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Nietzsche
HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009
Vida e afetação segundo Nietzsche
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São os dois caracteres essenciais da vida, a imanência e a afetação, que o pensamento de Nietzsche, mesmo sem tematizá-los explicitamente, pensa até o fim, sendo o conceito nietzschiano de vida tomado de empréstimo a Schopenhauer, tendo primeiro apenas uma significação ôntica segundo a qual a vontade é a essência do que é e, nesse sentido metafísico, o próprio ser, estendendo-se seu reino a todo o mundo assim que se a concebe não como veleidade representativa mas como poder efetivo, energia volitiva presente em todo processo mecânico
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cita-se a passagem em que se pergunta se o mundo mecânico não pode ser compreendido como realidade da mesma ordem que nossas paixões, supondo-se que toda energia agente seja vontade de poder
A vontade nietzschiana difere da schopenhaueriana por ser qualificada de poder, significando esta causalidade verdadeira e eficaz, o exercício efetivo de uma força, de modo que a crítica nietzschiana da causalidade só atinge a representação racional desta, não a causalidade absoluta idêntica ao exercício real de uma forçaTambém em Schopenhauer a vontade já era a causalidade verdadeira, o único poder cuja irrupção compõe a única realidade, mostrando ele que nenhuma força é possível no mundo da representação nem por ela, sendo apenas na interioridade de uma força, em nós, que o ser da força pode ser apreendidoEntre a vontade schopenhaueriana e a vontade de poder instaura-se, porém, mais que uma simples distância, pois a primeira é afetada por uma falta enigmática, sendo desejo de um ser que não tem, enquanto a vontade de poder, como bem viu Heidegger, não é vontade de um poder do qual ela mesma seria desprovida, sendo antes o poder mesmo o ponto de partida, e a vontade apenas sua expansão e auto-movimentoÉ no plano da afetação e das tonalidades afetativas da vida que se mostra a diferença entre as vontades de Schopenhauer e Nietzsche, sendo já em La naissance de la tragédie reconhecível a especificidade afetativa da vontade nietzschiana identificada à vida: ao desejo sem fim de Schopenhauer, Nietzsche justapõe um prazer maior, o prazer eterno da existência que a arte dionisíaca nos revela-
ainda que o pessimismo schopenhaueriano se mantenha numa visão que encadeia declínio e morte a tudo o que nasce, a arte oferece uma consolação metafísica em que por breves instantes somos o próprio ser originário e sentimos seu prazer de existir
Mais explicitamente ainda, todo esse universo do devir e do aniquilamento aparece como consequência de uma embriaguez sem limites, a da surabundância da vida, sendo o aguilhão furioso dos tormentos sentido no mesmo instante em que, arrebatados no êxtase dionisíaco, pressentimos a indestrutível eternidade desse prazerQue a vida se revele não como vaidade de um desejo sem objeto mas, através dele, como prazer e embriaguez de um poder indestrutível, é a revelação mesma da tragédia, sendo por exprimir esse poder indestrutível que o coro satírico, esses seres da natureza inexpugnáveis atrás de toda civilização, irrompe na tragédiaA determinação positiva da vida por Nietzsche tem significação importante, pois a oposição entre o desconforto de uma existência que é falta e o prazer incomensurável e originário do existir não distingue duas concepções da vida entre as quais seria preciso escolher, sendo antes evidência decisiva comum a Schopenhauer e Nietzsche a impossibilidade eidética de a vida tomar posição a respeito de si mesma, separar-se de si para depois querer ou não ser si mesmaUma única vez Schopenhauer foi infiel a essa prescrição última, quando, dissociando vida e vontade e concebendo a primeira como objetivação da segunda, é obrigado a fazer do querer um simples querer-viver, aspiração a se dar fora de si o ser, o que Nietzsche reprova duramente em Zaratustra, afirmando que esse querer não existe, pois o que não é não pode querer-
cita-se a passagem segundo a qual só onde há vida há vontade
A refutação radical da tese do querer-viver visa o próprio estatuto da vida e do ser, e por consequência o estatuto da vontade de poder, pois o que importa a uma ontologia fundamental não é que a vida seja vontade de poder mas aquilo pelo qual essa vontade é viva, questão que Nietzsche parece responder contraditoriamente, ora chamando a vontade de poder de essência mais íntima do ser, ora afirmando que a vontade só é possível sobre o fundo do serNão se deve esquecer que em Schopenhauer a vontade já não é mero desejo abstrato, sendo o corpo original real, corpo de movimentos e efetuações reais que, mesmo sem satisfação verdadeira, não deixam de ser reais, definindo assim Schopenhauer o próprio ser como vontadeO que significa então o acréscimo nietzschiano de poder a essa vontade já todo poder? Que poder e força devem antes de tudo ser, sendo esse ser o poder prévio em virtude da qual poder e força já se apoderaram de si mesmas, designando vontade de poder, em Nietzsche, o poder da vontade, o fato de que toda poder e força só são pela obra de um poder mais originária que as lança em si mesmas e as constrange a serSupondo-se graus de poder e quantidades de força cujo entrecruzamento produz modificações internas, o poder pelo qual elas são e permanecem não conhece grau nem quantidade, sendo a hiperpoder onipresente em todo poder, desde a mais fraca até a mais forte, não derivada por abstração mas condição do que torna possível a própria experiência das forçasA incondicionalidade da coerência consigo da força que acede a si mesma como um si-mesmo não lhe advém posteriormente mas é a condição de seu surgimento, devendo-se levar em conta o evento decisivo da filosofia moderna: com Schopenhauer e Nietzsche o ser recebe pela primeira vez explicitamente o sentido de ser a vida, sendo a vontade de poder o próprio conceito do ser compreendido em seu fundo como vida, e o porvir primitivo em si dessa vida que se acresce de si mesma a imanênciaNietzsche pensou a imanência da vida sob múltiplas figuras, sendo objeto de afirmação imediata na proposição segundo a qual a vida é esquecimento, esquecimento que não se opõe à lembrança como duas modalidades do pensamento mas designa a impossibilidade radical de pensar em algoEsquecer para a vida não é distração ocasional mas decorre de sua imanência radical que expulsa insuperavelmente a ek-stase e toda forma de pensamento, sendo por isso que Nietzsche figura a vida imanente no animal, determinado em seu ser pelo esquecimento-
cita-se a expressão que qualifica o homem como esse animal necessariamente esquecido
Como o esquecimento formula a imanência radical da vida excludente de todo pensar em, a possibilidade de esse esquecimento se converter em lembrança já não existe por si mesma, sendo preciso uma intervenção exterior, à força de chicote, para conferir à vida não a capacidade mas o hábito de se lembrar, o que Nietzsche chama de adestramento-
cita-se a passagem em que o esquecimento é descrito não como simples inércia mas como faculdade de inibição ativa e positiva graças à qual nossas experiências não se tornam conscientes
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o esquecimento é a condição de possibilidade da vida enquanto recolhimento interior pelo qual ela coere consigo no acréscimo de si mesma, sendo essa condição última que Nietzsche chama saúde
Como o que é esquecido por essência pode então se lembrar, eis o paradoxo que Nietzsche enfrenta na segunda dissertação da Genealogia da moral, ao propor criar um animal que possa prometer, recorrendo à violência ao opor à força do esquecimento não a simples memória representativa mas uma vontade de memória, que procede da própria vida e não da ek-stase-
o § 3 dessa dissertação refere toda faculdade de memorização, enquanto vontade de memória, à afetação, afirmando que só o que não cessa de doer permanece na memória
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seguem-se as imagens dos suplícios, mutilações e rituais cruéis pelos quais o homem se fabricou uma memória, sendo a dor o mais poderoso auxiliar da mnemônica
Prévia a toda força, poder de todo poder, a coerência incondicional da vida consigo mesma é a condição de todo abalo e de toda ação possível, considerando-se a figura das aves de rapina que caem sobre os cordeiros, análise que se apresenta como crítica da moralA argumentação dos cordeiros repousa inteiramente sobre a pressuposição de um desdobramento da força, sua separação de si mesma, negando sua imanência radical, dissociando em toda ação um sujeito capaz de se determinar e a ação como efeito desse livre querer-
cita-se a passagem sobre o povo que desdobra a ação ao fazer o relâmpago manifestar-se como raio, tomando o mesmo fenômeno primeiro como causa e depois como efeito
É a partir dessa separação fictícia que a afetação, ódio e vingança dos cordeiros, avalia o ser e o agir das aves de rapina como sujeitos livres para não serem o que são, residindo nessa suposta liberdade de não ser força a salvação dos cordeiros, liberdade que nem a força nem a vida em geral possuemA não-liberdade, a impossibilidade de não ser si mesmo, é a essência que rege a relação da vida a si mesma, relação constitutiva da vida como seu experienciar-se, sendo essa incoercibilidade o que Nietzsche chama o eterno retorno do MesmoComo não-liberdade a hiperpoder do ser é identicamente sua impotência, a última incapacidade de se desfazer de si mesma que a vida tem, sendo esse tema pensado com rigor no § 13 da segunda dissertação, não se tratando de aves de rapina ou cordeiros mas do fato de que nem uns nem outros podem ser outra coisa senão o que são, sendo essa estrutura a do Si e assim da vidaO § 13 se propõe como crítica do sujeito ou da alma, mas o que Nietzsche recusa não é o sujeito mas uma interpretação de sua essência como ek-stase, negando que a força repouse sobre um substrato colocado sob ela, que haja algo fora dela, sendo essa ausência de exterioridade sua imanência-
cita-se a fórmula segundo a qual não existe tal substrato, não existe ser sob a ação, sendo o agente apenas acrescentado à ação
A imanência da força é o que a constrange a ser ela mesma e assim a agir, sendo por isso que a vontade não pode não querer e, antes de nada querer, quer o nada, explicando a imanência da vida a quase totalidade das figuras que ela assume na obra de Nietzsche, como o egoísmo da alma aristocrática-
cita-se a passagem sobre a alma aristocrática que aceita seu egoísmo como fenômeno enraizado na ordem das coisas, comparando-o à mecânica celeste segundo a qual toda estrela é egoísta
Repousando sobre si mesma, a força em seu desdobramento não provém senão de si mesma, ignorando toda transcendência, toda causa, razão, pretexto ou justificação, não tendo o que lhe é diferente que tomar posição a seu respeito-
cita-se a passagem sobre os fortes que chegam como o destino, sem causa nem razão, demasiado terríveis e súbitos para que se possa sequer odiá-los
A força que encontra sua efetuação em si mesma é por isso mesmo totalmente inapta a dar conta de si numa representação de si, sendo a ação só possível enquanto incompreendida, o que Nietzsche chama instinto, referindo-se à incapacidade dos atenienses nobres de justificar seus atos, incapacidade que Sócrates ridicularizou até reconhecê-la em si mesmoPrestar contas à razão é justamente já não poder fazer justiça à vida, lançando fora dela um horizonte de compreensão, situação que Nietzsche descreve como uma imensa lacuna que envolvia o homem incapaz de se justificar-
a alma aristocrática aceita o fato de seu egoísmo sem fazer disso um problema, exigindo-se por isso reafirmar a estrutura eidética da vida que exclui todo ultrapassar-se, toda transcendência
Que essa estrutura de imanência constitua a possibilidade mais extrema da vida se vê em que seu abalo é o abalo dos próprios fundamentos do ser, procedendo todo o pensamento de Nietzsche do terror diante do abismo do niilismo, esforço que se exprime na distinção entre fortes e fracos, senhores e escravos, exigindo quatro perguntas conexasDa força dos fortes é fácil dar conta, pois os fortes são fortes na medida em que são, sendo a essência do ser vontade de poder, não sendo eles categoria de indivíduos privilegiados mas projeção mítica dessa estrutura interior do ser enquanto vida, oblíquos como ela e sem causa como elaA existência de uma casta de senhores decorreria do pathos da distância pelo qual a aristocracia afirma sua diferença irredutível às classes inferiores, mas é preciso inverter a ordem aparente de dependência: em vez de condição da paixão misteriosa de acréscimo, o pathos da distância é sua eventual consequência, sendo a força dos fortes ao hiperpoder que lança toda força em si mesmaEm que consiste a fraqueza dos fracos é problema mais difícil, pois se a vontade de poder é a essência do ser, não se vê como algo como a fraqueza seria possível; a explicação exterior por quantidades diferenciadas de força pressupõe já a diferenciação qualitativa que pretende explicar, sendo alheia ao que Nietzsche entende por vontade de poderAssim como a força não pode se tornar seu contrário, os mestres não se tornam escravos ao cruzar alguém mais poderoso, sendo aristocracia e plebe raças, isto é, essências, devendo-se compreender a fraqueza a partir de sua possibilidade interior, que é a mesma da força, a saber a imanênciaA fraqueza não é para Nietzsche menor força mas negação da essência da vida, ruptura da imanência, sendo isso o niilismo: não a negação externa da existência mas a destruição da essência interior, autodestruição que se choca com a impossibilidade de romper o vínculo infrangível que liga a vida a si mesma, o que Nietzsche chama a doença da vida e faz do homem o animal mais doentioO fim do § 13 da terceira dissertação enumera algumas causas dessa doença: o homem como experimentador de si mesmo, criador insatisfeito impelido pelo futuro que o separa de si mesmo, mas também o homem da saciedade e do fastio de si, causas que consistem todas numa ek-stase que rompe a imanência da relação da vida consigoTodas as descrições nietzschianas da doença remetem em última instância à ruptura dessa imanência primitiva, sendo o corpo deformado apenas o sintoma objetivo dessa ruptura, cuja verdadeira essência é a vontade profunda de auto-destruição, denunciada por Nietzsche sob as formas do ceticismo, do objetivismo, da má consciência e de toda crítica de siQue essa ruptura da imanência seja o próprio da fraqueza se vê na maneira como os fracos lutam contra os fortes, buscando inserir sua própria miséria na consciência dos felizes até que estes venham a se envergonhar de sua felicidade, distribuindo-se assim força e fraqueza como felicidade e vergonhaA impossibilidade dessa ruptura conduz ao fundo da fraqueza: o que faz a essência última da fraqueza é o fracasso do projeto de auto-destruição, sendo o querer não ser si mesmo da vida a própria fraqueza, pois se choca com a força maior que a edifica, a força da força-
cita-se o texto sobre o olhar recolhido do homem malconformado, que suspira por ser outro e reconhece não haver esperança, chamando-se essa fraqueza desespero
Como os fracos vencem os fortes é aporia que se resolve considerando que a fraqueza porta em si o hiperpoder da vida, pois nunca deixou de pertencer a ela, sendo isso o que a análise nietzschiana do sacerdote ascético demonstraO sacerdote ascético é fraco, homem da má consciência, distinguindo-se dos outros fracos por ser seu enfermeiro, mas é também forte, talvez mais forte que os mais fortes, pois deve defender o rebanho tanto contra os fortes, invertendo os valores, quanto contra o próprio rebanho, canalizando o ressentimentoNele se revela a imbricação misteriosa de fraqueza e força: uma vida esgotada empreende sobrevier, sendo o instinto que a isso a impele descrito por Nietzsche como oriundo do instinto de defesa e salvação de uma vida em degenerescência que luta por sua existência-
afirma-se que o sacerdote ascético, aparente inimigo da vida, é na verdade uma das grandes forças conservadoras e afirmadoras da vida, lutando esta nele contra a morte, entendida como o fastio da vida e o desejo do fim
Resta perguntar de onde vem à vida o projeto aberrante de se voltar contra si mesma, respondendo Nietzsche: do sofrimento, remetendo-nos à segunda determinação eidética da vida, a afetaçãoA afetação preenche toda a paisagem nietzschiana, sendo o termo vontade frequentemente apenas uma maneira de designar o conjunto da vida afetativa, subordinando-se a ela a nova maneira nietzschiana de interpretar a relação com o mundo, a avaliação e a moral-
afirma-se que eliminar a vontade seria castrar o intelecto, e que as morais não são senão a linguagem simbólica das paixões
Como em Schopenhauer, o primado nominal da vontade às vezes rejeita a afetação a uma situação de dependência, como no caso do ressentimento explicado pela impotência dos sacerdotes, cuja técnica de prescrever pequenas alegrias remete, porém, novamente à própria vontade de poder como produtora do prazerA essa determinação extrínseca da afetação pela vontade se sobrepõe desde o início, em Nietzsche, uma definição prévia do próprio querer pela afetação, sendo o primeiro nome da Vontade de poder, em sua obra, Dionísio, que não é entidade especulativa mas vem entre nós na tragédia, deus oculto mas presente como princípio interior da exaltação de seus servos-
fala-se de alegria originária no seio do próprio Um originário, sendo dor e contradição, prazer eterno da existência, felicidade de viver, os nomes desse Um, isto é, da própria vontade
Longe de essa alegria e essa dor decorrerem simplesmente da satisfação prévia do querer, a análise nietzschiana da tragédia libera duas dimensões superpostas da afetação: numa primeira o sentimento parece tributário do desejo e sua história, mas na destruição do herói surge no espectador uma felicidade incompreensível que nega o mundo fenomenal-
cita-se a passagem sobre o espectador que contempla o mundo transfigurado da cena e o nega, que treme diante do sofrimento do herói e pressente nele um gozo infinitamente mais poderoso
Esse aniquilamento do herói é identicamente o de todo o mundo fenomenal do desejo, revelando-se nesse desmoronamento a essência oculta da vida e da vontade, o Um originário, consistindo esse desvelamento na própria embriaguez, sendo a vida esse desvelar-se de si na embriaguez de si, a felicidade de viverAssim a relação com o ser originário se delineia, uma vez na filosofia ocidental, como efetuando-se na afetação, que não é relação ao ser diferente dele mas sua própria relação a si, sua auto-afeição encontrando substância fenomenológica no prazer, sendo esse prazer o de cada servo do deus identificado a elePodemos então compreender a elaboração posterior do conceito de vontade de poder, sua identificação progressiva com a essência da afetação, explicitada no aforismo 635 de La volonté de puissance, segundo o qual a vontade de poder não é um ser nem um devir mas um pathos-
citam-se diversas passagens de Par-delà bien et mal sobre a constância de um sentimento superior, a vontade de superar uma paixão sendo apenas vontade de dar lugar a outra, e o amor por nossos desejos mais que pelo desejado
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o retorno do vínculo aparente de dependência da afetação em relação à vontade se evidencia quando dominação e comando são explicitamente submetidos à primeira
Não se trata, porém, de simplesmente inverter uma relação exterior entre vontade e afetação mas de apreender seu vínculo de fundação: jamais poder ou impotência se apresentam sozinhas mas apenas como sentimentos de poder ou impotência, não havendo universo reativo em si mas um pathos reativo, existindo o poder apenas como sentimento de poder porque não há poder que não se experimente como tal-
cita-se a afirmação de que todo animal aspira instintivamente a um ótimo de condições que lhe permita desdobrar toda sua força e atingir o máximo sentimento de poder
Do mesmo modo não é a impotência que provoca o ódio mas o sentimento de impotência, sendo o insuportável dessa sofrimento, a incondicionalidade desse vínculo, que suscita o projeto de rompê-lo, o projeto furioso da auto-destruição que é o próprio ódio, temperado pelo gênio da vida ao voltá-lo para fora, no ressentimento, respondendo-se assim à questão deixada em suspenso sobre a origem da fraquezaA afetação das forças nunca é, portanto, segunda, não resultando de seu exercício ou encontro, mas apenas o que se cava primitivamente em si mesmo como um Si e assim se auto-afeta é suscetível de ser afetado por qualquer coisa, sendo a afetação da força a condição, e não a consequência, de sua afeiçãoQue a vontade de poder seja pathos significa que ela extrai dele não apenas seu ser mas também seu poder, sendo a vontade nietzschiana o ser enquanto poder, e o poder do ser o acréscimo de si mesmo, não posterior ao ser mas idêntico a seu parvirO ser se acresce de si na medida em que se auto-afeta e sua auto-afeição é sua afetação, o experienciar-se em que o ser chega a si e assim se acresce de si, sendo a afetação não o próprio poder mas o hiperpoder situado em todo poder pelo qual todo poder se acresce de si mesma, residindo aí o pathos da vontade de poderO traço mais notável da análise nietzschiana é jamais visar uma essência abstrata da afetação mas apenas suas efetuações concretas, sendo o sofrimento a mais constante delas, objeto de denigração sistemática quando se trata dos fracos ou do cristianismo, mas em toda parte celebrado como causa única das superações do homem-
cita-se a expressão sobre a cultura do sofrimento, da grande sofrimento, e o exemplo de Édipo cuja força mágica benfazeja decorre do excesso mesmo de seus sofrimentos
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condenados são os que depreciam o sofrimento ou querem eliminá-lo, o cristianismo e o movimento democrático que lhe é herdeiro, votando ódio mortal ao sofrimento
O sofrimento não é objeto primeiro de uma avaliação mas coconstitui a essência originária de onde procede toda avaliação, a essência da vida, na medida em que sua possibilidade principial é o se sofre si mesmo, sendo por isso que a grande sofrimento é a única causa das superações do homem, residindo nela a essência do porvir primitivo em si mesmoNa medida em que a vida chega originalmente a si no se sofrer si mesmo do sofrimento, também nele, experimentando-se a si mesma, ela goza de si, sendo a fruição o segundo nome que Nietzsche dá à vida, a jubilação, a felicidade, a embriaguez, o efusão de um gozo originárioSofrimento e alegria não são duas tonalidades separadas mas o eterno passar de uma na outra, pois se sofrer si mesmo no sofrimento é acrescer-se de si mesmo e gozar de si, não tendo o gozo outro sítio senão o sofrimento desse próprio sofrer, sendo essa conexão originária captada primeiro no jovem Nietzsche por Dionísio-
cita-se a passagem sobre a surpreendente mescla de afetos e a duplicidade dos loucos de Dionísio, fenômeno em que o prazer desperta da própria dor
Essa conexão historial de sofrimento e alegria percorre toda a obra de Nietzsche e lhe serve de suporte despercebido, sendo nesse sentido radical que se diz que a filosofia de Nietzsche é uma filosofia da vida, tendo já em La naissance de la tragédie o passar do sofrimento extremo à alegria extrema no espectador sua raiz nessa constituição íntima do serConsidere-se, como exemplo mais elaborado, a genealogia da moral, cuja análise propõe primeiro uma pseudogenealogia segundo a qual a moral procede da relação devedor-credor, relação contratual que remete às formas fundamentais do comércio e da práxis humana, explicando por extensão relações como a do indivíduo com a sociedade, e das gerações com os ancestrais e finalmente com Deus-
a convicção de que cada tribo subsiste graças aos sacrifícios de seus antepassados projeta-se na imagem monstruosa do Ancestral absoluto, a quem se deve tudo, exigindo castigo eterno a menos que o próprio credor se sacrifique para resgatar o devedor, Deus se sacrificando para pagar a dívida do homem
Que essa genealogia social seja apenas aparente se vê ao lembrar que Nietzsche se situa no outro extremo de toda a ideologia moderna, longe das ciências humanas que buscam na sociedade a causa quase única do infortúnio humano, e nem sequer a história das formas sociais primeiras pode fornecer a genealogia da moral, sendo preciso remontar à história essencial, a de tempos antigos sempre novamente possíveisConsidere-se a sequência decisiva da genealogia, quando o devedor não paga o credor, que tem então direito a uma estranha compensação: o direito de fazer sofrer de qualquer maneira, surgindo a pergunta abissal sobre como o sofrimento pode compensar dívidas, respondendo-se que fazer sofrer dava grande prazer e o lesado obtinha em troca uma extraordinária contra-fruiçãoNão se trata simplesmente de vingança, pois esta remete ao mesmo problema, nem de crueldade pura, pois esta também não é senão o gozo que procede do sofrimento, sendo a crueldade o grande gozo da humanidade antiga, quase o ingrediente de todas as suas alegrias, revelando-se assim o verdadeiro sentido da genealogia: expor o historial do próprio ser, a inversão do sofrimento em alegriaÉ verdade que na vingança e na crueldade sofrimento e alegria parecem separados, referidos a dois sujeitos diferentes, sendo essa exterioridade a origem da explicação nietzschiana pouco convincente sobre o sentido do sofrimento, que reside no prazer que ele desperta em quem o contempla de fora, tema do espectador que percorre o mundo antigo-
cita-se a afirmação sobre os tempos em que se julgava o inverso do que hoje se pensa sobre o sofrimento, encarando-se fazer sofrer como um encanto de primeira ordem
É o próprio Nietzsche, contudo, que convida a questionar a exterioridade desse vínculo, ao afirmar que é preciso abandonar a psicologia obtusa segundo a qual a crueldade nasce do espetáculo do sofrimento alheio, referindo-se antes a fenômenos em que prazer e dor aparecem juntos no mesmo indivíduo, como o romano no anfiteatro, o cristão em êxtase na cruz, o operário parisiense sonhando com revoluções sangrentasSubstitui-se assim à exterioridade da relação prazer-sofrimento sua interioridade enquanto relação do indivíduo consigo mesmo, sendo a crueldade, em sua forma mais geral, primeiramente crueldade contra si, da qual o indivíduo extrai seu prazer justamente por isso se fazer sofrer-
cita-se a afirmação de que nosso próprio sofrimento nos procura abundantes gozos, e que na autonegação, na mutilação voluntária ou na espiritualização o homem é atraído pela crueldade voltada contra si mesmo
Essa crueldade encontra representação estética na imagem do homem como escultor que talha sua própria carne, criador e criatura ao mesmo tempo, aquilo que deve ser forjado e queimado e aquele que forja e queimaDe todos os grandes pensadores influenciados por Nietzsche no século XX, foi Max Scheler quem mais levou adiante essa meditação, propondo uma problemática sistemática da afetação que reconhece a coexistência, num mesmo indivíduo, de duas tonalidades diferentes, fundando essa diferença na relação intencionalAssim a estrutura do vínculo entre sofrimento e alegria na crueldade contra si é, para Scheler, a de uma ligação intencional e portanto de exterioridade radical entre o prazer do ato de golpear e a dor mesma causada, sendo a crueldade contra si apenas caso particular de uma diferenciação fundada em princípioCom essa tentativa de fundamentar filosoficamente as teses mais extremas de Nietzsche, Scheler permanece infinitamente distante delas, mostrando apenas como num mesmo indivíduo sofrimento e alegria podem coexistir, mas Nietzsche não se preocupa em saber como duas tonalidades diferentes podem coabitar, buscando antes explicar como o sofrimento produz o prazer, certeza impensada de que fazer sofrer é fazer prazerPara designar o fundo horrível das coisas, Schopenhauer e Nietzsche empregam a mesma palavra, contradição, significando em Schopenhauer que o desejo não tem fim, sendo a realidade faminta, e em Nietzsche que a própria sofrimento é contraditória por produzir de si mesma a volúpia, sem que jamais se explique verdadeiramente como a dor engenhosa a volúpia, permanecendo essa unidade originária um mero constatar que serve de fundamento a todas as análisesPodemos compreender essa unidade originária de sofrimento e alegria ao perceber que nenhuma delas pode desdobrar seu ser fora da outra, havendo na essência da vida um gozar de si que consiste num experienciar-se originariamente um se sofrer si mesmo, sendo o sofrer no gozar sua própria efetuação fenomenológica, e o gozar inerente a esse sofrer como o que ele produz inevitavelmenteÉ desse modo que, segundo a afirmação decisiva de Nietzsche, a volúpia nasce da dor, devendo esse nascimento ser tomado como o perpétuo porvir em si mesmo daquilo que assim devém sem cessar como um Si, não sendo o ser mas um vir, o eterno vir em si da vida, vindo o gozo a partir do sofrimento na efetuação fenomenológica de seu se sofrer si mesmoPorque o sofrer constitui o aporte de si a si do gozar, eles se acrescentam juntos, e quanto mais intensamente a vida experimenta a si mesma no auge de seu sofrimento, mais poderosa é a maneira como se apodera de si, mais intensa sua fruição, produzindo-se entre sofrimento e alegria uma oscilação tal que o excesso de uma é a sobreabundância da outra, sendo esse o motivo de se retornar aos tempos antigos quando o pathos de uma vida envelhecida se imobiliza no tédioA exterioridade das tonalidades fundamentais, real em Scheler, é em Nietzsche apenas uma figura, a da crueldade e da vingança, em que sofrimento e prazer parecem cair um fora do outro, quando na verdade estão presentes tanto no carrasco quanto na vítima, podendo a sofrimento de quem inicialmente sofreu se converter em prazer porque nele mesmo a sofrimento pode se mudar em alegriaAlegria e sofrimento nunca estão, portanto, um diante do outro como o carrasco diante de sua vítima, sendo sua relação exterior apenas a representação de sua conexão interior em cada um dos que gozam e sofrem, representação essa do próprio absoluto, que expõe e disjunge os componentes originais do Um, dando-os a ver, sendo a filosofia de Nietzsche esse sacrifício ritual, a disjunção e projeção ampliada no céu do mito da estrutura da subjetividade absolutaestudos/henry/gp/nietzsche.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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