2 Filosofia, ciência rigorosa
Joseph Kockelmans. A First Introduction to Husserl's Phenomenology (1967)
1. Rigor e radicalismo na filosofia
Gênese do artigo de Husserl
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A exigência de rigor filosófico não significa tomar as ciências empíricas como modelo: a filosofia investiga objetos ideais e essências, cuja compreensão requer o exame da consciência, sem reduzi-la a um fato psicológico.
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Após as Investigações lógicas, a aplicação do método fenomenológico a diferentes problemas levou Husserl a ultrapassar a caracterização da fenomenologia como psicologia descritiva e a investigar intuitivamente as estruturas essenciais dos atos e conteúdos da consciência.
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As análises da percepção, da imagem, da memória, da consciência do tempo e da constituição da coisa prepararam a formulação de uma nova crítica da razão, apresentada de modo mais explícito nas lições de 1907.
Alcance do artigo publicado na revista Logos
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O artigo introduz a fenomenologia por meio da crítica ao naturalismo e ao psicologismo, que não conseguem fundamentar as questões relativas ao conhecimento e ao ser.
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O historicismo incorre em relativismo quando pretende decidir a validade de um conhecimento com base nos êxitos ou fracassos históricos dos filósofos.
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Uma visão de mundo (Weltanschauung) pode orientar a vida individual, mas sua dependência de perspectivas historicamente mutáveis não satisfaz a tarefa indefinida de fundamentação própria da filosofia e das ciências.
A crise do pensamento científico
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O contraste entre os resultados das ciências exatas e a persistência das controvérsias filosóficas torna necessário esclarecer os fundamentos do conhecimento científico, tarefa que as próprias ciências não realizam por inteiro.
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O êxito prático das ciências convive com problemas relativos aos seus conceitos e pressupostos fundamentais; por isso, a filosofia deve encontrar seu próprio fundamento e contribuir para o esclarecimento dos diversos domínios científicos.
Radicalismo filosófico
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O radicalismo exige retornar aos fundamentos últimos do conhecimento: a investigação parte das próprias coisas e aprofunda a análise até a consciência à qual os fenômenos aparecem.
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Uma filosofia livre de pressupostos exige examinar aqueles que emprega e afastar os que não podem ser justificados; ela não pressupõe um começo sem linguagem ou lógica.
A recusa husserliana do cientificismo de Descartes
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A imagem cartesiana da filosofia como ciência universal reúne metafísica, física e demais ciências em uma estrutura fundada num mesmo ideal de conhecimento.
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A filosofia husserliana requer um ponto de partida e um método próprios: sua tarefa de fundamentação não pode assumir a forma de uma dedução matemática nem identificar seu modo de evidência ao das ciências exatas.
2. A filosofia como ciência rigorosa
A filosofia sempre reivindicou ser uma ciência rigorosa
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Desde suas origens, a filosofia reivindica um conhecimento rigoroso e absoluto, mas ainda não alcançou acordo suficiente sobre seus problemas, métodos e resultados para realizar essa pretensão.
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A possibilidade de aprender uma ciência por meio de conhecimentos objetivamente estabelecidos evidencia o que ainda falta à filosofia: um corpo de compreensões fundadas que possa ser transmitido e desenvolvido.
A imperfeição da filosofia
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A incompletude das ciências estabelecidas deixa aberto um campo de investigação sobre bases reconhecidas, enquanto as próprias bases e teses da filosofia permanecem em disputa.
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A renovação filosófica exige uma fundação capaz de sustentar o desenvolvimento conjunto do conhecimento, em lugar da sucessão de sistemas ligados apenas às convicções de seus criadores.
A filosofia nunca se tornou uma ciência rigorosa
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As grandes renovações filosóficas retomaram a pergunta pelos começos, pelos problemas e pelos métodos adequados, submetendo a crítica as pretensões de rigor das doutrinas anteriores.
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O naturalismo conserva a aspiração ao rigor científico, mas compromete essa aspiração ao estender indevidamente os procedimentos das ciências empíricas a toda questão filosófica; sua crítica deve esclarecer positivamente os fundamentos dessa dificuldade.
Filosofia naturalista
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O naturalismo interpreta tudo o que existe como natureza submetida a leis, reduzindo a consciência à ordem psicofísica e tratando ideias, valores e normas como fatos naturais.
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Ao converter as leis lógicas em leis empíricas do pensamento, ele retira validade da própria argumentação pela qual pretende justificar suas teses.
O ideal de ciência rigorosa em relação à filosofia
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A insuficiência do naturalismo não invalida o ideal de rigor: é preciso determinar, a partir do sentido dos problemas filosóficos, métodos capazes de tratá-los sem reduzir verdade, valor e razão a fatos empíricos.
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A crítica positiva do naturalismo esclarece seus pressupostos e permite distinguir a legitimidade das ciências naturais da naturalização indevida da consciência.
O caráter ingênuo de toda ciência natural
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As ciências naturais partem da existência do mundo como algo já dado; a psicologia empírica também situa a consciência nessa natureza, vinculando seus acontecimentos a organismos e a determinações temporais.
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Essa pressuposição é adequada à investigação de fatos naturais, mas impede que a ciência natural ou a psicologia empírica forneça, por si mesma, o fundamento filosófico do conhecimento.
A ciência natural não pode servir de base a uma teoria do conhecimento
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A teoria do conhecimento pergunta como experiências conscientes podem dar acesso a objetos e justificar afirmações objetivamente válidas; essa pergunta alcança o pressuposto da experiência sobre o qual a ciência empírica se apoia.
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Investigar tal fundamento requer suspender as posições de existência da natureza e do próprio investigador enquanto ser psicofísico, pois aceitá-las de antemão deixaria sem exame aquilo que precisa ser esclarecido.
Fenomenologia da consciência
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A fenomenologia examina o ser enquanto correlato dos diferentes modos de consciência, como perceber, recordar, esperar e imaginar, e esclarece como os objetos adquirem sentido e se mostram como existentes.
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Sua análise da consciência e dos modos de doação dos objetos constitui uma ciência distinta da psicologia empírica: esta investiga fatos psíquicos na natureza, enquanto aquela investiga as estruturas essenciais da consciência pura.
3. A crítica husserliana do naturalismo
A compreensão husserliana da experiência
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A coisa material aparece por uma multiplicidade ordenada de perspectivas, nas quais é percebida como um mesmo objeto; a variação das percepções pertence, assim, à maneira pela qual sua identidade se manifesta.
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A coisa percebida ultrapassa cada percepção particular, mas não se apresenta por intermédio de uma imagem ou de um signo colocado em seu lugar: é a própria coisa que se dá corporalmente, embora sempre de modo parcial.
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A manifestação por perspectivas pertence à essência da coisa espacial; sua doação completa permanece um horizonte ideal de novas experiências possíveis.
Ciências naturais
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As coisas percebidas integram um mundo comum, articulado espacial e temporalmente, do qual a física parte para formular determinações exatas e relações causais.
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A ciência natural desenvolve possibilidades inscritas na experiência sensível ao buscar uma objetividade mais precisa; a dificuldade surge quando essa operação é explicada como simples eliminação do sensível e do subjetivo.
Naturalismo
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O naturalismo identifica a objetividade física à objetividade em geral e esquece que o objeto investigado pela física já possui sentido na experiência anterior à ciência.
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Ao tomar o modo de ser das coisas físicas como modelo de todo ser, ele força também a consciência e as entidades ideais a caberem nas categorias da natureza psicofísica.
Naturalismo e materialismo
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A dificuldade fundamental do naturalismo não depende da defesa explícita do materialismo: ela reside em reconhecer como objetivo somente aquilo que possa ser concebido segundo o modelo da realidade material.
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A naturalização da consciência conduz à naturalização das essências e dos fenômenos subjetivos, aproximando naturalismo e psicologismo como formas de uma mesma restrição empirista.
Etapas do processo de naturalização
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A consciência passa a ser descrita pelas categorias de tempo, espaço e causalidade, e a relação entre fenômeno e coisa é interpretada como relação causal.
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Números, formas geométricas e valores perdem sua validade ideal quando são reduzidos a ocorrências naturais ou a conteúdos psicológicos.
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As leis lógicas, matemáticas e éticas passam a ser tratadas como fatos psicofísicos, enquanto a psicologia empírica é apresentada indevidamente como fundamento de toda a filosofia e das ciências humanas.
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A restrição do conhecimento à experiência física exclui a apreensão intuitiva das essências e impede o desenvolvimento de um método propriamente fenomenológico.
4. A questão do ponto de partida radical na filosofia tardia de Husserl
Considerações introdutórias
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O ideal de uma filosofia rigorosa permanece presente na obra tardia de Husserl, mas seu significado se transforma à medida que a historicidade do pensamento e os limites de um começo absolutamente isolado se tornam problemas centrais.
a. A rejeição husserliana do cartesianismo
A Primeira filosofia de Husserl
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As lições de Primeira filosofia procuram apresentar a fenomenologia transcendental como realização de uma ciência universal fundada em um ponto de partida absoluto.
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O exame histórico e sistemático desse projeto revelou dificuldades crescentes; a impossibilidade de concluí-lo nos termos inicialmente previstos abriu caminho às investigações desenvolvidas na Crise.
A impossibilidade do ideal cartesiano
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A pretensão de fundar todo conhecimento em evidências apodíticas enfrenta a dificuldade de conciliar necessidade e universalidade essenciais com a intuição, que se realiza em experiências concretas e contingentes.
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A redução transcendental permite investigar a subjetividade além de sua condição mundana, mas a análise mostra que toda experiência conserva uma relação com o mundo e suscita problemas de intersubjetividade e historicidade.
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As Meditações cartesianas e a Crise abordam esses problemas por caminhos distintos, sem eliminar inteiramente a tensão entre a exigência de fundamentação absoluta e a condição histórica da experiência.
b. O radicalismo como ideia condutora nas Meditações cartesianas e na Crise
A influência de Descartes segundo as Meditações cartesianas
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A dúvida metódica cartesiana procura alcançar a certeza do ego puro e reconstruir, a partir dele, o conhecimento do mundo e das ciências.
Renovação do radicalismo de Descartes
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A crise dos fundamentos científicos e a dispersão das filosofias exigem renovar o esforço de fundamentação radical que animava Descartes, sem assumir os resultados de suas meditações como solução definitiva.
Kant e a metafísica
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A ausência de acordo quanto ao caminho, ao método e aos resultados da metafísica mostra, para Kant, que ela ainda não encontrou a segurança própria de uma ciência.
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A mudança kantiana consiste em investigar a contribuição do conhecimento para a constituição dos objetos, em vez de pressupor simplesmente que o conhecimento deva ajustar-se a objetos já dados.
O erro fundamental de Descartes
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A investigação transcendental requer ultrapassar também Kant mediante a redução, capaz de tornar explícita a subjetividade constitutiva que permanece pressuposta em sua filosofia.
O radicalismo husserliano na Crise
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A Crise conserva a exigência de rigor e fundamentação, mas lhe confere uma perspectiva histórica na qual o mundo da vida ocupa lugar central.
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A realização da razão e da evidência apodítica assume o sentido de uma tarefa indefinida, ligada à vida histórica, e não o de um sistema definitivamente concluído.
c. Sobre o significado do “radicalismo” na filosofia
A filosofia como fundamentação radical e apodítica da ciência
As concepções de Descartes e Husserl sobre o radicalismo filosófico
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A dúvida metódica cartesiana suspende crenças para afastar a possibilidade do erro, enquanto a redução fenomenológica modifica a atitude perante o mundo para investigar a constituição de seu sentido.
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A reflexão cartesiana busca um ponto de certeza a partir do qual avançar; a reflexão husserliana aprofunda continuamente o exame da relação intencional entre consciência e mundo.
A raiz da diferença entre as concepções de Descartes e Husserl
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O ponto de partida radical da fenomenologia consiste em retomar o mundo como unidade de sentido constituída pela vida transcendental; por ser inesgotável essa tarefa, a radicalização filosófica permanece em curso.
