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Introdução à fenomenologia da religião

(GA60)

No outono de 1920, vemos um elemento “novo” aparecer nas reflexões de Heidegger, nomeadamente em seu curso Introdução à Fenomenologia da Religião, que, em certa medida, foi inspirado pelo livro de Otto sobre o sagrado. O curso consistia claramente em duas partes, uma dedicada a uma introdução ao fenômeno da experiência de vida factual (8 palestras) e a outra relacionada à interpretação fenomenológica do cristianismo original nas Epístolas de São Paulo aos Gálatas e Tessalonicenses. Nesta segunda parte, Heidegger explicou primeiro em que sentido o cristianismo original constitui uma experiência de vida factual, para depois mostrar que o cristianismo, como experiência de vida factual, é temporalidade primordial. Assim, a primeira parte do curso contém uma análise fenomenológica de um fenômeno muito importante, frequentemente esquecido em nossa tradição ocidental; na visão de Heidegger, esse fenômeno era muito bem compreendido, embora não tematicamente, pelos primeiros cristãos, a saber, a vida em sua factualidade aqui e agora, a experiência factual da vida. Em Ser e Tempo, encontraremos esse mesmo fenômeno sob o título Dasein, Ser-no-mundo, ek-sistência.

Sheehan apontou os paralelos que existem entre a abordagem de Heidegger ao cristianismo primitivo e sua abordagem à filosofia grega. Em ambos os casos, Heidegger descobriu um nível de experiência que era vivido de forma não tematizada, mas que em épocas posteriores (14) foi ocultado; esse nível de experiência só pode ser redescoberto por meio de uma desconstrução da tradição, que muitas vezes parece “violenta”. É importante notar que, em ambos os casos, essa experiência era pré-teórica e era uma experiência de auto-superação, de ser levado além da compreensão comum de si mesmo. Por mais diferentes que os dois casos possam ser, o que eles têm em comum é um movimento tomado como uma interação dinâmica entre presença e ausência. A diferença entre as duas experiências consiste no fato de que, no cristianismo primitivo, esse movimento era entendido em termos de temporalidade, enquanto os primeiros gregos interpretavam esse movimento em termos de revelação ou verdade. (1990, p. 13-14)

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