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Homem
HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009
O macaco do homem: o inconsciente
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A elaboração sistemática das estruturas fundamentais do aparecer, prosseguida através de Descartes, Schopenhauer e Nietzsche, torna agora possível uma crítica radical da psicanálise, determinação filosófica do conceito de inconsciente que Freud, tendo consciência de sua falta, tentou evitar ao recusar a legitimação teórica em nome de uma prática
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cita-se a resposta de Freud segundo a qual a pergunta sobre a natureza do inconsciente não é mais judiciosa que a pergunta sobre a natureza do consciente
O inconsciente não tem outra existência teórica senão a de ser o único princípio de explicação possível do material patológico, sendo a legitimação da psicanálise fundada não na pertinência do princípio explicativo mas no próprio material patológico enquanto dado incontestável, o que só se sustenta na medida em que ele aparece, repousando assim sobre a essência já desdobrada da consciênciaOs textos em que Freud situa explicitamente na consciência o ponto de partida de seu trabalho teórico são numerosos, havendo dupla motivação: o caráter lacunar do dado consciencial, que a filosofia clássica confia à substrutura fisiológica, reduzindo a consciência a epifenômeno, enquanto a psicanálise luta para manter à psique o princípio de sua própria explicaçãoO ser, porém, não é apenas homogêneo à aparência que pretende fundar, é dela secretamente tributário, determinado por ela, como observa Nietzsche ao dizer que a aparência não é o contrário de nenhum ser, sendo esse o motivo verdadeiro que obriga a problemática do inconsciente a buscar seu fundamento na própria consciência enquanto talO conceito de consciência é ao mesmo tempo ôntico e ontológico: designa em sentido imediato o que é consciente, um sintoma, um lapso, um sonho, mas o puro fato de aparecer considerado em si mesmo, independentemente do que aparece nele, é a consciência em seu conceito ontológico, tema implícito de toda filosofiaAlém do que é consciente, a psicanálise põe o que não o é, o inconsciente, também equívoco entre sentido ôntico e ontológico: no sentido ôntico são as pulsões, as representações inconscientes, os processos primários; mas tais conteúdos só são inconscientes por serem desprovidos do ser-consciente enquanto tal, sendo por isso o conceito ontológico que subjaz ao ônticoQue significa o inconsciente no sentido ontológico? Trata-se de mera determinação negativa, o ser-consciente-enquanto-tal barrado? Por parecer pouco rico em perspectivas, Freud a excluiu de sua pesquisa, substituindo-a pelos processos que dão conta dos conteúdos conscienciais, o sistema ics, sendo o caráter consciente ou inconsciente apenas propriedade secundária desses processosEstranha doutrina que começa rejeitando o primado tradicional da consciência em proveito de um inconsciente que a determina inteiramente, para depois declarar que nem uma nem outra qualidade importam de fato, apesar de a conversão do inconsciente em consciente ser ao mesmo tempo objetivo e condição da terapiaO descrédito lançado sobre o inconsciente enquanto tal por uma teoria que se define por ele é menos paradoxal do que parece, pois o puro fato de ser inconsciente só é vazio na medida em que o conceito antitético a partir do qual é construído, a consciência pura em geral, permanece ele mesmo formal, sem nada dizer sobre a natureza desse aparecer-
cita-se a confissão de Freud de que não é preciso explicar o que se chama de consciente, sendo essa a consciência dos filósofos e do grande público
É a ausência de toda elaboração ontológica da essência da fenomenalidade que acarreta a indeterminação total do conceito ontológico do inconsciente, abandonado por Freud em favor de conteúdos empíricos diversos, produzindo-se assim uma queda do ontológico no ôntico que reduz a psicanálise a psicologia grosseira, incapaz de conhecimento apriorísticoQue significa então o inconsciente do ponto de vista ontológico, e qual sua verdadeira porta filosófica antes de sua queda no naturalismo ôntico? A consciência à qual a psicanálise assinala limites intransponíveis é a consciência da filosofia clássica, a representação e a fenomenalidade extática que se expande na transcendência de um mundoA intuição implícita mas decisiva da psicanálise, razão de seu imenso eco apesar da insuficiência de seu aparato conceitual, é que a essência da psique não reside no devir-visível do mundo, assegurando o inconsciente, como recusa radical da fenomenalidade extática, a guarda do ser mais íntimo do homem, sendo o inconsciente o nome da vida, situando-se Freud na esteira direta de Schopenhauer, Nietzsche e DescartesAssim que o inconsciente é apreendido na positividade de sua essência ontológica primitiva, sua significação se desdobra, pois além de ser o outro da representação, o nome da vida, pertence à própria esfera da representação um horizonte de não-presença que afeta toda presença extática enquanto tal, cercando-a de sombraRevestindo-se assim o conceito ontológico de inconsciente de duas significações radicalmente diferentes conforme se refira à representação ou à vida, o inconsciente entendido como consciência barrada só se entende em relação à consciência representativa, sendo esta a co-pertença que funda a incessante passagem entre presença e ausência extáticas, o nascer e o morrer de tudo o que está aí-
a questão freudiana essencial da transformação do inconsciente em consciente e vice-versa (ics es) encontra aqui sua condição apriorística de possibilidade, sendo essa transformação reversível e absolutamente livre
Com esse inconsciente da representação (ics = es), nada tem a ver o inconsciente que se refere secretamente à essência da vida, pois a barra aqui aposta concerne apenas à fenomenalidade da representação, liberando seu rejeição a dimensão originária do aparecer onde o ser se revela a si mesmo fora da ek-stase, na imanência radical de sua auto-afeiçãoPorque o ser segundo a essência originária de seu auto-aparecer expulsa de si a ek-stase, a possibilidade de se mostrar nela é excluída por princípio, recebendo assim a questão da transformação recíproca entre consciente e inconsciente uma solução oposta: de possível ela se torna impossível (ics es), esclarecendo-se o duplo destino atribuído aos conteúdos inconscientesA existência dos conteúdos que se recusam obstinadamente a se tornar conscientes não precisa ser explicada por processo ôntico misterioso como um recalque primário, enraizando-se antes numa prescrição de ordem ontológica que formula o próprio estatuto da vida, referindo-se secretamente o discurso freudiano sobre o inconsciente às estruturas fundamentais do serJá mostramos como é a finitude do lugar da ek-stase que, afastando as representações não presentes, as coloca em estado de latência, tornando inconcebível contestar o inconsciente se considerarmos a totalidade de nossas lembranças virtuais, argumento já formulado na Nota sobre o inconsciente de 1912-
Freud propõe chamar consciente a representação presente à nossa consciência e inconscientes as representações latentes cuja existência supomos, como no caso da memória
É portanto a representidade que serve de ponto de partida à determinação psicanalítica do inconsciente, sendo o material patológico incontestável apenas na medida em que é dado, e o ser-dado desse dado é justamente sua capacidade de ser representado, verificando-se isso também quando o dado deixa de ser patológico stricto sensu, como no sonho, onde o pensamento representativo se dispersa em seus produtos até parecer não ser mais que o conjunto incoerente desses conteúdosA mesma situação se encontra na associação de ideias, sendo em toda parte o conteúdo representativo considerado em si mesmo, separada sua realidade objetiva de sua realidade formal, não surpreendendo que esse conteúdo isolado do poder que o produziu apareça fragmentário e enigmático, privilegiando Freud o sonho e a associação de ideias como suportes práticos da análiseDescobre-se aqui outra face do conceito psicanalítico de inconsciente: não designa apenas a finitude da ek-stase mas, mais essencialmente ainda, a própria ek-stase, o processo de ob-jeção considerado em si mesmo independentemente da objetividade que produz, sendo preciso somar à genealogia positiva da psicanálise sua genealogia negativa, as carências da filosofia ocidental de que ela procede sem sabê-loO ponto extremo em que a filosofia da consciência se volta contra si e se autodestrói é a inconsciência da própria consciência transcendental, situando-se historicamente esse retorno quando o idealismo alemão, incapaz de fundar seu próprio princípio, resvala numa filosofia da natureza que afirma nada menos que a inconsciência da própria produçãoCom a inconsciência da produção a filosofia da natureza pensa resolver o problema deixado pendente pelo idealismo, de como o princípio que produz o mundo pode se chocar com ele como realidade estranha, sendo essa criação que se ignora a si mesma e descobre seu produto como enigma, situação que encontra formulação explícita no Sistema do idealismo transcendental do jovem SchellingA afinidade historial entre a filosofia da natureza e a psicanálise tem por mediação a psicologia do fim do século XIX, tendo Dalbiez, em seu trabalho pioneiro, evidenciado que o realismo confiado à psicanálise provém, num sistema intrapsíquico, da possibilidade de o processo psíquico se ignorar a si mesmo e se encontrar diante de seu próprio produto como algo real-
exemplifica-se com a percepção de uma árvore, em que a visão não é conhecida senão por um segundo ato posterior
Essa posterioridade da consciência em relação à conhecimento, apontada pelos neo-realistas americanos, nada mais significa, em suas últimas implicações ontológicas, que a não-fenomenalidade da fenomenalidade enquanto tal, ilustrada de modo exemplar pelo método psicanalítico da associação de ideias, onde a própria vinda de cada conteúdo se dissimula em seu produtoO inconsciente que procede da representidade se desdobra assim: ao conteúdo inconsciente latente opõe-se a inconsciência de sua produção, o próprio vínculo associativo, a inconsciência relacional, distinguindo Freud, contra Janet, entre a inconsciência dos fatos, própria da histeria, e a inconsciência das relações entre fatos, própria da obsessãoO conceito representativo de inconsciente encontra-se sobredeterminado em Freud pelo papel do sonho, jamais analisado diretamente por ser sua intencionalidade imaginária incompatível com a análise conceitual, substituindo-se-lhe seu relato, um texto, conjunto de significações que relevam do pensamento propriamente dito e de uma consciência doadora de sentidoCria-se então situação extraordinária: por um lado categorias linguísticas se investem num dado que lhes é heterogêneo, tornando-se possível afirmar levianamente que a estrutura do inconsciente é a de uma linguagem; por outro lado a significação, ausente por essência da vida imaginária, é tomada por inconsciente, ilusão constante gerada pela hipóstase das significações puras-
exemplifica-se com a criança que forma imagem da mãe sem formar a significação verbal correspondente, tornando-se essa significação verbal seu suposto inconsciente
Essa crítica principial deve ser tomada em seu alcance mais geral, pois o sonho é apenas o protótipo da representação para Freud, estendendo-se assim a interpretação dos sonhos a todas as formas da vida representativa, aos símbolos, à arte, aos mitos, às crenças religiosas, sob uma significação semelhante à do idioma que lhes é estranhaAssim se volta contra si mesma uma das intenções mais interessantes do freudismo, o reconhecimento do papel decisivo do imaginário na vida, pois é à medida das significações ideais que esse imaginário é finalmente reduzido, recobrindo o cientificismo de Freud a intuição da vidaSe a significação ideal visada a vazio pelo pensamento já é estranha ao imaginário, muito mais deve se afastar da própria vida, que não tem sentido nem porta intencionalidade alguma, não podendo ser julgada à sua luz, como a criança que ama sua mãe sem formar a significação eu criança amando minha mãeA criança em Freud, como o animal em Nietzsche, é apenas uma figura, sendo a vida, sem ek-stase alguma, incapaz de se aperceber a si mesma ou de se significar, não tendo por isso sentido nem devendo responder à pergunta do sentido, sendo semelhante a uma rosa-
cita-se a fórmula angelusiana da rosa sem porquê
O sonho tem um sentido, o lapso tem um sentido, o silêncio tem um sentido, o esquecimento tem um sentido, tudo tem um sentido, permanecendo porém equívoco o que se deve entender por sentido nesses casos: se designa significação ideal como a do idioma, é correlato noemático de intencionalidade significanteO trabalho crítico da análise consiste então em substituir um sentido falso visado por outro verdadeiro, sendo o analista quem conduz o paciente a reconhecer que o ciúme era na verdade desejo de trair, permanecendo assim, apesar da aparência de ruptura, o idealismo da consciência inteiramente vigente, situando-se a psicanálise na linha direta do pensamento ocidentalQuando Freud declara que o sonho tem um sentido, quer dizer outra coisa: que um conteúdo onírico é produzido por uma tendência inconsciente, não havendo aí significação nem consciência significante, nenhum sentido no sentido linguístico, sendo a relação entre esse conteúdo e a tendência que o produz uma relação de indício, não de significação intencional-
cita-se Freud tratando dos fenômenos psíquicos como índices de um jogo de forças que se cumpre na alma
O renversement das posições clássicas está consumado: o fenômeno é ainda conteúdo representativo, mas o poder que o produz já não é o poder da representação nem da consciência, abrindo a afirmação de que tudo tem um sentido, ao contrário do que geralmente se supõe, o domínio onde já não há intencionalidade nem sentido linguístico algumA inflexão do conceito freudiano de inconsciente rumo ao domínio invisível da vida se vê na Nota de 1912, onde a prova da latência cede lugar a outra consideração: a eficiência das ideias inconscientes durante seu próprio estado de inconsciência, atestada pelos sintomas neuróticos que, embora não se mostrem eles mesmos, são manifestação imediata de uma atividade inconscienteDeficiências normais e sintomas neuróticos revelam fenômeno absolutamente geral: a determinação principial de tudo o que vem à condição de ser-representado por um poder que nunca advém a essa condição, correspondendo o caráter dinâmico do inconsciente eficiente ao reporte deliberado da força e da potência para fora do campo da representabilidadeA mutação do inconsciente freudiano, deixando de designar a negação vazia da qualidade consciente para tomar a cargo o dinamismo da psique, o sistema ics, não marca tanto a queda de seu conceito no ôntico quanto revela, sob sua facticidade aparente, o que inconsciência significa quando visa a própria possibilidade da ação, a essência originária do ser enquanto vidaA dificuldade de o pensamento escapar ao poder da representidade se vê no artigo sobre O inconsciente de 1915, onde a pulsão, mal reconhecida como o outro absoluto da representação, é reintegrada ao campo desta por meio de seu representante psíquico, ele mesmo compreendido à imagem da própria representaçãoA pulsão só adquire existência psíquica enquanto esse representante, revestindo o modo de ser de apresentar algo diferente de si, a própria representação enquanto tal, notando os comentadores a ambiguidade do conceito de pulsão que designa tanto o que é apresentado quanto quem realiza essa apresentaçãoHá razão para essa equivocidade que toda problemática radical deve desvendar: a impotência do pensamento de captar em si mesma atividade, potência e força, substituindo-lhes sua essência própria a da representação assim que devem ser consideradas como psíquicas, nascendo o conceito aberrante de representação inconscienteNesse conceito se juntam dois erros maiores do freudismo: primeiro imaginar que há representações inconscientes porque há lembranças em que não pensamos atualmente ou representações recalcadas, como se essas representações existissem independentemente do ato que as forma, de sua realidade formalSegundo, a pulsão que significa primeiramente a não-representabilidade — nunca podendo se tornar objeto da consciência — só existe psiquicamente através de seu representante, que é uma representação, existindo portanto a não-representabilidade apenas sob a forma da representabilidade, contradição contida no texto-chave freudiano segundo o qual mesmo no inconsciente a pulsão só pode ser representada pela representaçãoFreud queria preservar a especificidade do psíquico contra toda redução físico-biológica, mas essa é sua maior ilusão, pois sendo a pulsão psiquicamente apenas o representante de processos somáticos e energias físicas, seu ser psíquico não passa de representante de outra coisa, tendo o psíquico apenas pseudo-autonomiaNa medida em que esse ser psíquico é compreendido como representante segundo o modelo da representação, adquire secreta afinidade com a consciência representativa, podendo assim se transformar nela, escapando Freud ao biológico apenas ao reduzir o psíquico ao extático, fundando sua metodo na semelhança dos processos inconscientes com os conscientes-
cita-se a afirmação de Freud de que os estados latentes só se distinguem dos conscientes por lhes faltar precisamente a consciência
A essência originária da Psique é assim falhada duas vezes, reduzida primeiro à realidade física e depois à consciência representativa, sendo essa segunda redução que governa toda a análise, repousando a ponte lançada pelo representante entre processos materiais e consciência sobre a identidade secreta de que o ser desses processos materiais não é senão o ser-representado, isto é, a própria consciênciaA afinidade entre ser material e consciência acarreta múltiplas consequências: primeiro que o devir-consciente recebe o sentido de uma realização, definindo-se assim força, energia e atividade, cuja possibilidade interior residia na imanência radical do inconsciente freudiano primitivo, ao contrário conforme a tradição, por um processo de exteriorização-
cita-se a explicação freudiana da morbidade segundo a qual a existência do sintoma condiciona-se ao fato de um processo psíquico não ter podido chegar a seu fim normal, tornando-se consciente
Aprofundando o conceito de inconsciente, Freud falava de pensamentos inconscientes eficientes que o determinam em seu fundo como Energia, tendendo tais pensamentos, enquanto eficientes, à sua realização, sendo esse processo de exteriorização como tal que constitui a eficiência mesmaA intuição enterrada no cerne do freudismo de que toda vida é infelicidade se explica pela ideia de que o aquém-do-mundo, o inconsciente como tal, está separado da realidade e é assim desejo sem fim, reencontrando Freud, para além de Nietzsche, SchopenhauerA redução dos modos fundamentais do agir eficaz ao processo de exteriorização da representação leva a uma teoria representativa e no limite fantasmática do desejo, cujo equívoco importa denunciar: embora o desejo se acompanhe de cortejo de representações, sua essência não é a delas-
cita-se a passagem da Ciência dos sonhos sobre a imagem mnésica associada à satisfação da necessidade, sendo o desejo o impulso de reinvestir essa imagem
Assim o desejo, que não é senão a própria necessidade despertando e se cumprindo como movimento do corpo original, na esfera de imanência da subjetividade absoluta, vê seu ser e sua história modificados fundamentalmente, tornando-se história de representações, o retorno de uma lembrançaResta o essencial do pensamento de Freud: o representante da pulsão não é apenas a representação, é também o afeto, sendo nesse encontro com o fundo do inconsciente e da vida que a psicanálise nos revela seu segredo, vacilando aqui a primeira de suas pressuposições, a dissociação entre Psique e fenomenalidadeO afeto não é apenas representante da pulsão ao lado da representação, constitui na verdade seu fundamento, estabelecendo as grandes análises da doutrina — recalque, destino das pulsões, histeria, a própria cura psicanalítica — esse primado, implicando que só o destino do afeto importa verdadeiramente-
cita-se a afirmação categórica de que é da essência de um sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência, e que uma representação pode existir mesmo sem ser percebida, ao passo que o sentimento consiste na própria percepção
O embaraço que envolve tais afirmações numa filosofia do inconsciente se manifesta nas passagens sobre sentimentos inconscientes de culpa ou angústia, vendo Freud nessas expressões mera impropriedade de linguagem, sendo a representação associada ao sentimento, e não este, que é ou pode ser inconscienteNo processo de recalque o sentimento nunca deixou de ser conhecido, tendo apenas seu sentido, a representação a que estava ligado, sido desconhecido, ligando-se então a outra representação e sendo tomado pela consciência como manifestação desta últimaDiante da questão-limite de saber se o próprio afeto pode ser recalcado e tornar-se inconsciente, Freud responde citando processo distinto daquele pelo qual o consciente se torna inconsciente, descrevendo antes o processo da própria afetividade que, não cessando de se auto-afetar, se transforma segundo as modalidades prescritas por sua essênciaO aporte decisivo de Freud consiste em pôr em primeiro plano a angústia: quando a representação ligada ao afeto é recalcada, este não é suprimido mas modificado qualitativamente, e quando essas tonalidades por sua vez são recalcadas, é em angústia que se transformam-
cita-se a afirmação de que o destino do estado afetivo associado à representação recalcada é sofrer transformação em angústia, sendo essa a parte mais importante do processo de recalque
Que a angústia seja assim como a moeda corrente da vida, o lugar comum de passagem de todos os afetos, é o que a análise das psiconeuroses declara explicitamente, sendo preciso porém afastar uma objeção antes de aprofundar esse fenômeno crucialSendo o afeto também mero representante da pulsão, não seria ele, como a representação, algo de segundo, transcrição de algo que permanece em si estranho a toda manifestação? A pulsão, por sua vez, é representante das múltiplas excitações que assaltam a Psique, retomando aqui o esquema do Projeto de 1895, nunca abandonadoTal esquema marca o ponto extremo da alienação do pensamento da existência ao impor a interpretação desta a partir do modelo físico de um sistema energético regido pela entropia, mas na medida em que esse modelo pretensamente científico é tradução inconsciente da própria vida fenomenológica absoluta, ele a ilumina em vez de determiná-laO sistema nervoso ou organismo se determina em seu ser pela capacidade de receber duas espécies de excitações, exteriores e endógenas, sendo essa dupla capacidade a inscrição orgânica de dupla receptividade ontológica: a receptividade transcendental ao mundo, na ek-stase, e a autorreceptividade da subjetividade absoluta enquanto viventeOs traços psico-biológicos atribuídos pelo Projeto aos sistemas φ e Ψ são tradução grosseiramente realista, na linguagem da ciência, das estruturas que determinam a possibilidade da experiência em geral, sendo o ponto essencial que a excitação pulsional, vinda do interior do próprio organismo, é constante e inescapável-
o eu permanece sem defesa contra as excitações pulsionais, pois a pulsão nunca age como força de impacto momentânea mas sempre como força constante
Essa constância da excitação, isto é, da afeição, a impossibilidade de lhe escapar ou de tomar distância a seu respeito, qualifica nada menos que a subjetividade absoluta, sendo essa afeição imanente de si por si a essência da ipseidade e, portanto, o eu-
cita-se a afirmação de que no caso da pulsão a fuga não serve de nada, pois o eu não pode escapar de si mesmo
Pulsão designa em Freud o fato de se auto-impressionar a si mesmo sem jamais poder escapar de si, sendo essa auto-impressão efetiva o peso e a carga de si mesmo, sendo a necessidade o que se encontra nessa condição de não poder se desfazer de siSegundo o Projeto, o sistema de neurônios investido de energia tende a se livrar dessas quantidades para voltar ao estado zero, princípio de inércia realizável para excitações exógenas mas não para as endógenas, constantes e impossíveis de afastar, existindo assim um eu perpetuamente investido em que a auto-afeição nunca cessaO princípio de inércia se transforma em princípio de constância porque há uma energia inalienável que o sistema não pode eliminar totalmente, camuflando a linguagem mítica da ciência de 1895 a estrutura da subjetividade absoluta, sendo o sistema Ψ a imagem da essência originária da PsiqueSegundo o esquema explicativo, são as quantidades de energia que determinam as tonalidades afetivas via princípio de constância, mas nada sabemos dessas quantidades supostas, partindo-se sempre, na realidade, do prazer e do movimento em direção a ele, sendo o princípio de prazer fenomenológico e sua explicação pelo princípio de constância mera hipótese acrescentadaDo mesmo modo o recalque não é dirigido por fuga diante do aumento de excitação mas diante do desprazer atualmente experimentado, propondo-se assim como processo imanente à vida fenomenológica e idêntico a ela-
o recalque não tem outro motivo nem outro fim senão evitar o desprazer
A interferência entre discurso científico e discurso fenomenológico se exprime na denominação estranha da afetividade sob o título de quantum de afeto, quantidade que não visa senão um trop, uma carga demasiado pesada, o próprio afeto enquanto carregado de si e não podendo escapar de si, sendo a descarga neuronal transposição imaginária dessa essência da vida em sua passividade insuperável a respeito de siHá leitura superficial do freudismo que reduz a angústia a mera reprodução do traumatismo do nascimento, mas essa angústia infantil constitui na verdade o modelo ou protótipo da angústia verdadeira, sua essência, não sendo angústia diante de perigo exterior real mas diante da pulsão, excitação endógena, a própria vidaA angústia diante da pulsão não é angústia diante de algo que se possa fugir, sendo antes fuga diante de si mesma, na qual não há devant algum mas a impossibilidade principial de desdobrar qualquer distância, sendo a angústia o sentimento de não poder escapar a si daquilo que se constitui em sua essência por essa impossibilidadeA angústia é o sentimento do ser enquanto vida, o sentimento do Si: em termos freudianos a vida é a pulsão, a libido, e a angústia é o sentimento da libido, a prova que ela faz de si mesma acossada a si, incapaz de romper o vínculo que a liga a si mesma-
a libido de uma pessoa faz parte dela mesma e não pode se opor a ela como algo exterior
Não é a libido mas mais precisamente a libido não empregada que provoca a angústia, sendo a angústia infantil semelhante à angústia neurótica dos adultos por ambas nascerem de uma libido não empregada, o menor perigo exterior substituindo as exigências dessa libidoUma libido recalcada não fica fora de jogo mas tem sua prova de si levada ao extremo, até se tornar insuportável, sendo a angústia, nessa sofrimento crescente, o sentimento mesmo de não poder escapar a si-
o que facilita o nascimento de uma neurose é a incapacidade de suportar por tempo considerável um recalque um tanto considerável da libido
Na medida em que uma libido acumulada e não empregada se dá a sentir em todas as partes de seu ser a ponto de não poder mais se suportar, ela não é senão a vida, sendo assim o cumprimento da libido, buscado na liquidação das energias investidas rumo ao estado zero, apenas a liquidação da própria vidaO freudismo é o último marco dessa história que, contestando a definição do homem pelo pensamento, descobre em seu mais profundo a vida, mas não a tomou em conta senão para liquidá-la, revelando-se aqui a significação da entropia do esquema especulativo inicial do ProjetoEnquanto representante de um sistema energético que tende à abolição das quantidades que o constituem, a vida não é senão o movimento dessa autodestruição, o esforço rumo à própria morte, traindo esse movimento as determinações afetivas mais profundas da vida fenomenológica-
tudo o que vive retorna ao estado inorgânico, morrendo por razões internas: o fim de toda vida é a morte
Além do princípio de prazer introduziu pulsão mais profunda, a pulsão de morte, tendência inerente a todo organismo vivo de restabelecer estado anterior, sendo esse rodeio pela compulsão de repetição desnecessário se a pulsão de morte apenas reafirma os pressupostos que sempre guiaram a doutrina, dando as mãos Além do princípio de prazer e o Projeto de 1895Contra a morte resta Eros, cuja função é preservar a coesão de tudo que vive, mantendo a vida por meio do aumento das energias investidas, numa espécie de revolta contra a própria lei entrópica, opondo-se assim Eros ao prazer cúmplice da morteDessas contradições enormes Freud não se dá conta, articulando sem transição a celebração de Eros com a repetição obsessiva do princípio entrópico, associando a renovação da vida por afluxo de novas excitações à hipótese de que o processo vital tende internamente à morteAlém dessas contradições e oscilações, o que se mantém e desenvolve sua essência não é senão a vida, capaz mesmo em sua penúria de fazer mais fortemente a prova de seu ser, embriagar-se e gozar de si, sendo o prazer de morrer contradição nos termos por ser forma da vida e a ela pertencerFreud apreendeu da vida apenas seu fundo obscuro, o lugar das primeiras angústias onde, acossada a si, ela só pensa em fugir, seguindo-a até o fim nesse caminho de liquidação de si sem reconhecer nela senão o rosto atroz da pulsão de morte, já presente no Projeto de 95Não viu o sentido desses começos difíceis: que a dor pertence à edificação interior do ser e o constitui, que esse nascimento é transcendental, que o insuportável é indissociável da embriaguez e a ela conduzResumindo: o inconsciente não existe, se descontarmos que quase todo representado se encontra excluído da representação, sem por isso subsistir sob forma de representações inconscientes, entidades para as quais o freudismo imaginou destinos fantásticosQuanto ao inconsciente que designa a vida, não se pode reduzi-lo à negação vazia do conceito formal de fenomenalidade, sendo antes o parvir inicial em si do ser sob forma de afeto, seu próprio acréscimo de si, sendo as quantidades de excitação apenas expressão imagética energética do pathos fundamental dessa vidaUma das intuições decisivas de Freud, que o situa na linha de Schopenhauer e Nietzsche, é que esse pathos da vida determina sua representação e por consequência o recalque e o retorno do recalcado, aflorando esse primado da afetividade nos melhores textos sobre lembranças tenazes e sobre o afeto que renasce antes de seu conteúdo representativoA própria cura não mostra que a representação, pelo analisado, de sua situação não serve de nada enquanto a condição dessa consciência, uma modificação da vida, não sobreveio? Que o inconsciente seja o lugar do primeiro aparecer como vida e afetividade, é o que Freud reconhece sem querer ao explicar as concepções mitológicas e religiosas como projeção da realidade psíquica que supõe uma consciência obscura do que projeta-
cita-se a passagem sobre o conhecimento obscuro dos fatos psíquicos inconscientes que se reflete na construção de uma realidade suprassensível
Essa percepção endopsíquica, esse conhecimento obscuro do inconsciente e sua afetividade fazem desmoronar todo o aparato dogmático do freudismo, designando-o como pensamento da vida incapaz de se igualar a seu próprio projetoUma determinação radicalmente fenomenológica da realidade psíquica, contudo, não deixa em suspenso dificuldades últimas?estudos/henry/gp/homem.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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