User Tools

Site Tools


estudos:kockelmans:1985b:2.3

2.3 Obra de arte e verdade

KOCKELMANS, Joseph J. Heidegger on art and art works. Dordrecht ; Boston : Hingham, MA, USA: M. Nijhoff Publishers ; Distributors for the U.S. and Canada, Kluwer Academic Publishers, 1985.

Artigo I. Algumas características essenciais das obras de arte

§ 22. Como desenvolver as características essenciais das obras de arte?

a) A obra de arte mantém-se por si mesma (Eigenständigkeit)

  • O ser-obra da obra só pode ser investigado a partir de sua subsistência em si (Insichstehen), pois a busca imediata por um suporte material já pressupõe uma interpretação da obra como coisa e impede que se manifeste seu modo próprio de ser.
  • Na grande arte, a obra adquire uma autonomia diante de seu produtor; sua presença como objeto conservado, estudado ou exibido, porém, não equivale à subsistência que possuía no mundo histórico ao qual pertencia.
  • A retirada ou a ruína desse mundo não se desfaz pela preservação da obra nem por sua permanência no local de origem: aquilo que sobrevive pode ser encontrado como obra de um passado, sem conservar a abertura histórica em que antes vigorava.
  • A obra mantém relações essenciais, mas pertence primordialmente ao âmbito que ela própria abre; por isso, a compreensão de sua autonomia exige acompanhar o acontecimento da verdade nessa abertura.

b) O acontecer da verdade dos entes em um templo grego

  • O templo grego permite compreender o acontecer da verdade sem reduzi-lo à representação fiel de um objeto, pois nada retrata: ao abrigar a presença do deus, reúne caminhos e relações em que nascimento, morte, vitória, perda e destino adquirem sentido para um povo histórico.
  • Erguido sobre o terreno rochoso, o templo abre um mundo e faz aparecer a terra que o sustenta; nessa relação, a violência da tempestade, a luminosidade do dia, a escuridão da noite e os seres ao redor vêm à presença de maneira determinada.
  • A terra não designa simplesmente matéria ou planeta, mas aquilo que abriga o que emerge e oferece o chão da morada humana; o templo, ao repousar nela, deixa que ela apareça sem esgotar o que nela permanece resguardado.
  • A obra confere às coisas uma fisionomia e aos seres humanos uma perspectiva sobre si mesmos enquanto seu mundo permanece aberto; também a estátua do deus e a tragédia grega participam dessa abertura, na qual se decidem distinções fundamentais da existência coletiva.

§ 23. A instauração e a abertura de um mundo

  • Instaurar uma obra (Aufstellen) significa mais do que colocá-la em exposição: no templo ou na apresentação ritual de uma tragédia, sua ereção abre um âmbito de presença, dedicação e louvor no qual um mundo pode perdurar.
  • O mundo aberto pela obra não é a soma dos objetos existentes nem uma moldura imaginária acrescentada a eles; é o âmbito de sentido no qual os entes podem aparecer como aquilo que são e no qual um povo histórico encontra as direções de suas decisões.
  • Enquanto ser-no-mundo, o ser-aí (Dasein) já se relaciona com essa abertura, que não se oferece como um objeto diante dele; ao instaurar um mundo, a obra mantém aberto o espaço em que tais relações se tornam possíveis.
  • A compreensão de mundo como totalidade histórica de sentido aprofunda a análise das remissões práticas de Ser e tempo: o mundo governa o modo de manifestação dos entes sem se confundir com qualquer ente particular.

§ 24. A segunda característica do ser-obra da obra — a unidade das duas características essenciais

a) O fazer aparecer da terra

  • Ao instaurar um mundo, a obra também faz aparecer a terra (Herstellen): diferentemente do utensílio, em cujo uso o material tende a desaparecer, nela a pedra manifesta seu peso, o metal seu brilho, a cor sua luminosidade, o som sua ressonância e a palavra sua força de nomeação.
  • A terra emerge como aquilo que simultaneamente se resguarda e se fecha (sich verschließt); suas determinações mensuráveis não esgotam o peso da pedra nem o aparecer da cor, pois o que se manifesta na obra conserva uma dimensão que resiste à plena explicitação.
  • A obra se recolhe na terra para deixá-la vir à presença em sua própria reserva: a pedra da escultura, a cor da pintura e a palavra poética permanecem atuantes na obra, sem serem consumidas como materiais subordinados a uma finalidade de uso.
  • Nessa relação, mundo é a abertura histórica de sentido e terra é aquilo que nela emerge sem se deixar revelar por inteiro; ambos substituem, na compreensão do ser-obra, a interpretação da obra como simples composição de matéria e forma.

b) A intimidade do combate entre mundo e terra

  • A instauração de mundo e o fazer aparecer da terra pertencem à unidade da obra como movimentos inseparáveis: o mundo se funda na terra e procura abrir caminhos de manifestação, enquanto a terra se eleva nesse mundo preservando seu caráter de retraimento.
  • O combate entre mundo e terra não é destruição recíproca; cada um conduz o outro a afirmar seu modo próprio de ser, pois a terra precisa da abertura para aparecer como aquilo que se resguarda, e o mundo precisa da terra para possuir fundamento.
  • A obra sustenta esse combate sem encerrá-lo, e seu repouso em si consiste precisamente na concentração dessa tensão permanente, pela qual abertura e resguardo permanecem unidos sem perder sua diferença.

Artigo II. O acontecer da verdade na obra de arte

§ 25. A concepção heideggeriana da essência da verdade

  • A concordância entre enunciado e ente pressupõe que o ente já possa mostrar-se em um âmbito aberto; por isso, a correção do juízo depende de uma abertura anterior à formulação de qualquer proposição.
  • A liberdade que funda essa abertura não se reduz à escolha entre possibilidades: ela é o deixar-ser dos entes, pelo qual o ser-aí se expõe ao que se manifesta e pode tomar o próprio ente como medida do que afirma.
  • Todo desvelamento determinado envolve também encobrimento, pois a atenção dirigida a certos entes deixa em reserva os entes em sua totalidade; a verdade está, assim, ligada à finitude histórica do ser-aí e ao mistério do que permanece oculto.
  • Quando o ser-aí se prende aos entes disponíveis e esquece esse mistério, instala-se a errância; reconhecer tal condição permite recolocar a questão pelo ser dos entes, sem abolir o encobrimento que acompanha todo acontecer da verdade.

§ 26. Verdade como correspondência e verdade como desvelamento. Verdade e obra

a) A verdade como desvelamento

  • A verdade como correção de uma proposição depende do desvelamento dos entes: antes que algo possa ser julgado conforme ao real, precisa aparecer em uma clareira (Lichtung) na qual tanto o ente quanto aquele que julga tenham acesso um ao outro.
  • A clareira não é um cenário fixo inteiramente iluminado, pois o encobrimento lhe pertence desde o início: os entes podem recusar-se a aparecer ou mostrar-se sob uma aparência que encobre outros entes e o próprio encobrimento.
  • A verdade inclui, portanto, a tensão originária entre clareira e ocultamento; o desvelamento nunca elimina integralmente a reserva daquilo que vem à presença.

b) O conflito entre verdade e não verdade e o combate entre mundo e terra. O belo e o verdadeiro

  • O conflito originário entre desvelamento e encobrimento não se identifica diretamente com o combate entre mundo e terra: o mundo não é apenas o aberto, nem a terra apenas o fechado, pois ambos pertencem à abertura conquistada no acontecer da verdade.
  • A obra é uma das maneiras essenciais pelas quais esse acontecer se realiza; ao instaurar um mundo e fazer aparecer a terra, ela sustenta o combate em que os entes se manifestam em seu ser, como ocorre com o templo grego e com os sapatos na pintura de Van Gogh.
  • O belo artístico é o brilho da verdade na obra: aquilo que nela resplandece não resulta da reprodução correta de um objeto isolado, mas do modo como o ser dos entes entra na clareira.

c) Da obra e da verdade à verdade e à arte

  • A dimensão de coisa da obra retorna como questão a partir de seu ter-sido-produzida: é preciso esclarecer como a produção artística pertence ao acontecer da verdade e em que se distingue da fabricação de utensílios.
  • A relação entre verdade e criação (Schaffen) exige compreender por que a verdade pode instaurar-se em uma obra e como esse acontecimento determina o próprio ser-obra; dessa investigação depende uma determinação mais precisa da essência da arte.
estudos/kockelmans/1985b/2.3.txt · Last modified: by 127.0.0.1