racionalidade”. Trabalho desenvolvido por solicitação da UNESCO em 1977 e publicado pela Ed. Vozes
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Estrutura elementar das ciências empíricas: raciocínio e experiência
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Nas ciências empíricas, a démarche combina raciocínio e experiência
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Distingue-se esse caso das ciências formais, lógica e matemáticas, nas quais o componente experimental está ausente e o domínio é construído ao ser explorado
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As ciências formais são consideradas apenas na medida em que contribuem decisivamente para as empíricas
Esquema da démarche empírica-
Delimita-se um domínio e adquire-se familiaridade
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Formulam-se hipóteses como regularidades gerais do domínio
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As hipóteses se exprimem em proposições gerais das quais se deduzem proposições de menor ou igual generalidade
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O conjunto virtual de proposições deduzíveis constitui uma teoria
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Tendência à matematização e exemplificação pela teoria das funções e equações diferenciais
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Há esforço para formular hipóteses em representações matemáticas pela riqueza de estruturas abstratas e pela possibilidade de construir modelos formais
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O exemplo da física baseia-se na teoria das funções de variáveis reais
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Grandezas como velocidade, energia e temperatura são associadas a procedimentos de medida e a números reais
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Interdependências são representadas por funções e relações de variação temporal por equações diferenciais
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A solução matemática permite determinar a função e, em seguida, interpretar fisicamente em termos de movimentos e interações
O exemplo do corpo submetido a força de indicação conduz a solução periódica-
A periodicidade da função se interpreta como movimento oscilatório regular em torno do equilíbrio
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A mola aparece como caso exemplar dessa interpretação
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Ampliação do sentido da abordagem matemática: não apenas quantitativa, mas também qualitativa
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A análise por funções permite determinações numéricas, mas não esgota os recursos matemáticos
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A topologia, conforme indicado por trabalhos de R. Thom, fornece instrumentos para fenômenos de forma, como estabilidade estrutural e transformações morfológicas
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A abordagem matemática pode ser qualitativa e não é certo que o quantitativo produza os resultados mais interessantes
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O essencial da representação matemática não é o cálculo numérico, mas a construção dos conceitos
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A representação associa a predicados abstratos uma entidade formal construída por procedimentos decomponíveis em operações elementares de propriedades claras
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Teoria como quadro operatório lógico-formal e possibilidade de expressão algorítmica
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Um corpo de proposições pode constituir teoria sem representação matemática, embora a ciência tenda a recorrer a ela pelo controle exato de operações
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O emprego de teoria envolve operações lógicas formais passíveis de representação algorítmica
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A noção de sistema formal é introduzida como dispositivo que engendra proposições de modo regulado sem considerar interpretações, mas apenas formas
A teoria deve fornecer quadro para raciocínios e predições no domínio estudado-
Em casos favoráveis, a inteligibilidade do conteúdo teórico deriva de sua própria natureza operatória
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Experiência científica como intervenção sistemática e não como simples percepção
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Experiência, em ciência, não é contato perceptivo, mas intervenção sistemática no curso das coisas
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No sentido estrito, consiste em fazer surgir efeito detectável em circunstâncias preparadas segundo plano e hipóteses
Exemplo típico: estabelecimento de dependência funcional entre grandezas variáveis-
Varia-se sistematicamente uma grandeza mantendo outras fixas ou neutralizadas
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Observam-se valores correspondentes e ajusta-se função aos dados numéricos
A oposição entre experiência e observação é relativizada-
A observação científica também envolve dispositivo construído para recolher informações escolhidas com discernimento
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O exemplo do espectro estelar mostra interação provocada entre luz e aparelho ótico que permite interpretação sem ambiguidade
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Estrutura operatória da prática experimental: preparação, crítica e interpretação
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O essencial da experiência não é o registro, mas o que o antecede e o segue
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A preparação submete o sistema a coerções e acoplamentos a sistemas artificiais de comportamento conhecido e controlável
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Mesmo a observação pressupõe enquadramento e instrumentos, podendo os sentidos desempenhar esse papel
Após o registro, impõe-se síntese e crítica para eliminar erros de observação-
Em seguida, a interpretação transforma dados brutos em enunciados utilizáveis à luz de ideias teóricas
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Os dados devem ser comparáveis às hipóteses, por compatibilidade, incompatibilidade ou equivalência
A démarche experimental se analisa em termos operatórios-
Operações materiais de montagem, preparação, interação e inscrição de dados
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Operações intelectuais de eliminação de erros, ajustes, estatística e esquemas indutivo-dedutivos
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Vaivém entre teoria e experiência e caráter não isolado da comprovação
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A démarche científica é descrita como vaivém incessante entre momento teórico e momento experimental
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Hipóteses sugerem experiências para constatar efeitos esperados
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A experiência confirma ou desmente, conservando ou exigindo modificação das hipóteses
A experiência sugere ideias novas, mas não exclusivamente-
Princípios teóricos como invariância e analogia também intervêm na formulação de hipóteses
A comprovação de uma teoria por uma experiência geralmente implica uso concomitante de outras teorias aceitas no momento-
A interpretação dos resultados exige ideias teóricas variadas e não apenas o corpo testado
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Definição formal da operação e suas propriedades constitutivas
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A ideia de operação é apresentada como chave para caracterizar o saber científico
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Primeiro traço: operação como ação de transformação
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O operador, em matemática ou lógica, é definido pelo modo como transforma uma entidade em outra de tipo determinado
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O exemplo do operador de inversão em lógica explicita transformação formal de ordem em pares
Segundo traço: operação como entidade formal-
Suas propriedades são independentes da natureza dos objetos aos quais se aplica
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Variáveis podem substituir objetos, indicando indiferença ao conteúdo material e primado da forma
Terceiro traço: operação como tematizável-
A operação pode tornar-se objeto e ser subsumida sob operação de nível superior
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Não há nível supremo, pois a objetivação permite sempre novas operações sobre operações
Quarto traço: operação como generalizável-
Esquemas abstratos de operação podem integrar-se em esquemas mais gerais que exprimem propriedades formais comuns
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O exemplo da recursividade mostra possibilidade de procedimento passo a passo por operações elementares
Quinto traço: operação como inscrita em feixe operatório-
Operações não são isoladas, mas solidárias por propriedades formais
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A generalização pode estender indefinidamente o feixe, levando à ideia-limite de caracterizar o domínio operatório como horizonte de copertença
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A possibilidade de fecho é considerada improvável, pois a caracterização formal exigiria operações tematizáveis, reabrindo a regressão
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