estudos:kockelmans:1994:0
0 Introdução
KOCKELMANS, Joseph J. Edmund Husserl’s phenomenology. West Lafayette, Ind: Purdue University Press, 1994.
Edmund Husserl: Um Esboço Biográfico
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Na época de seu nascimento, a Morávia fazia parte do Império Austro-Húngaro, de modo que Husserl era austríaco de nascimento.
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Concluiu a educação elementar aos dez anos e foi enviado a Viena para o ensino secundário, frequentando o Realgymnasium e completando os estudos no Staatsgymnasium de Olmütz.
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Em 1876 ingressou na Universidade de Leipzig com a intenção de tornar-se astrônomo, sem ainda mostrar grande promessa, exceto em matemática e física.
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Em Leipzig estudou astronomia por três semestres (1876-1878), além de matemática e física, e assistiu a lições de filosofia de Wilhelm Wundt, que não conseguiram despertar seu interesse.
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Em 1878 deixou Leipzig e foi para a Universidade Friedrich Wilhelm de Berlim, onde conheceu Leopold Kronecker, Ernst Kummer e Carl Weierstrass, que o introduziram a um modo rigoroso e disciplinado de pensar.
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Sob influência desses matemáticos, Husserl desenvolveu interesse pela filosofia da matemática, ampliando seu interesse filosófico, com contribuição das lições de Friedrich Paulsen.
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Após seis semestres em Berlim, transferiu-se em 1881 para a Universidade de Viena, a fim de completar a formação sob Leo Königsberger, embora seu interesse pela filosofia crescesse.
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Doutorou-se em 1883 com a dissertação Beiträge zur Theorie der Variationsrechnung (Contribuições à Teoria do Cálculo das Variações), sob orientação de Königsberger.
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Em 1883 foi chamado de volta a Berlim por Weierstrass como assistente; quando este adoeceu, Husserl decidiu retornar a Viena e continuar os estudos de filosofia, decidindo definitivamente dedicar a vida à filosofia.
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Nos dois anos seguintes, assistiu às lições de Franz Brentano; em Viena, seu pai faleceu em 24 de abril de 1884.
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Enquanto Paulsen e Wundt enfatizavam as ciências biológicas, Brentano destacava a psicologia e a lógica; como Husserl, sob influência de Mill, tendia a identificar filosofia e psicologia, compreende-se seu interesse por investigações sobre a função da “filosofia” como “ciência estrita e rigorosa” no domínio da lógica.
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Um ano depois, após completar com sucesso sua Habilitationsschrift Über den Begriff der Zahl: Psychologische Analysen (Sobre o Conceito de Número: Análises Psicológicas), Husserl tornou-se Privatdozent sob Stumpf e membro da faculdade de filosofia de Halle.
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Em 24 de outubro de 1887, apresentou sua lição inaugural sobre os fins e tarefas da metafísica, “Die Ziele und Aufgaben der Metaphysik”.
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Em 8 de abril de 1886, Husserl converteu-se ao cristianismo e filiou-se à Igreja Evangélica Luterana, sendo batizado em 1 de agosto de 1886.
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Em 6 de agosto do mesmo ano, casou-se com Malvina Steinschneider, também de ascendência judaica, que pouco antes do casamento se convertera ao cristianismo e se tornara membro da Igreja Evangélica Luterana.
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Entre 1887 e 1891, Husserl deu lições sobre teoria do conhecimento, metafísica, lógica, ética, filosofia da matemática e psicologia.
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Em 1891 publicou seu terceiro livro, Philosophie der Arithmetik: Psychologische und logische Untersuchungen (Filosofia da Aritmética: Investigações Psicológicas e Lógicas).
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Influenciado pela crítica de Gottlob Frege a esse livro e por vários outros fatores, Husserl logo abandonou o psicologismo de seus escritos anteriores; na primeira parte das Investigações Lógicas: Prolegômenos à Lógica Pura, rejeitou explicitamente toda forma de psicologismo na lógica.
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Essa obra foi muito bem recebida por muitos dos maiores estudiosos da época e estabeleceu definitivamente Husserl como filósofo importante.
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Em 1905 a faculdade recusou torná-lo “professor ordinarius” alegando falta de “distinção científica”; em 1906 tornou-se professor universitário regular porque o ministro prussiano da educação anulou a decisão da faculdade.
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Durante os anos em Göttingen, Husserl trabalhou muito, ampliou substancialmente seu conhecimento da herança filosófica, escreveu extensivamente e lecionou grande número de cursos.
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Foi também em Göttingen que Husserl começou a lecionar sobre fenomenologia; nesse período fértil escreveu muitos tratados importantes, a maioria inédita, como suas investigações sobre tempo e espaço e A Ideia da Fenomenologia.
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Os únicos escritos publicados nesse período foram o importante artigo no recém-criado jornal Logos, intitulado “Filosofia como Ciência Rigorosa” (1911), e o primeiro volume de sua obra magna, Ideias (1913).
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Em 1916 Husserl foi chamado a Freiburg para suceder Heinrich Rickert, que se aposentara naquele ano; permaneceu em Freiburg como professor titular até 1928, quando atingiu a idade de aposentadoria.
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Os doze anos em Freiburg pertencem aos mais produtivos e felizes de sua vida, embora vários eventos trágicos tenham marcado o período.
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Na primavera de 1916, Husserl soube que seu filho Wolfgang morrera em Verdun em 8 de março do mesmo ano; em abril de 1917, seu filho Gerhart foi gravemente ferido, e em julho do mesmo ano sua mãe faleceu.
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Em 3 de maio de 1917, Husserl apresentou sua lição inaugural, “Die reine Phänomenologie, ihr Forschungsgebiet und ihre Methode” (“Fenomenologia Pura: Seu Domínio de Pesquisa e Seu Método”).
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No mesmo ano, deu três lições sobre a concepção ideal de humanidade de Fichte; em 1918 apresentou lições em Londres sobre método fenomenológico e filosofia fenomenológica.
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Em dezembro do mesmo ano, foi eleito membro correspondente da Aristotelian Society; em 1923 e 1924, contribuiu com ensaios para o jornal japonês Kaizo.
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Essa tentativa de cooperação próxima fracassou porque a concepção de fenomenologia de Heidegger parecia substancialmente diferente da desenvolvida por Husserl.
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Em 1928 apareceram impressas as Vorlesungen zur Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins (Lições sobre a Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo), editadas por Heidegger.
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Husserl aposentou-se da universidade em 31 de março de 1928; nesses anos permaneceu incrivelmente produtivo, escrevendo importantes tratados originalmente destinados a lições e depois publicados em livro, incluindo Primeira Filosofia, Lógica Formal e Transcendental e Psicologia Fenomenológica.
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Pouco depois, desenvolveu essas lições num livro que seria publicado sob o título Meditações Cartesianas; em 1930 publicou seu “Posfácio” a Ideias; em 1931 apresentou lições em Frankfurt, Berlim e Halle patrocinadas pela Kant Society.
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Particularmente após 1933, a vida tornou-se muito difícil para Husserl e sua esposa; embora nenhum dos dois tenha terminado num campo de concentração, ambos sofreram enormemente sob a humilhação imposta a eles e a todos os outros judeus que conheciam.
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Em 1933 Husserl recebeu convite para integrar a faculdade de filosofia da University of Southern California; deliberou sobre as implicações de uma possível mudança para os Estados Unidos, mas finalmente recusou a oferta.
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Em 1934 dirigiu uma carta ao Congresso de Filósofos em Praga, expressando suas ideias sobre a tarefa da filosofia no mundo contemporâneo; no mesmo ano, fizeram-se planos para levar os manuscritos de Husserl a Praga, mas nunca se materializaram.
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Em 1935 Husserl apresentou uma lição em Viena sobre “Filosofia na Crise da Humanidade Europeia”; no ano seguinte, em novembro, deu uma lição em Praga sobre “A Crise das Ciências Europeias e a Psicologia”.
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No final de 1935, Husserl foi proibido pelo Partido Nacional-Socialista de ensinar; em 1936, porém, conseguiu enviar a primeira parte de seu novo livro, Crise, a Praga, onde estava programado para aparecer no jornal Philosophia.
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Em 1937 o Ministério da Educação alemão recusou o pedido de Husserl de participar do Nono Congresso Internacional de Filosofia em Paris.
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Husserl morreu de pneumonia em 27 de abril de 1939, aos setenta e nove anos.
Os Arquivos Husserl
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Após consulta com a viúva de Husserl, começou imediatamente a tomar as medidas necessárias para salvaguardar a coleção extremamente valiosa.
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Após muitas dificuldades e vários desvios via Berlim e Bruxelas, os manuscritos finalmente chegaram a Lovaina, na Bélgica.
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Um dos itens mais notáveis da coleção filosófica é um exemplar da primeira edição de Sein und Zeit contendo a longa dedicatória manuscrita de Heidegger a seu mestre.
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Esse exemplar também está cheio de observações filosóficas marginais de Husserl, que gradualmente revelam sua decepção ao notar como seu amado discípulo se afastava cada vez mais dele; após ler o livro, escreveu na página de título: “Amicus Plato, magis amica veritas.”
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Quase todos os manuscritos inéditos deixados por Husserl ao morrer foram armazenados em Lovaina; compreendem cerca de quarenta mil páginas em oitavo, praticamente todas escritas no sistema estenográfico Gabelsberger.
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Esses manuscritos provaram ser de valor inestimável para a compreensão da evolução filosófica de Husserl, pois contêm o resultado de suas explorações filosóficas em seus anos mais tardios e ainda férteis.
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O estudo de seus manuscritos mais recentes trouxe à luz o fato de que suas obras inéditas são provavelmente, em certo sentido, ainda mais importantes que os livros publicados em vida.
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Existem transcrições múltiplas para algumas séries de lições e livros, o que possibilita decifrar a caligrafia de Husserl com maior facilidade e testar a exatidão dos copistas; em 1939, o trabalho mais difícil nesse sentido ainda estava por fazer.
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Subsequentemente, todos os manuscritos foram agrupados em pacotes de aproximadamente oitenta páginas cada.
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Desde 1939, vários estudiosos se engajaram na transcrição sistemática dos escritos de Husserl com a intenção de preparar os textos mais importantes para publicação.
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Em 1939 Fink e Landgrebe vieram a Lovaina para iniciar a transcrição de manuscritos ainda não estudados; de 1942 a 1947, Stephen Strasser continuou esse labor de paciência e resistência.
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A partir de 1945, Walter e Marly Biemel cooperaram nesse trabalho por mais de dez anos, e após 1951 Rudolf Boehm carregou a maior parte desse trabalho.
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Após Boehm partir para a Universidade de Ghent, vários estudiosos prepararam diversos manuscritos para publicação, entre eles Margot Fleischer, Lothar Eley, Iso Kern, Ulrich Claesges, Paul Jansen, Eduard Marbach e Ingeborg Stromeyer.
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No início esse trabalho era feito exclusivamente em Lovaina; depois, após o estabelecimento de centros de pesquisa onde cópias dos manuscritos podiam ser localizadas e consultadas, o trabalho passou a ser feito também em outros lugares, principalmente em Colônia e Freiburg.
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Nos Estados Unidos, os manuscritos e outros materiais podem ser consultados na cidade de Nova York, na New School for Social Research, bem como na Duquesne University, em Pittsburgh.
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Van Breda morreu em 1974; foi sucedido como diretor dos arquivos em Lovaina por Samuel IJsseling; hoje os arquivos em Lovaina estão sob a direção de Samuel IJsseling e Rudolf Bernet, os arquivos em Colônia são dirigidos por Elisabeth Ströker, e os de Freiburg por Werner Marx.
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Hoje mais de vinte e cinco volumes foram publicados na série Husserliana com o propósito de fornecer um todo sistematicamente ordenado da obra filosófica completa que Husserl deixou ao morrer.
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Um suplemento a essas publicações existe desde 1950; chama-se Phaenomenologica e consiste em estudos filosóficos e históricos de estudiosos que pensam em linhas fenomenológicas; no espaço de cerca de quarenta anos, mais de cem volumes foram publicados nessa série.
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Em conexão com o movimento Husserl e estimulados pelos diretores ativos dos Arquivos Husserl em Lovaina, Van Breda e IJsseling, congressos internacionais sobre a fenomenologia de Husserl foram realizados em Bruxelas, Krefeld, Royaumont e Schwäbisch Hall; as atas desses congressos foram publicadas a cada vez em forma de livro.
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Nesse trabalho, assim como no trabalho para as duas séries de livros mencionadas, Jacques Taminiaux esteve profundamente envolvido junto com os diretores dos arquivos e outros membros da equipe.
Periodizações do Desenvolvimento de Husserl
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As Investigações Lógicas e Ideias marcam a passagem do primeiro e do segundo períodos para a fase final; os dois primeiros períodos, do ponto de vista da fenomenologia transcendental tardia, devem ser vistos como estágios no caminho para uma filosofia acessível apenas pela redução transcendental.
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Consequentemente, é também possível falar de dois grandes períodos no desenvolvimento de Husserl: filosofia pré-transcendental e filosofia transcendental.
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Essa classificação é útil por dirigir a atenção, em cada período sucessivo, à tendência para um nível de análise mais profundo e mais geral.
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Herbert Spiegelberg, porém, parece distinguir as fases de modo mais abrangente e mais apropriado; também divide o desenvolvimento filosófico de Husserl em três períodos.
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O primeiro é o período pré-fenomenológico, cobrindo a maior parte dos anos em Halle e correspondendo ao pensamento expresso no primeiro volume das Investigações Lógicas (1894-1900).
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O segundo é o estágio da fenomenologia como empreendimento epistemológico limitado, correspondendo aos primeiros anos de Husserl em Göttingen (1901-1906) e incluindo o segundo volume das Investigações Lógicas.
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O terceiro é o período da fenomenologia pura como fundamento universal da filosofia e da ciência, que começou em 1906 e levou a um novo transcendentalismo e a um idealismo fenomenológico característico, cuja radicalização crescente fornece o tema do período de Freiburg (1916-1938).
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Spiegelberg sustenta que esse esquema de desenvolvimento é análogo a uma espiral: o período pré-fenomenológico começa com a tentativa de interpretar a matemática por meio de uma psicologia que parte do sujeito.
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Quando isso pareceu um fracasso parcial, Husserl foi levado à formulação de uma lógica pura “objetivista” desprovida de psicologismo.
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Em seguida, os estágios iniciais da fenomenologia começaram a mostrar ênfase igual nos aspectos subjetivo e objetivo da experiência em sua correlação necessária.
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No desenvolvimento posterior da fenomenologia, mais uma vez o subjetivo foi enfatizado como a fonte de todas as objetividades, mas agora concebido num nível transcendental mais alto, além da psicologia descritiva.
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Propõe-se que o curso desse desenvolvimento curvilíneo poderia explicar a atração e repulsão alternadas que a filosofia de Husserl exerceu sobre as mentes daqueles cujo desenvolvimento poderia ser caracterizado como mais retilíneo.
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Embora concorde com esses autores que é necessário distinguir três grandes períodos no desenvolvimento de Husserl, vê-se o segundo período, entre 1900 e 1916, mais como um período de transição, no qual Husserl gradualmente passou de um tipo puro e descritivo de fenomenologia para uma fenomenologia plenamente transcendental.
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Não se deve esquecer que, em seus últimos anos, Husserl continuamente fez alterações em suas publicações anteriores, notadamente no primeiro volume de Ideias.
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O primeiro volume de Ideias, como agora o temos, certamente pertence ao período final de Husserl; contudo, na forma em que foi publicado em 1913, ainda parece pertencer ao período de transição.
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A questão não é de grande importância para o presente estudo, pois se tratará apenas das visões finais de Husserl, aquelas apresentadas no período de Freiburg.
I. Esboço da Fenomenologia de Husserl
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Nesta seção, descreve-se o que Husserl mesmo entendia por fenomenologia, tomada tanto como método quanto como conjunto de disciplinas filosóficas a serem desenvolvidas com a ajuda desse método.
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Parece que tal sumário de algumas das questões que, na visão do próprio Husserl, constituem o cerne de sua filosofia como um todo será muito útil para compreender o conteúdo do artigo da Encyclopaedia Britannica que será discutido no restante do livro.
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No que concerne à fenomenologia como método, dá-se atenção especial às seguintes questões: (1) Que objetivo se deve alcançar na filosofia aplicando o método fenomenológico? (2) Qual é a diferença entre as atitudes natural e filosófica? (3) Que concepção de evidência é típica da abordagem fenomenológica? (4) Por que a redução é componente essencial do método fenomenológico? (5) O que Husserl entende por intencionalidade e análise intencional? (6) Por que uma redução eidética é necessária além das reduções fenomenológica e transcendental? (7) Como a fenomenologia define síntese e constituição?
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Mais importante ainda, além de dar uma breve descrição do método fenomenológico, tenta-se também justificar por que a fenomenologia procede desse modo e o que espera alcançar fazendo-o.
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No esforço de explicar tudo isso, segue-se Husserl o mais próximo possível, fazendo uso das seguintes publicações e ensaios “menores”: A Ideia da Fenomenologia (1907), “Filosofia como Ciência Rigorosa” (1911), Ideias, vol. 3 (1912), as “Lições de Amsterdã” (1928), as Lições de Paris (1929) e a “Lição de Viena” (1935).
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Ao esboço geral que pode ser desenvolvido empregando essas fontes, algumas ideias serão acrescentadas do primeiro volume de Ideias (1913), das Meditações Cartesianas (1913) e de Crise (1935).
Origem e Desenvolvimento do Método Fenomenológico de Husserl
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O método fenomenológico que Husserl gradualmente descobriu entre 1894 e 1900, em sua pesquisa sobre os fundamentos da matemática e da lógica, foi originalmente descrito como psicologia pura e descritiva.
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Por isso Husserl entendia, na época, uma teoria descritiva do conhecimento que acreditava poder evitar os erros e fraquezas do psicologismo, dominante na segunda metade do século XIX.
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Na época, Husserl usava o termo “psicologismo” em sentido bastante restrito, para a tentativa de certos filósofos de derivar as leis básicas da lógica de leis psicológicas; mais tarde usaria o termo em sentido mais amplo.
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Husserl estava convencido de que sua nova psicologia descritiva seria capaz de resolver os problemas epistemológicos ligados aos fundamentos da matemática e da lógica.
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Mas já em 1903 Husserl percebeu erros em sua primeira caracterização da fenomenologia; gradualmente tornou-se claro para ele que uma nova fenomenologia de tipo a priori deveria ser desenvolvida ao lado da psicologia descritiva usada no segundo volume das Investigações Lógicas (1901).
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O primeiro desenvolvimento sistemático dessa nova ideia de fenomenologia foi apresentado numa série de lições dadas na Universidade de Göttingen em 1907.
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Após discutir as ideias básicas desse novo tipo de fenomenologia com seus alunos por vários anos e aplicar o método a vários tópicos pertinentes, como consciência interna do tempo, coisa, espaço, natureza material, natureza animal e mundo espiritual, Husserl finalmente deu, pela primeira vez, uma exposição clara, sistemática e adequada da nova fenomenologia no primeiro volume de Ideias, em 1913.
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Como não estava plenamente satisfeito com essa apresentação das ideias básicas de sua filosofia, continuou a aperfeiçoá-la em cada publicação que se seguiu a Ideias.
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Nas obras posteriores, Husserl apresentou sua fenomenologia transcendental como o método necessário a ser usado em toda investigação autenticamente filosófica concernente ao significado e ao ser (Sein).
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Em sua visão, uma aplicação sistemática desse método levaria necessariamente à fenomenologia transcendental como a teoria filosófica da constituição universal de todo significado e ser pelo ego transcendental.
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Nas seções seguintes, apenas a visão “final” de Husserl será explicada em maior detalhe.
O Objetivo da Fenomenologia
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Husserl nem sempre descreveu do mesmo modo o objetivo que a fenomenologia deve alcançar; no início, o método fenomenológico deveria contribuir para os fundamentos das ciências formais.
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Numa segunda fase, Husserl descreveu o objetivo da fenomenologia como concernente a toda ciência e toda forma de conhecimento.
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Em 1907 Husserl definiu a fenomenologia como a parte crítica da filosofia que deve fornecer à metafísica seus fundamentos próprios.
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Em sentido limitado, a fenomenologia é ali caracterizada como crítica do conhecimento (Erkenntniskritik) que focaliza tanto os vários tipos de conhecimento quanto seus objetos.
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Em sentido mais amplo, o termo refere-se a uma ciência desenvolvida com o método fenomenológico.
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Em sentido ainda mais amplo, a fenomenologia refere-se a várias disciplinas eidéticas que de algum modo constituem uma unidade por seu fundamento na fenomenologia.
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Como a fenomenologia deve contribuir para os fundamentos do conhecimento científico, ela mesma não pode pertencer ao domínio da atitude natural; a fenomenologia é uma nova ciência com um novo domínio de objetos, um novo ponto de partida e um novo método.
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Perto do fim da vida, Husserl começou a acrescentar a isso a tarefa fundacional da filosofia fenomenológica em relação a todas as formas de vida humana.
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Nas obras que ele mesmo publicou em vida, essa nova concepção do objetivo da filosofia encontra-se tanto nas Meditações Cartesianas quanto em Crise.
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Então fica claro que a fenomenologia não é apenas uma crítica da razão pura, mas igualmente uma crítica da razão prática e valorativa ou avaliadora.
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Em Crise, Husserl formulou o objetivo da fenomenologia nos seguintes termos: o objetivo da filosofia é preparar a humanidade para uma forma de vida genuinamente filosófica, na e através da qual cada ser humano dá a si mesmo uma regra pela razão (Crisis, 15 [13]).
A Filosofia como Ciência Rigorosa
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O programa que inspirou todas as investigações filosóficas de Husserl, da Philosophie der Arithmetik (1891) a Crise (1936), é a questão dos fundamentos.
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Husserl começou questionando os fundamentos da matemática, dos quais foi levado aos fundamentos da lógica, da epistemologia, da metafísica e, finalmente, da filosofia da história.
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Durante muitas mudanças em seu pensamento ao longo desses quarenta e cinco anos, Husserl sempre sustentou que a filosofia deve dar o fundamento “absoluto” a todas as outras ciências.
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Obviamente, a filosofia nunca poderá alcançar esse objetivo a menos que ela mesma seja absolutamente radical e tão rigorosa quanto possível.
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Por um lado, Husserl objeta vigorosamente a qualquer forma de naturalismo e cientificismo, afirmando repetidamente que há uma diferença essencial entre filosofia e ciência.
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Por outro lado, argumenta repetidas vezes que uma filosofia que não seja uma ciência rigorosa nunca poderá cumprir sua tarefa vital.
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Explicando sua visão em “Philosophie als strenge Wissenschaft” (1911), Husserl enfatiza que, em sua opinião, a filosofia, desde seu início na Grécia, sempre aspirou a ser um conhecimento abrangente e intelectualmente completamente justificado de tudo o que é (“Phil. Rig. Sc.”, 71 [289]).
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Como ele vê, a filosofia não pode ser questão de sentimento ou de construir sistemas mais ou menos fantasiosos ou subjetivos.
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Deve tentar chegar “às coisas mesmas” (Ideas, 1:35 [35]) e tentar manter-se afastada de todas as construções flutuantes, descobertas acidentais, preconcepções não examinadas e preconceitos arbitrários.
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Nesse sentido, a filosofia deve ser tão rigorosa quanto possível.
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Embora cada período cultural e cada “sistema” filosófico tenha tentado realizar a seu modo esse objetivo essencial, Husserl está convencido de que nenhuma dessas tentativas jamais teve completo sucesso.
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Para ele, a razão mais importante do fracasso das tentativas da filosofia moderna de alcançar esse objetivo pode ser encontrada em seu cientificismo, seja na forma de naturalismo, como em Descartes (1596-1650) e Kant (1724-1804); na forma de psicologia, como em Hume (1711-1776) e Mill (1806-1873); ou na forma de historicismo, como em Dilthey (1833-1911).
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Finalmente, Husserl estava convencido de que seu novo método de fenomenologia, junto com o conjunto de disciplinas filosóficas que podem ser desenvolvidas empregando-o, seria capaz de realizar o objetivo essencial da filosofia sem perigo de cair novamente nas armadilhas do cientificismo moderno.
Duas Atitudes Fundamentais: a Natural e a Filosófica
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Quando Husserl tenta clarificar o que entende por “fenomenologia transcendental”, frequentemente toma como ponto de partida o que considerava uma diferença de longo alcance entre as “ciências naturais”, que se originam na “atitude natural”, e as ciências filosóficas, que partem da “atitude filosófica”.
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Na atitude natural, nossa percepção e pensamento estão inteiramente voltados para coisas, que nos são dadas como inquestionavelmente e obviamente existentes e, dependendo de nosso ponto de vista, aparecem ora deste ora daquele modo.
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Entre todos os atos que podemos realizar e que se concernem às coisas no mundo, a percepção é o mais original.
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O que a percepção nos oferece expressamos em juízos, primeiro em juízos singulares e depois em juízos universais; desses juízos procedemos por indução e dedução a novo conhecimento.
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Assim, o conhecimento natural progride; constantemente mais abrangente, apreende uma realidade que a princípio é tomada como existente por si mesma e cujo conteúdo, elementos, relações e leis devem ser investigados cada vez mais.
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Desse modo surgiram as várias ciências da atitude natural; devido ao sucesso que alcançaram ao longo dos séculos, os que assumem a atitude natural não sentem necessidade de fazer qualquer pergunta sobre seu significado próprio.
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Além disso, na atitude natural assume-se tacitamente que estamos num mundo pelo qual nossa mente pode vagar à vontade e no qual podemos considerar qualquer parte que queiramos, sem mudar a natureza objetiva do que consideramos.
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Segundo essa visão, o polo objetivo de nosso conhecer é um mundo objetivamente existente, plenamente explicável, que pode ser expresso em leis exatas e objetivas.
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Esse mundo “objetivo” existe inteiramente em si e possui uma racionalidade que pode ser plenamente compreendida.
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O sujeito, por outro lado, é pura consciência; é plenamente transparente a si mesmo e enfrenta aquele mundo racional, que pode conhecer objetivamente como é em si.
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Essa ideia de um único mundo objetivo, absoluto, autônomo e real implica também que cada uma das diferentes ciências deve ocupar-se de uma parte da realidade.
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De outro modo não seria possível explicar as diferenças entre essas ciências, pois, nessa visão, não há razão alguma para defender uma diferença de método.
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Assim, é razoável que todas as ciências juntas tenham de constituir uma única síntese objetiva; uma diferença essencial entre filosofia e as outras ciências não é possível nesse modo de ver as coisas.
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Husserl protesta contra tais visões: a filosofia, diz ele, está numa dimensão inteiramente diferente.
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Ela precisa de um ponto de partida inteiramente novo e de um método inteiramente novo, que em princípio é diferente dos de qualquer “ciência natural”.
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Uma filosofia não pode começar ingenuamente de modo direto, como fazem as ciências positivas, que se baseiam no fundamento pressuposto de nossa experiência do mundo como algo pré-dado como obviamente existente.
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Seu objetivo como filosofia implica uma forma de radicalismo de fundamentação, uma redução a alguma forma de ausência absoluta de pressupostos, um método fundamental pelo qual o filósofo no início assegura para si um fundamento absoluto.
O Princípio de Todos os Princípios
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Husserl busca o fundamento último de todas as nossas asserções racionais numa visão imediata ou numa intuição originária das coisas mesmas sobre as quais deseja fazer uma afirmação.
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Sua máxima, “de volta às coisas mesmas”, significa que devemos retornar aos dados imediatamente dados e originários de nossa consciência.
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O que se manifesta ali em presença corporal é apoditicamente evidente e não precisa de fundamentação ou justificação ulterior (Ideas, 1:35-37 [34-37]).
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Consequentemente, Husserl vê a raiz última ou o ponto de partida radical e absoluto da filosofia não em qualquer conceito básico, princípio ou cogito singular, mas no campo inteiro das experiências originárias (Cart. Med., 31 [69-70]).
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Sua filosofia é uma fenomenologia precisamente porque tem como ponto de partida um campo de fenômenos primordiais.
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Dentro desse reino de fenômenos originários, Husserl não permite nem indução nem dedução, mas apenas intuição com base em análise precisa e descrição exata (“Phil. Rig. Sc.”, 147 [341]).
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Nenhum dos métodos usados pelas outras ciências pode ter qualquer valor aqui.
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Enquanto elas têm de pressupor algo além do efetivamente dado, no campo dos fenômenos primordiais característico da fenomenologia, pressuposições são simplesmente inconcebíveis.
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No campo dos fenômenos originários, o princípio fundamental é que toda intuição primordial e doadora é fonte legítima de conhecimento, que tudo o que se nos apresenta primordialmente em “intuição” — em sua realidade corporal, por assim dizer — deve ser tomado simplesmente como aquilo que se apresenta, mas apenas dentro dos limites em que se apresenta (Ideas, 1:44 [43-44]).
Reduções
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Intuição implica que tanto sujeito quanto objeto estão presentes um ao outro no mesmo nível.
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Portanto, a intuição das “primeiras origens e começos” exige que se tente primeiro chegar ao “campo de trabalho mais básico” (“Phil. Rig. Sc.”, 146 [341]) no qual esses fundamentos estão imediatamente presentes ao nosso ego cognoscente.
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Husserl acredita que sua teoria das reduções pode levar-nos a esse campo primordial (Ideas, 1:57-62 [53-57]).
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Em geral, Husserl entende por redução o passo metódico pelo qual se retorna à origem de nosso conhecimento, da qual nosso pensamento cotidiano superficial perdeu de vista.
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Por esse procedimento, coloca-se na esfera de “começos absolutos e claros” (“Phil. Rig. Sc.”, 146 [340]), na qual se podem perceber as coisas mesmas como são em si e independentemente de qualquer preconceito.
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Em outras palavras, redução significa uma mudança de atitude pela qual se aprende a ver as coisas de modo mais original e radical, a penetrar nas coisas e ver ali as camadas mais profundas de significado por trás daquelas que primeiro apareceram (Ideas, 1:65-66 [59]).
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Esse procedimento exige que os filósofos se libertem das soluções filosóficas que, ao longo da história da filosofia, foram propostas para as várias questões filosóficas.
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Devem tomar os fenômenos originais exatamente como se apresentam, sem qualquer mistura de hipóteses ou interpretação e sem neles ler nada sugerido por teorias transmitidas dos antigos aos modernos.
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Só posições assumidas desse modo podem ser verdadeiros “começos” (Ideas, 1:33-36 [33-37]).
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Uma segunda redução que deve ser mencionada é a redução eidética; essa redução nos leva do reino dos fatos ao de suas “essências”.
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A redução eidética, portanto, é o procedimento pelo qual elevamos nosso conhecimento do nível dos fatos à esfera das “ideias”.
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Aqui “essências” ou “ideias” não significam as “generalidades empíricas” que nos fornecem tipos encontrados na experiência, mas “generalidades puras” que colocam diante de nossas mentes possibilidades puras cuja validade é completamente independente de experiências factuais (Ideas, 1:8-11 [10-12]).
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Para entender a necessidade de tal procedimento, devemos perceber novamente que, na visão de Husserl, a filosofia deve ser uma ciência absolutamente radical.
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Só pode sê-lo se for uma ciência eidética com acesso imediato ao reino da essência.
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A filosofia não está primariamente interessada em coisas reais concretas, porque como reais são meros fatos contingentes.
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A atenção da filosofia deve dirigir-se primariamente às estruturas invariáveis das coisas como visadas e intencionadas.
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Na redução eidética, procede-se do seguinte modo: como regra, começa-se com uma coisa individual arbitrariamente percebida ou imaginada.
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Com o auxílio da memória, modificações na percepção e especialmente atos de fantasia, investiga-se cuidadosamente que mudanças podem ser feitas no exemplo sem fazê-lo deixar de ser a coisa que é.
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Fazendo as mudanças mais arbitrárias que desconsideram completamente a realidade como ela é e que, portanto, são melhor feitas em nossa fantasia, torna-se manifesto o complexo imutável e necessário de características sem as quais a coisa não pode ser concebida.
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Todas as variações têm semelhanças concretas com o mesmo protótipo, e a multiplicidade de novas instâncias produzidas na fantasia é permeada por um conteúdo invariante e idêntico.
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Em termos desse conteúdo, todas as variações arbitrariamente realizadas chegam à congruência, enquanto suas diferenças individuais permanecem irrelevantes.
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Esse elemento invariante prescreve um limite a todas as variações possíveis do mesmo protótipo, pois sem esse elemento um objeto desse tipo não pode nem ser pensado nem intuitivamente imaginado.
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A intuição do eidos mesmo está fundada sobre a multiplicidade das variantes produzidas no processo de variação arbitrária.
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A intuição, porém, consiste numa apreensão ativa daquilo que foi passivamente pré-constituído na fantasia.
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Em outras palavras, no processo de variação livre, o “invariante” surge automática e passivamente porque os objetos dos diferentes atos se sobrepõem.
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Esse conteúdo pré-constituído e ainda imperfeito, idêntico, deve ainda ser apreendido num ato intuitivo ativo, e é através dessa apreensão ativa que o eidos absolutamente imutável e único que governa todos os indivíduos dessa espécie está diante de nossa mente (Exp. J., 340-48 [410-20]).
As Reduções Fenomenológica e Transcendental
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Vimos que, para Husserl, todo trabalho em fenomenologia será em vão se não se puder começar com “primeiros começos” absolutamente inquestionáveis.
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Isso significa que na fenomenologia nada pode ser aceito como cientificamente relevante se não puder ser plenamente justificado pelo princípio da evidência.
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É óbvio que um método puramente descritivo junto com a redução eidética é incapaz de nos levar imediatamente ao fundamento absoluto de todo nosso conhecimento.
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A primeira pergunta que devemos tentar responder é onde se podem encontrar evidências que sejam tanto primordiais quanto apodíticas, isto é, evidências que, como “primeiros começos”, precedem todas as outras evidências e são absolutamente inquestionáveis.
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Já vimos que, para Husserl, a evidência experiencial concernente à existência do mundo não é nem primordial nem apodítica (Cart. Med., 14-18 [55-58]).
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Entre 1905 e 1916, Husserl parece ter usado as expressões “transcendental” e “fenomenológica” indistintamente quando falava de redução.
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O que antes de 1916 era chamado de redução fenomenológica ou transcendental tinha realmente uma dupla tarefa: primeiro, produzir o colocar entre parênteses do mundo natural e assim a transição do que-é para seu significado; segundo, produzir a transição do que-é-dado para sua condição e pressuposição última, isto é, para o sujeito transcendental como fonte de todo significado.
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Quando Husserl começou a se ocupar extensivamente da psicologia fenomenológica, tornou-se claro que se deve fazer uma distinção entre a redução fenomenológica característica da psicologia fenomenológica e a redução transcendental típica da fenomenologia transcendental.
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A redução fenomenológica empregada na psicologia fenomenológica produz a epoché universal do mundo e assim nos leva do mundo de coisas reais, como as tomamos em nossa atitude natural, a um mundo de fenômenos puros e intencionais.
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A redução transcendental usada na filosofia fenomenológica consiste no colocar entre parênteses de tudo o que a psicologia fenomenológica pode trazer à luz, incluindo o ego psicológico, e assim leva dos fenômenos no sentido fenomenológico do termo aos fenômenos transcendentais.
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Brevemente formulado, a redução transcendental leva de tudo o que é dado e pode ser dado à sua condição e pressuposição última, o sujeito transcendental.
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Por meio dessa redução, reduzo meu ego humano natural e minha vida psíquica natural, que ainda não fora afetada pela redução fenomenológica, ao meu ego transcendental-fenomenológico e ao reino da autoexperiência transcendental-fenomenológica.
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O mundo objetivo com todos os seus objetos, que é o único mundo que jamais pode existir para mim, deriva todo o significado e status existencial que tem para mim de mim como este ego transcendental.
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Esse ego vem à tona apenas na e através da redução transcendental (Par. Lect., 6-12 [6-13]).
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Uma vez que Husserl chegou a plena clareza sobre esse assunto, tentou afiar a terminologia usada nas obras anteriores, particularmente em Ideias.
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Frequentemente fez as correções necessárias nos exemplares de suas obras anteriores que ele mesmo usava; algumas dessas correções foram depois incorporadas em novas edições das obras anteriores, mas isso nem sempre foi feito de modo consistente.
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Não precisamos nos preocupar com os detalhes da situação confusa assim criada, pois no artigo para a Encyclopaedia Britannica Husserl tratará explicitamente da distinção entre as duas reduções mencionadas, de modo que toda confusão será eventualmente eliminada.
Intencionalidade e Constituição
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Vimos que a redução transcendental nos leva das coisas no mundo ao ego transcendental, que epistemologicamente precede toda realidade objetiva.
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Embora, em certo sentido, esse ego seja até a fonte da qual todo conhecimento objetivo se origina, ele não é um fundamento epistemológico de nosso conhecimento objetivo no sentido ordinário do termo.
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Não faz sentido usar o “eu penso” (cogito) meramente como premissa apoditicamente evidente para argumentos dedutivos; ao contrário, a redução fenomenológica abre um reino infinito de ser de um novo tipo, a esfera da “experiência transcendental”.
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Onde há um novo tipo de experiência, deve surgir uma nova ciência, neste caso, a fenomenologia transcendental (Par. Lect., 11 [11-12]).
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O fenomenólogo deve primeiro descrever fielmente o campo infinito da experiência transcendental do ego.
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Ao fazê-lo, é da maior importância perceber que a redução transcendental de modo algum muda o fato de que experiências são experiências de algo, que toda consciência é e permanece consciência de algo.
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Em outras palavras, a expressão transcendental “eu penso” (ego cogito) deve ser ampliada acrescentando-lhe mais um membro: “eu penso o que é pensado” (ego cogito cogitatum), isto é, todas as awareness conscientes são awareness intencionais (Par. Lect., 11-13 [12-14]).
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“Intencionalidade” significa que toda consciência é consciência de algo.
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Para Husserl, isso significa não só que toda consciência tem um objeto ou um conteúdo.
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O termo também expressa, por um lado, que a noção de “realidade em si” se torna incompreensível e, por outro, que a concepção cartesiana de uma consciência hermeticamente fechada em si mesma é igualmente excluída, pois tal consciência não experienciaria o mundo mesmo e assim teria primeiro de certificar-se de que apesar disso está em contato genuíno com a “realidade original”.
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Portanto, a tarefa da filosofia não pode mais consistir em instalar-se entre o sujeito e o objeto numa atitude “crítica” para tentar descobrir se e em que sentido o sujeito alcança o mundo como é em si mesmo.
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Todos esses problemas são excluídos pelo conceito de intencionalidade como concebido pela fenomenologia.
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Tudo o que se manifesta na experiência transcendental deve ser descrito exatamente como se manifesta segundo o princípio da evidência pura.
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Se seguirmos fielmente esse princípio metódico e lembrarmos que todo “eu penso” (cogito) é um “eu penso o que é pensado” (cogito cogitatum), ficará claro que cada descrição deve incluir tanto o objeto intencional como tal (descrição noemática) quanto os modos do cogito mesmo relacionados a esse objeto (descrição noética).
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Embora esses aspectos possam ser claramente distinguidos, é obviamente impossível separá-los em qualquer descrição fiel aos fenômenos (Ideas, 1:199-216 [167-83]).
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Além disso, o fenomenólogo deve perceber que a intencionalidade da consciência tem dois outros aspectos essenciais, um estático e outro dinâmico, que exigem duas formas diferentes mas relacionadas de descrição.
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A descrição estática da intencionalidade deve tentar determinar tudo o que se encontra em toda experiência vivida de modo concreto, isto é, seus componentes reais, distintos do correlato intencional a que apontam.
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A descrição dinâmica tenta descrever a intencionalidade em sua gênese e evolução.
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É esta última que é fenomenologicamente mais importante, e seus maiores problemas são os envolvidos na constituição dos objetos da consciência; isso precisa de mais explicação (Cart. Med., 77-81 [111-14]).
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Vimos que a fenomenologia quer fundar todo conhecimento em evidência apodítica imediatamente enraizada na intuição; a redução transcendental desvela um campo de experiências transcendentais dadas com esse tipo de evidência.
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O que esse reino é concretamente torna-se mais manifesto assim que se percebe que todo ato de pensar (cogito) implica necessariamente aquilo que é pensado (cogitatum).
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Se, porém, a consciência é essencialmente consciência de algo, então a evidência apodítica se estende não só ao ato de pensar (cogito), mas também àquilo que é pensado (cogitatum), desde que se mantenha a redução e se considere o que é pensado exclusivamente enquanto imediatamente dado nesse ato de pensar.
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À primeira consideração, pode parecer que as coisas intencionadas são imediatamente encontradas na evidência de todo ato de pensar, de modo que tudo o que temos a fazer é simplesmente intuí-las e apreendê-las.
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Em investigação mais atenta, porém, torna-se óbvio que, na esfera transcendental, os diferentes objetos não são encontrados nos pensamentos como fósforos numa caixa, mas são constituídos em diferentes tipos de sínteses.
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Uma das principais tarefas da fenomenologia consiste precisamente em analisar e descrever essas diferentes formas de sínteses de um ponto de vista noemático e também noético (Cart. Med., 39-46 [77-83]).
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Um cubo, por exemplo, é dado continuamente na percepção como uma unidade objetiva (este cubo) numa multiplicidade de modos de aparecer (noemata), que são os correlatos de uma multiplicidade de atos individuais de percepção (noeses) realizados de diferentes perspectivas.
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Como podemos explicar e descrever que experienciamos uma multiplicidade de aspectos, dada numa multiplicidade de atos individualmente diferentes, como uma e a mesma percepção de um único cubo?
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Uma vez iniciada a tarefa fenomenológica de descrever concretamente a consciência, um horizonte infinito de fatos se desvela, todos os quais podem ser caracterizados como estruturas sintéticas que dão unidade noético-noemática aos pensamentos individuais e a seus conteúdos (cogitata).
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Só a elucidação da operação peculiar na qual a síntese é produzida, o ato de constituição, pode tornar frutífero o desvelamento do cogito como consciência-de.
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Essa elucidação ocorre nas chamadas análises intencionais ou constitutivas (Cart. Med., 46-53 [83-89]).
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Como tudo isso é de grande importância para uma correta compreensão do método da fenomenologia, é necessário deter-se nisso um pouco mais.
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Mas, por clareza, não se falará mais de atos de consciência de modo geral e abstrato, focalizando-se antes o mais original desses atos, o ato de percepção.
Análise Intencional de um Ato de Percepção
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Quando se analisa um ato particular de percepção, torna-se imediatamente evidente que cada ato de percepção apreende o objeto percebido apenas sob certo respeito.
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Expresso de modo correlativo, poder-se-ia dizer que qualquer coisa perceptível é sempre percebida de um ponto de vista bem definido.
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Estando diante de uma casa, percebo efetivamente apenas a fachada; os lados e a parte traseira ainda me estão ocultos.
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Posso, é claro, mudar meu ponto de vista e colocar-me em posição diferente em relação à casa; se o faço, ainda percebo a mesma casa, mas agora apenas sob um respeito diferente.
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Não importa como me coloque, sempre percebo esta casa sob um respeito determinado.
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O percebido dá-se na e através do ato de percepção apenas por meio de perfis (Abschattungen) que estão correlacionados a uma atitude e ponto de vista determinados do percebedor (Ideas, 1:86-89 [73-76]).
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Suponhamos agora que percebo esta casa particular da rua em frente, de modo que efetivamente só posso ver sua fachada.
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Se, subsequentemente, quero aprender mais sobre a aparência exterior desta casa, a única possibilidade é recorrer a sempre novas “percepções parciais”, cada uma das quais manifestará separadamente certo aspecto desta casa.
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O que é típico aqui é o fato de que em qualquer desses casos sempre experienciaremos a multiplicidade de perfis como perfis desta casa particular; e, de modo correlativo, experienciamos a multiplicidade de percepções parciais como percepções de uma única coisa.
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Assim, a coisa percebida claramente não se esgota em nenhum de seus perfis individuais; antes, aquilo que é intencionado em cada um dos atos concretos — sem, no entanto, ser efetiva e como tal percebido em qualquer ato particular — permanece o mesmo em todos os casos.
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Neste ato particular de percepção ou noese, esta casa efetivamente se manifesta sempre neste perfil particular quando este ponto de vista particular é assumido; mas, não obstante, cada ato concreto intenciona mais que este perfil particular e visa a casa como um todo.
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Esse significado total intencionado, que claramente é constituído como o significado perceptivo em todo ato particular de percepção desta casa, tomado precisamente enquanto se manifesta neste ato, é chamado noema.
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Esse noema explica por que todo ato individual de percepção se refere a outras percepções possíveis desta mesma casa.
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Essas percepções estão destinadas a complementar e fortalecer a primeira percepção; e em virtude delas, esta primeira percepção é capaz de aparecer como uma fase de um possível processo total (Cart. Med., 39-41 [77-79]).
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Quando diferentes atos de percepção se concernem à mesma casa, experienciamos todos esses atos como referindo-se a uma e a mesma coisa, e portanto esses atos distintos estão em harmonia e concordância, embora aquilo que é efetivamente percebido como tal difira em todos esses casos.
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Apesar do fato, porém, de que os perfis dos atos separados são diferentes, é claro que esses atos não podem estar em concordância se os perfis em questão não harmonizarem de um modo ou de outro.
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Consequentemente, a fusão dos diferentes atos individuais de percepção concernentes a uma e a mesma coisa num processo total de percepção pressupõe, por necessidade, que os perfis correspondentes se encaixem num todo conectado.
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Como os perfis correspondentes se organizam num único todo conectado, os atos de percepção podem aparecer como fases de um processo total (Ideas, 1:86-89 [73-76], 236-43 [201-8]).
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Assim, a unificação dos atos individuais não depende das relações temporais existentes entre eles.
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Nem parece necessário que os atos se sucedam sem interrupção.
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Em outras palavras, a unificação em questão não se refere aos atos mesmos como eventos psíquicos ocorrendo num tempo fenomênico, mas apenas a seus correlatos intencionais, isto é, os noemata correspondentes a eles.
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Consequentemente, porque as diferentes apresentações perceptivas parciais de uma e a mesma coisa material constituem um único sistema noemático, podemos explicar que a unilateralidade de cada ato individual é ao mesmo tempo tanto experienciada quanto superada.
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A unilateralidade de cada ato particular de percepção de uma e a mesma coisa é superada no processo total de percepção apenas se os diferentes perfis contidos no sistema noemático se atualizarem sucessivamente na e através dos atos correspondentes de tal modo que a coisa apareça numa multiplicidade de aspectos diferentes mas harmoniosos e explícitos.
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Pois assim cada ato perceptivo particular no qual a coisa se manifesta apenas num aspecto particular implica referências a outros atos parciais nos quais a coisa se manifesta em aspectos constantemente diferentes mas harmoniosos.
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Vistos noematicamente, essas referências são traços essenciais do noema perceptivo em questão; e considerados noeticamente, aparecem como a antecipação de novos atos destinados a complementar esta percepção atual particular.
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Assim, não é a sucessão temporal dos atos que supera a unilateralidade de cada ato particular, mas o fato de que eles se confirmam, se complementam e se aperfeiçoam mutuamente.
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Consequentemente, o processo de percepção, visto noematicamente, é um processo de cumprimento (Erfüllung) (Ideas, 1:326-29 [282-85]).
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Acima dissemos que no noema perceptivo, isto é, na coisa como se manifesta a nós na e através de um dado ato de percepção, deve-se fazer uma distinção entre aquilo que efetivamente se manifesta agora e é dado como tal, por um lado, e, por outro, o “resto”.
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Quando percebemos uma casa, efetivamente vemos apenas um lado dela.
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No entanto, nossa percepção atual tem um conteúdo maior que o efetivamente visto, pois aspectos que não são efetivamente percebidos sempre desempenham um papel no noema.
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Sem tais fatores, veríamos meramente uma superfície não muito nítida tendo certa cor, mas não a fachada de uma casa.
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Em outras palavras, o que é efetivamente percebido sempre aparece à luz de dados que não são efetivamente percebidos.
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O complexo dos aspectos efetiva e não efetivamente percebidos constitui o significado perceptivo em questão.
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Para expressar a matéria de outro modo, todo noema perceptivo contém um núcleo rigidamente definido que é imediatamente dado na experiência e que, além disso, se refere a aspectos não imediatamente dados.
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Husserl chama o conjunto dos fatores não imediatamente dados de “horizonte interno” do noema perceptivo.
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Pode-se acrescentar que o núcleo noemático se refere às estruturas do horizonte interno, em maior ou menor medida, proporcionalmente à familiaridade que já temos com o objeto percebido.
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Por essa razão, o horizonte interno pode ser desdobrado com base no que é aqui e agora efetivamente percebido, desde que essa explicitação adira rigidamente aos limites estabelecidos por aquilo que é efetivamente percebido (Exp. J., 31-39 [26-36]).
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Finalmente, deve-se ter em mente que tudo o que aparece a um ser humano em seus vários atos de percepção sempre se manifesta dentro de certo contexto.
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Toda coisa percebida ou noema, diz Husserl, tem não só um horizonte interno mas também um horizonte externo, pois todo objeto perceptível nos aparece como certa figura contra certo fundo.
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A casa, que experiencio como unidade através de uma série quase infinita de perfis, aparece realmente como casa apenas contra o horizonte da rua, do parque, da praça ou do jardim em que se encontra.
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Uma casa que não se encontrasse em arredores dos quais é parte nunca poderia ser uma casa real e nunca poderia ser percebida como casa.
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Quando dirijo minha atenção a esta casa particular nesta rua, esta casa se destaca do fundo de significado, mas esse horizonte permanece constitutivo da coisa real percebida.
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Se dirijo meu olhar a outra casa ou ao carro diante dela, a primeira casa entra novamente no horizonte e cede sua posição privilegiada ao outro objeto de percepção (Ideas, 1:51-55 [48-51]).
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Após essas breves explicações, não deve ser mais difícil entender a importância das análises intencionais.
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A função e importância originais desse método residem em desvelar os aspectos implícitos contidos nos estados atuais de nossa consciência.
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Em geral, é o método de trazer à frente e explicitar os elementos constituintes implicitamente contidos em certos significados atualmente dados.
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Sua aplicação à percepção baseia-se numa análise acurada daquilo que é aqui e agora dado imediatamente, mas apenas implicitamente, na percepção concreta.
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Se, então, queremos desvelar o significado de uma percepção, devemos tentar explicitar o horizonte interno junto com o horizonte externo.
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Esse processo tem tanto um aspecto noético quanto um noemático.
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Considerado noeticamente, esse método exige que os horizontes interno e externo sejam descritos como uma decifração das antecipações de possíveis novas percepções ainda potenciais.
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Esta percepção particular, portanto, deve ser considerada em relação ao sistema inteiro de atos que de um modo ou de outro estão conectados com esta percepção concreta e poderiam atualizar seu conteúdo virtual.
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Considerado noematicamente, a análise intencional procura tornar explícitos na consciência todos os significados que estavam apenas implicitamente indicados no dado efetivamente dado.
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Ao cumprir essa função, leva em conta todas as influências essenciais exercidas pelos horizontes interno e externo (Cart. Med., 46-49 [83-87]).
Análise Intencional de Outras Formas de Síntese
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O que acabou de ser indicado por um exemplo concreto é apenas uma forma de síntese.
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Muitas outras poderiam ser distinguidas, analisadas e descritas aqui.
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A primeira seria a forma relativamente simples mas básica da temporalidade fenomenológica, seguida por uma síntese de toda a vida consciente numa cogitação abrangente (cogito) que sinteticamente compreenderia todos os processos conscientes particulares e intencionaria o mundo como o horizonte de todo objeto de pensamento particular (cogitatum) (Cart. Med., 39-43 [77-81]).
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Devemos perceber ainda que a multiplicidade da intencionalidade pertencente a todo ato de pensamento (cogito) que se relaciona ao mundo não se esgota com uma consideração desse cogito como experiência vivida atual.
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Ao contrário, toda atualidade envolve suas potencialidades como possibilidades atualizáveis pelo ego.
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Em outras palavras, toda experiência vivida tem seu horizonte interno ou intencional de referências a potencialidades de consciência possuídas por essa experiência mesma (Cart. Med., 44-46 [81-83]).
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Tudo o que na reflexão precedente sobre a percepção foi dito sobre horizontes internos e externos, o processo de cumprimento, expectativa, potencialidades e graus gradualmente crescentes de evidência é, portanto, também aplicável a qualquer outro ato intencional, ainda que em muitos casos esses atos mostrem características não encontradas num ato de percepção.
Idealismo Transcendental
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Como reduzimos os problemas da fenomenologia à constituição de objetos na consciência, a fenomenologia parece ser propriamente caracterizada como uma teoria transcendental do conhecimento.
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Essa teoria transcendental do conhecimento deve ser contrastada com a epistemologia tradicional (Cart. Med., …
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…comunidade, que por sua vez é o fundamento transcendental para o valor intersubjetivo da natureza e do mundo em geral (Par. Lect., 35 [35]).
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