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estudos:kockelmans:1984:2

2 Pensar ser

KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

O pensamento do ser

  • Pensar o ser exige esclarecer o que é a filosofia, de que maneira o pensamento responde aos grandes pensadores do passado e por que a relação entre ser, ser humano e verdade não pode ser compreendida fora de sua historicidade.

Artigo I: O que é filosofia?

  • A pergunta pela filosofia interroga também o modo como ela vem à presença em cada época, pois nenhuma definição pode substituir a resposta histórica àquilo que solicita o pensamento; o diálogo com a tradição procura liberar o que nela permaneceu impensado.

I. A conferência

1. Introdução

  • A pergunta pelo significado da filosofia só ingressa em seu próprio assunto quando afeta o modo de ser de quem pergunta, sem pressupor uma separação definitiva entre razão e disposição afetiva ou restringir o filosofar a uma atividade profissional.

2. A importância do mundo grego e da língua grega

  • A origem grega da filosofia e da pergunta «o que é?» vincula o pensamento ocidental a uma herança que atravessa o cristianismo, a ciência e a técnica; receber essa herança significa entrar em diálogo com o que foi transmitido e manter aberta sua possibilidade futura.
  • Perguntar pelo que a filosofia é implica já possuir alguma compreensão dela, de modo que o círculo hermenêutico não impede a investigação, mas constitui a situação histórica a partir da qual ela pode começar.
  • A proximidade entre palavra e coisa atribuída à experiência grega da linguagem aponta para a necessidade de interrogar o logos ao pensar a origem da filosofia, sem converter a singularidade dessa experiência em uma resposta previamente demonstrada.

3. Filosofia

  • Na interpretação de Heráclito, a disposição daquele que ama o sábio corresponde à reunião dos entes no ser pelo logos; com Platão e Aristóteles, essa correspondência transforma-se em busca pelo que o ente é enquanto ente e pelo sentido de sua entidade.
  • A filosofia assume historicamente o caminho da metafísica ao procurar a entidade dos entes e seus princípios, mas essa determinação resulta de uma possibilidade do pensamento grego e não encerra todas as maneiras pelas quais o ser pode solicitar uma resposta.

4. A pergunta pela filosofia é verdadeiramente uma pergunta histórica

  • Nenhuma definição passada da filosofia possui validade definitiva, pois cada uma responde de maneira própria a uma solicitação histórica do ser; uma resposta presente deve filosofar efetivamente, conversando com os pensadores anteriores sobre a questão que também a move.
  • A correspondência (Entsprechen) ao ser dos entes requer uma apropriação transformadora da tradição: a retomada destrutiva (Destruktion) desfaz interpretações endurecidas para liberar possibilidades que ainda falam ao pensamento.

5. Filosofia e disposição (Stimmung)

  • A resposta filosófica exige uma disposição afinada ao apelo do ser dos entes; o espanto que orientava o pensamento grego e a busca cartesiana pela certeza mostram que diferentes épocas pensam a partir de tonalidades distintas.
  • A disposição não é um sentimento acrescentado ao raciocínio, pois orienta desde o início o modo como os entes se tornam dignos de pergunta; a tonalidade do pensamento contemporâneo permanece, contudo, sem determinação inequívoca.

6. Filosofia e linguagem. Conclusão

  • Filosofar é responder ao apelo do ser por meio de uma palavra que pertence à linguagem, cuja essência precisa ser pensada para além de sua função instrumental de expressão e comunicação.
  • O diálogo com a experiência grega do logos aproxima a questão da filosofia da relação entre pensar e poetizar, sem apagar a diferença entre ambos; o pensamento conserva, assim, um caráter preparatório diante daquilo que ainda pode solicitá-lo.

II. Questões e problemas a serem discutidos mais adiante

  • A interpretação da origem grega da filosofia, do privilégio da língua grega, do círculo hermenêutico e da história das diferentes respostas ao ser mantém abertas questões acerca do alcance dessas afirmações e de sua pertinência para o pensamento presente.
  • A possibilidade de uma retomada destrutiva da tradição depende de esclarecer como o ser se dirige diferentemente aos pensadores em cada época e como uma resposta atual pode acolher o passado sem pretender encerrar definitivamente a questão da filosofia.

Artigo II: A relação entre ser e ser humano — o significado do pensamento

  • A passagem de Ser e tempo aos escritos posteriores desloca a ênfase da abertura do ser-aí (Dasein) para a iniciativa do próprio ser: o aí (Da) em que os entes se manifestam é lançado pelo ser, e a essência humana pertence a esse chamado.
  • O pensamento recebe do ser a relação que lhe cabe guardar e a traz à linguagem; por isso, pensar é uma ação em sentido próprio, cuja força não se mede pelos efeitos produzidos nem pela exatidão técnica de um método.
  • A linguagem é a casa do ser, na qual o ser humano habita, e pensadores e poetas a guardam ao dar palavra à manifestação do ser; a redução da linguagem à comunicação pública tende a encobrir essa dimensão.
  • A existência (Ek-sistenz) humana consiste em permanecer exposta à clareira da verdade do ser, assumindo o cuidado desse âmbito sem determinar por si mesma quando e como os entes nele aparecerão; nesse sentido, o ser humano é pastor do ser.
  • A verdade do ser permanece distinta tanto de Deus quanto da totalidade dos entes, e seu dar-se histórico não se deixa exprimir adequadamente pela afirmação de que o ser seja um ente; a lembrança dos diferentes envios (Schickungen) do ser pertence, portanto, à própria tarefa de pensar.

Artigo III: Retomada destrutiva e rememoração

  • O ser-aí é histórico porque já se compreende a partir de uma tradição que antecede suas decisões; investigar o sentido do ser requer, assim, enfrentar as interpretações herdadas que simultaneamente tornam possível e podem encobrir a pergunta.
  • A retomada destrutiva (Destruktion) procura desfazer os encobrimentos sedimentados na tradição e recuperar as experiências originárias de que nasceram suas determinações do ser, mantendo abertas as possibilidades de seus problemas fundamentais.
  • O diálogo filosófico com os predecessores exige rigor histórico e filológico, mas também interroga aquilo que permaneceu não dito em suas formulações; essa interpretação transforma o problema recebido sem substituir a leitura responsável do que foi efetivamente escrito.
  • A rememoração (Andenken) acolhe o que foi pensado como algo que ainda pode vir ao encontro do presente, pois nenhum pensador esgota em suas palavras as possibilidades abertas pela verdade que lhe coube pensar.
  • A destruição dirige-se sobretudo às formas atuais de tratar a história da filosofia como simples coleção de opiniões ou sucessão necessária de sistemas; sua tarefa positiva consiste em liberar, no legado recebido, o que ainda solicita o pensamento do ser.
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