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estudos:kockelmans:1985b:2.4

2.4 Verdade e arte

KOCKELMANS, Joseph J. Heidegger on art and art works. Dordrecht ; Boston : Hingham, MA, USA: M. Nijhoff Publishers ; Distributors for the U.S. and Canada, Kluwer Academic Publishers, 1985.

Artigo I. Produção artística. A obra como aquilo que foi produzido

§ 27. A produção artística e a clareira da abertura na obra

a) Rumo à essência da produção artística

  • A verdade acontece na obra como combate entre mundo e terra, mas a obra em que esse combate se sustenta é também algo produzido; compreender seu ser-obra exige, portanto, esclarecer como o ter-sido-produzida pertence à sua autonomia e ao seu repouso em si.
  • A produção artística e a fabricação de utensílios requerem habilidades de ofício, mas sua proximidade prática não determina a essência da arte: o saber implicado na palavra grega technē consiste em trazer algo do encobrimento ao desvelamento, deixando-o aparecer em sua presença.
  • O fazer artístico recebe sua orientação do ser-obra da obra, e não da atividade do artista tomada isoladamente; nele, o trazer-à-presença possibilita que o ser do ente se manifeste na obra de maneira própria.

b) A instauração da clareira da abertura da verdade na obra

  • A verdade acontece no conflito entre clareira e encobrimento e precisa firmar-se em um ente concreto para que a abertura conquistada possa perdurar; na produção artística, a obra é o ente em que essa abertura se instaura.
  • Clareira e instauração pertencem a um mesmo acontecimento, pois a verdade não existe previamente como algo pronto que depois seria depositado na obra: ela abre o âmbito em que os entes podem aparecer e, ao mesmo tempo, firma-se nesse âmbito.
  • A obra constitui uma das maneiras históricas essenciais de instauração da verdade; o acontecimento também pode assumir outras formas, como uma decisão fundadora, um sacrifício essencial ou o questionamento pensante do ser.
  • A ciência desenvolve e confirma possibilidades de conhecimento em um domínio de verdade já aberto, enquanto a produção artística participa da abertura originária de um domínio em que os entes passam a manifestar-se de outro modo.

§ 28. O acontecer da verdade fixa-se como configuração. O ter-sido-produzida

a) O acontecer do desvelamento fixa-se como configuração

  • Na produção artística, a verdade vem à presença em um ente singular e faz aparecer na própria obra o conflito entre a abertura de um mundo e o retraimento da terra; o combate não é eliminado, mas ganha nela uma permanência determinada.
  • O traço de cisão (Riss) articula a oposição entre mundo e terra sem separá-los: ele delineia a medida e o limite em que ambos pertencem um ao outro, permitindo que o conflito se reúna no contorno da obra.
  • Ao acolher esse traço na pedra, na madeira, na cor ou em outro elemento da terra, a obra lhe confere uma configuração (Gestalt) duradoura; a terra permanece resguardada e aparece em seu próprio caráter, em vez de ser consumida como material de fabricação.
  • A configuração não equivale à imposição de uma forma sobre uma matéria, pois nela se reúne o movimento pelo qual a obra instaura um mundo e faz aparecer a terra; fixar a verdade significa dar consistência ao acontecimento de seu desvelamento.

b) O ter-sido-produzida é um aspecto integrante da obra de arte

  • No utensílio, a produção tende a desaparecer quando ele se encontra pronto para o uso; na obra, o ter-sido-produzida permanece manifesto como parte de seu ser, sem depender do reconhecimento público da habilidade ou da identidade do artista.
  • A obra faz sobressair o acontecimento singular de que ela é e de que, nela, o desvelamento se deu pela primeira vez dessa maneira; tal irrupção sustenta sua autonomia e a distingue dos objetos fabricados para uma finalidade.
  • O ter-sido-produzida reúne, assim, dois aspectos inseparáveis: o combate entre mundo e terra adquire permanência na configuração (Gestalt), e o próprio acontecimento dessa produção se anuncia na presença singular da obra.

Artigo II. A obra de arte deve ser preservada na verdade

§ 29. As obras de arte devem ser preservadas

a) A preservação como permanência no acontecer da verdade

  • A obra pode deslocar as relações habituais com mundo e terra ao abrir um âmbito de verdade que exige permanência e atenção; preservá-la (Bewahrung) significa deixá-la ser obra nessa abertura, acolhendo o acontecimento que nela se sustenta.
  • O ter-sido-produzida da obra requer preservadores, mesmo quando ela ainda não os encontra ou atravessa um período de esquecimento; sua possibilidade de ser encontrada como obra permanece ligada à entrada humana na verdade que ela abre.
  • Preservar implica um saber unido ao querer: uma permanência resoluta no desvelamento, pela qual o ser-aí (Dasein) abandona a familiaridade das ocupações cotidianas e se expõe àquilo que a obra faz aparecer.

b) Preservação e experiência das obras de arte

  • A experiência privada de quem cria ou contempla uma obra não esgota sua preservação, pois esta não consiste em receber uma impressão subjetiva, mas em participar da abertura histórica de verdade que a obra mantém.
  • O saber e o querer próprios da preservação acolhem a autonomia da obra e permitem uma relação compartilhada com aquilo que nela acontece; o modo dessa participação é determinado pela própria obra e pode variar em alcance, constância e clareza.
  • A conservação material, a restauração e a exposição podem cuidar do objeto, mas só há preservação da obra em sentido próprio quando seu poder de abrir o extraordinário não é dissolvido na familiaridade ou reduzido à apreciação estética.

§ 30. Mais uma vez, o caráter de coisa da obra

a) Do caráter de coisa ao caráter terrestre da obra

  • Aquilo que a experiência cotidiana reconhece como o caráter de coisa da obra revela-se, a partir do ser-obra, como seu caráter terrestre: a terra se eleva na obra e oferece à verdade, em seu próprio retraimento, o lugar onde ela pode firmar-se.
  • O percurso anterior pela coisa e pelo utensílio permite reconhecer os limites dos conceitos tradicionais e inverter a direção da investigação; a dimensão material da obra deve ser compreendida pelo acontecimento que nela se dá, e não tomada como fundamento prévio de seu ser.

b) Por que a coisa pertence à terra?

  • A coisa não se esclarece suficientemente como suporte de propriedades, reunião de sensações ou matéria formada; seu caráter próprio exige compreender seu pertencimento à terra, que aparece em sua relação conflituosa com o mundo.
  • Como o combate entre mundo e terra ganha configuração (Gestalt) na obra, o ser-obra oferece também um caminho para compreender o caráter de coisa da coisa, assim como tornou possível esclarecer o ser-utensílio do utensílio.
  • A possibilidade de configuração presente na natureza só se manifesta como arte na obra, onde o traço de cisão (Riss), a medida e o limite são trazidos à abertura pelo fazer artístico.
  • A obra requer tanto quem a produz quanto quem a preserva, e é nela que ambos encontram seus modos próprios de participação; permanece, por isso, a questão da arte como origem comum da obra, do artista e do preservador.
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