estudos:kockelmans:1984:1
1 Essência da verdade
KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.
Introdução: sobre a essência da verdade
Artigo I: A questão da verdade em Ser e tempo
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A questão do ser e a questão da verdade (aletheia) pertencem uma à outra desde o início do percurso heideggeriano: perguntar pelo ente enquanto verdadeiro exige esclarecer como aquilo que é pode mostrar-se e em que sentido seu mostrar-se torna possível a verdade.
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A definição tradicional da verdade como adequação entre intelecto e coisa situa a verdade no juízo, mas deixa sem esclarecimento o modo de ser da relação entre o ato de julgar, o conteúdo julgado e a própria coisa.
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A verificação de um enunciado acontece quando o ente ao qual ele se refere se mostra como foi indicado; confirma-se, assim, seu caráter descobridor, e a verdade do enunciado depende da descoberta do próprio ente, não da comparação entre representações interiores.
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O enunciado só pode descobrir porque o ser-aí (Dasein) já é ser-no-mundo e está aberto aos entes; nesse sentido ontológico, o ser-aí está na verdade, embora sua abertura não lhe conceda conhecimento completo nem o impeça de encobrir ou dissimular aquilo que encontra.
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Verdade e não verdade pertencem, portanto, à constituição do ser-aí: o mesmo existir que descobre os entes também pode deixá-los retornar ao encobrimento ou acolher sua mera aparência.
Artigo II: Sobre a essência da verdade
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A passagem da questão do ser-aí para a verdade do ser aprofunda a investigação das condições de possibilidade da verdade: a correção dos juízos permanece válida, mas requer uma abertura mais originária em que os entes possam manifestar-se.
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A investigação modifica também a compreensão de quem pergunta, pois a essência humana passa a ser pensada a partir de sua exposição à verdade e de sua relação histórica com o ser.
I. Da verdade como correspondência ao fundamento da correspondência
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A correspondência entre enunciado e coisa pressupõe que ambos já possam encontrar-se em um âmbito aberto; a proposição somente se orienta pelo ente quando este se apresenta como medida possível do que é afirmado.
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A abertura do comportamento precede a correção do enunciado: ao relacionar-se com um ente manifesto, o ser-aí pode deixá-lo determinar o que se diz dele, enquanto a conformidade do juízo permanece um modo derivado de verdade.
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O fundamento dessa abertura é a liberdade entendida como deixar-ser dos entes, pela qual o ser-aí se entrega ao que se manifesta e se expõe ao âmbito aberto, em vez de impor previamente à coisa uma medida subjetiva.
II. A liberdade
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A liberdade não se reduz à escolha arbitrária, à ausência de impedimentos ou à aceitação de uma necessidade; ela consiste originariamente na exposição ao desvelamento dos entes, condição para que qualquer comportamento possa dirigir-se a eles.
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A existência (Ek-sistenz) do ser-aí é esse estar-fora-de-si em direção ao aberto: sua relação com os entes concretos ultrapassa-os em direção ao mundo e ao ser, sem jamais dispensar o encontro com eles.
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O ser humano não possui a liberdade como uma propriedade disponível, pois sua possibilidade de existir historicamente se funda nessa abertura que o põe em relação com os entes enquanto entes e em sua totalidade.
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A verdade compreendida como desvelamento não pode esgotar-se na correção de enunciados; pela mesma razão, a não verdade exige uma compreensão mais originária do que a simples incorreção.
III. A não verdade
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Cada comportamento dirigido a entes particulares deixa em reserva os entes em sua totalidade, ainda que uma disposição afetiva (Befindlichkeit) mantenha o ser-aí afinado com esse todo; o desvelamento determinado traz, assim, um encobrimento inseparável de si.
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O mistério designa o encobrimento que também oculta seu próprio caráter de encobrimento; sua anterioridade em relação a cada descoberta exprime a finitude temporal e histórica do ser-aí.
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A absorção cotidiana nos entes disponíveis favorece o esquecimento do mistério, pois o ser-aí passa a buscar neles a medida de sua existência e permanece preso às possibilidades que pode usar, organizar ou controlar.
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A errância (Irre) é o desvio constitutivo pelo qual o ser humano transita entre os entes enquanto se afasta do mistério ao qual continua essencialmente referido; nela se enraíza a possibilidade dos erros particulares.
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Mistério e errância entrelaçam-se na não verdade que acompanha a verdade, de modo que o acontecer do desvelamento não se origina simplesmente na liberdade humana, mas remete ao ser que se resguarda no próprio mistério.
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Reconhecer a errância e recordar o mistério permite recolocar a questão dos entes em sua totalidade; essa abertura não suprime o encobrimento, mas torna possível pensá-lo como pertencente à verdade.
IV. Verdade e filosofia
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A investigação do fundamento da correção conduz à questão da verdade da essência, isto é, à questão do ser: aquilo que possibilita cada descoberta não é uma propriedade geral dos juízos, mas o acontecimento histórico e também retraído em que os entes se tornam manifestos.
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A correspondência, a coerência e a eficácia prática podem caracterizar modos de verdade, mas dependem de condições mais originárias de abertura; por isso, a pergunta filosófica permanece dirigida ao acontecer da verdade do ser.
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