Tato
HENRY, Michel. Phénoménologie de la vie I. Paris: PUF, 2003.
1. O problema do tato remete ao dos outros sentidos numa dupla relação de semelhança e diferenciação, sendo cada sentido específico embora todos apareçam como funções de um mesmo corpo, de modo que o estatuto de cada sentido é tributário do estatuto desse corpo — o corpo próprio de cada indivíduo vivo —, cabendo assim interrogar filosoficamente o corpo antes de tudo, tarefa introdutória a que se propõe este texto.
2. Recorre-se primeiro a Descartes, a quem se atribui o dualismo entre alma e corpo que ainda comanda nossa maneira de pensar essa relação, tanto na filosofia quanto na psicologia, medicina, psicanálise e senso comum, dualismo que gera a dificuldade de compreender como uma coisa espiritual e inextensa pode agir sobre o corpo material ou vice-versa.
3. Descartes, contudo, enunciara sobre o corpo proposição surpreendente capaz de questionar esse dualismo: respondendo a Gassendi, que perguntava por que não se poderia dizer “eu passeio, logo existo” tal como “penso, logo existo”, Descartes admite tal formulação desde que se entenda por ela a experiência imediata do caminhar, reduzida à pura prova subjetiva do ato de andar, sendo assim um pensamento no sentido cartesiano amplo — tudo aquilo de que se tem consciência imediata em si mesmo — e, portanto, fundadora de minha existência tanto quanto o “penso”, elevando-se assim, numa intuição fulgurante, à ideia de um corpo subjetivo que rompe com a concepção tradicional do corpo como objeto.
4. Infelizmente Descartes não desenvolveu esse ponto de vista inteiramente novo, atendo-se antes à ideia do corpo como coisa extensa, mera extensão espacial, retomada da Antiguidade e reintroduzida por Galileu como fundamento de sua física, tornando-se fundamento da ciência moderna: sendo o corpo coisa extensa dotada de figuras, seu conhecimento deveria ser geométrico, e depois matemático com Descartes, fundando-se assim a abordagem físico-matemática da natureza.
5. Nosso corpo tal como o vivemos — que caminha, sente, deseja, trabalha na dor ou na alegria — nada tem a ver, porém, com o corpo da física nem com o organismo biológico de moléculas e neurônios; por isso a intuição decisiva entrevista por Descartes será retomada por Maine de Biran, que desenvolve nos primeiros anos do século XIX teoria elaborada do corpo subjetivo, ao meditar sobre o cogito cartesiano abandonado pelos grandes metafísicos pós-cartesianos: para Biran o cogito não é um “penso algo” mas um Eu Posso, força primordial, poder que se desdobra em cada ação, motriz ou sensorial, sendo a propósito do tato que essa força pode ser reconhecida em seu essencial.
6. Reporta-se à admirável crítica de Maine de Biran à teoria de Condillac sobre o conhecimento do corpo próprio: para o sensualista, nosso corpo se resolve em sensações subjetivas, mas é o tato — o deslocamento da mão sobre o corpo próprio, que o apreende como resistência — que nos leva a atravessar essa camada impressional até o ser real do corpo, fazendo surgir suas estruturas e formas.
7. Essa descrição implica dissociação entre dois corpos, um conhecido e um conhecente: o corpo conhecido é o ser real cujos contornos a mão vai traçando e reconhecendo em seus deslocamentos, o corpo tocado; o corpo conhecente é essa mesma mão enquanto desenha esse corpo em seus movimentos, o próprio tato promovido a poder fundamental de conhecimento, primeiro em relação a nosso corpo próprio e depois aos corpos exteriores.
8. Interrogando-se a relação entre corpo conhecente e corpo conhecido — relação interna ao próprio tato, entre o tato tocante e o objeto tocado, que é primeiro nosso próprio corpo — e perguntando-se qual dos dois é mais fundamental, somos reconduzidos evidentemente ao primeiro, ao tato tocante sem o qual nada tocado existiria para nós, subordinando-se assim o corpo-objeto ao corpo-sujeito que o funda constantemente.
9. A descoberta de um sujeito cuja essência é o próprio tato como tato tocante, e mais geralmente do corpo subjetivo e do poder que habita cada um de seus sentidos, é descoberta essencial, pois se trata de sujeito totalmente diferente daquele que a filosofia clássica colocava na origem de nossa experiência — a consciência entendida como entendimento, correlata a um mundo inteligível estruturado por regulações racionais, numa hierarquia entre inteligível e sensível que percorre o pensamento ocidental desde a Grécia.
10. A instalação de nosso corpo próprio, tornado verdadeiro sujeito, no princípio de nossa experiência do mundo, transforma também o próprio mundo, tributário em suas estruturas da natureza desse sujeito: torna-se o mundo do corpo, o mundo da vida — o “mundo da vida” de que fala Husserl —, mundo primeiramente sensível ao qual se referem necessariamente as regulações conceituais e idealidades científicas — sujeito encarnado relacionado a um mundo sensível, situação que a fenomenologia, especialmente a de Merleau-Ponty, oporá constantemente à descrição clássica de uma consciência intelectual dominando um mundo de objetos cientificamente conhecidos.
11. Essas análises, nas quais o mundo já não se dissocia de um sujeito carnal, deixam contudo aberta questão que só Maine de Biran teve o gênio de perceber: retomando sua crítica a Condillac e a problemática dos dois corpos unidos pelo tato, surge dificuldade imensa, pois já não se trata de compreender como o corpo-sujeito conhece pelo toque o corpo-objeto, mas de saber previamente como o tato tocante — o poder de deslocamento e preensão da mão — está originalmente em posse de si mesmo, de modo a poder deslocar-se, tomar e tocar; o problema decisivo é como esse corpo tocante se relaciona consigo mesmo e se experimenta como tocante, sendo o conhecimento dessa prova não mais um conhecimento mas um poder.
12. O mérito de Maine de Biran está em ter compreendido que o tipo de experiência pelo qual o tato se relaciona consigo mesmo como tato tocante nada tem a ver com aquele pelo qual o tato tocante se relaciona com o que toca.
13. O tato tocante relaciona-se com o que toca por intencionalidade, ultrapassando-se em direção ao que toca e atingindo-o como o que lhe resiste, situando-se essa resistência no exterior da força que se choca contra ela; ao contrário, na relação do tato tocante consigo mesmo, relação que lhe permite estar em posse de si e agir, não há relação intencional nem de exterioridade: o tato tocante se experimenta imediatamente, sendo essa relação a si um sofrer sem distância, afetividade pura análoga àquela pela qual todo sentimento — todo medo, toda angústia — se experimenta imediatamente por si só; assim, o corpo-sujeito relaciona-se intencionalmente, por visada exterior, com o que toca, mas em sua relação interna consigo mesmo não há mais intencionalidade nem visada exterior, apenas essa afecção comprimida contra si, imersa em si mesma, na qual o tato tocante se funde consigo mesmo — condição única para estar em posse de si, capaz de agir, mover-se e tocar.
14. A relação do tato tocante consigo mesmo esclarece o que é em geral a relação de nosso corpo não com tudo que conhece por sua motricidade ou seus sentidos, mas consigo mesmo — o que se chama corporeidade originária, designando a maneira como o corpo habita a si mesmo, coincidindo consigo e com cada um dos poderes que o compõem, de modo a poder exercê-los; o tato conhece tudo que toca tocando-o em ato que esbarra no que toca como algo exterior, forma de intencionalidade — mas o tato tocante não se toca a si mesmo, não sendo pelo tato que conhecemos o tato.
15. Como o conhecemos então? Nessa prova muda em que se experimenta imediatamente, prova cuja matéria é afetividade pura; o que se experimenta a si mesmo imediatamente, sem distância, num “sentir-se a si mesmo” cujo tecido é essa afetividade pura, essa carne afetiva, é a vida — não a vida de que falam os biólogos, mas a vida em sentido pleno cuja essência inteira é experimentar-se a si mesma, sendo essa vida que habita o tato tocante e faz dele um poder em nossa posse, exercido no sentimento do esforço de que fala Maine de Biran, modo de dado a si mesmo de nosso corpo, nossa corporeidade originária.
16. Não se deve interpretar esse tato tocante como ato singular ou série de atos particulares e sucessivos: cada ato de tocar ou tomar é apenas a atualização de uma força, de uma capacidade de preensão preexistente, sendo nosso problema justamente compreender como essa capacidade está em nossa posse, capacidade permanente, esse estar-em-posse-constante que reside em nossa corporeidade originária e a define, capacidade que domina o tempo — havendo uma presença primeira e contínua do corpo a si mesmo, presença originária pela qual meu corpo está sempre já ali como aquilo com que coincido, imersão de cada um em seu próprio corpo que se prende à imersão da vida em si mesma, vida que, para o vivente, nunca é passada, futura ou mesmo presente à maneira de um objeto, mas escapa a todo passado, futuro e presente objetivo por estar sempre ali, abraçando-se a si mesma em prova de sofrimento e alegria que nenhuma força poderia romper.
17. Porque o corpo subjetivo originário está constantemente presente a si mesmo nessa presença primeira da vida a si mesma, o mundo a que nos abre por cada um de seus poderes, notadamente pelo tato, é mundo que também ultrapassa a atualidade da percepção que dele tenho em tal ou qual momento, sendo-me dado potencialmente porque posso desdobrar os poderes que me dão acesso a ele, porque os caminhos que levam ao mundo estão pré-traçados em mim e posso percorrê-los quando quiser — tocar as coisas, posso a todo momento, sendo esse poder um só comigo, de modo que o conjunto das coisas do mundo me é acessível por princípio na medida em que porto em mim esse poder de a ele aceder e com ele coincido.
18. A reflexão sobre o tato conduz assim a um encadeamento de problemas do maior interesse e da maior dificuldade, tão logo se deixe de considerar ingenuamente o tato como comportamento objetivo situado entre os fenômenos do mundo: apreendido em sua subjetividade, como possibilidade interior que habita nosso corpo originário ele mesmo subjetivo, o tato remete a uma constelação de fenômenos fundamentais que nos concernem no mais profundo de nosso ser, tanto em nossa relação conosco mesmos quanto com o mundo ou com os outros — vasto campo de pesquisa que cabe a este colóquio elucidar.
