A Estrutura Finita da Linguagem
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A teoria da transformação de Walter Ong e Eric Havelock focaliza as mudanças psíquicas concomitantes com desenvolvimentos históricos na tecnologia das mídias.
A teoria não postula que as tecnologias da linguagem seriam as causas de transformações no pensar, nem considera as tecnologias da linguagem como sintomáticas de mudanças culturais mais profundas.
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Prefere propor uma mútua e concomitante origem: a expressão de um mundo histórico é ao mesmo tempo um fator de configuração dentro do próprio mundo.
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Não se aprofunda a noção de mundo, como em Heidegger.
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Segundo a teoria da transformação desses autores, o processamento da palavra (ou como se usa dizer, o processamento de texto) já glorificado pela máquina de escrever, inaugura importantes mudanças na maneira como a verdade é modelada publicamente e em como o discurso (o logos) é aceito e visto como algo crível.
A máquina de escrever enquanto passo importante na “tipificação” da linguagem na forma escrita, potencializada pela sua implementação em processadores de texto, intensifica a tipificação da escrita.
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Seria possível pensar em uma metafísica da tipificação, integrada a moderna noção de verdade e própria do mundo contemporâneo?
Não através da teoria da transformação.
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Falta clareza na teoria da transformação até que ponto a perspectiva histórica da teoria se assenta sobre o pressuposto de camadas acumulativas e articuladas de habilidades e capacidades humanas.
O pensamento de Hegel de uma Erinnerung, uma memória cultural, parece orientar este pressuposto: a história seria redimida através da constante assimilação de novas habilidades e experiências por uma humanidade auto-perfectível.
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A contribuição de Martin Heidegger para o estudo da nova “escrita tecnológica” pode ser avaliada através do exame de alguns aspectos de sua filosofia:
a noção de mundo
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a essência da técnica moderna (Gestell)
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a concepção de história.
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Nos termos elaborados por Heidegger em sua análise da existência humana oferece-se um contraponto à teoria da tecnologia transformativa de Ong.
Sua principal obra, Ser e Tempo, é uma filosofia da finitude cultural.
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Finitude é o tema de Heidegger não apenas na análise existencial do um indivíduo, onde o Dasein(referência ao homem) confronta-se com a possibilidade de não existir mais e suas decisões irrevogáveis.
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Finitude é ainda mais profundamente a finitude (external link) do ser, na particularidade de uma certa abertura da realidade.
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A existência finita apreende a realidade, e nesta apreensão transiente, a abertura do ser, do que é, se dá.
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Na medida que este se dar é tido como dado a verdade do ser não é mais autêntica mas uma “verdade eterna”, acima da responsabilidade de um ser finito.
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Neste sentido, o ser é finito em cada apreensão da realidade, em cada abertura do que é.
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O horizonte no qual o ser se abre é a temporalidade.
Temporalidade deve ser entendida como tempo transcendente ou movimento transcendente, na medida que não é movimento de algo particular, mas condição de algo se mover dentro do tempo.
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Temporalidade é o fundo do qual o ser pode aparecer e ser apreendido.
Ou seja, tempo é intrínseco ao ser e assim a tudo que aparece no mundo do mesmo modo que a abertura da verdade ocorre e é um evento - no sentido transcendental do evento que torna possível qualquer evento.
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Assim sendo, mundo com aparecimento do ser é o contexto corrente no qual as coisa são geradas, distinções feitas e conexões estabelecidas.
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Mundo é um complexo de envolvimentos, uma projeção pré-teórica e pré-consciente que é finita.
Mundo tem uma trajetória específica com início e fim.
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A mundanidade do mundo, sua ocorrência contínua, implica um passado ou herança, assim como uma projeção de conjunto de escolhas em um futuro.
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O histórico não significa um conjunto de dados mortos.
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Mundos são históricos no sentido de terem passados e futuros reais que definem e delimitam o mundo como uma matriz existencial de coisas possíveis e de atividades possíveis.
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Mundo é o lugar onde coisas se configuram, incluindo a substanciação de objetos, a consciência de subjetividade e a coerência de pensamentos e ações.
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“Ser é intimamente conectado com tempo de modo que cada mundo tem sua temporalização peculiar das coisas; o modo específico no qual as coisas se reúnem dentro da circunscrição de um humor característico ou tipo de disposição.
Assim é que mundos históricos podem diferir profundamente entre si.
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O modo como as coisas vêm à presença vis-à-vis o tempo, o modo de temporalidade ou o 'tempo da vida', define um dado mundo histórico e sustenta seu projeto junto, em um todo distinto.
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O tempo, em seu sentido transcendental, contrai de um modo específico para individualizar cada mundo e dispô-lo em épocas e períodos reunidos por um sentido comum metafísico ou uma forma de apreensão da realidade.”
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“Mundo no sentido existencial, então, admite uma pluralidade, uma variedade de modos nos quais o tempo transcendental pode ser contraído em uma determinada 'presença de entes'.
Existem surpreendentes rupturas na história das apreensões da realidade. Estas rupturas constituem a “história do Ser” epocal.
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Entes são desencobertos através do tempo, ou o tempo é o processo auto-desencobridor de apreensões da realidade.
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As habilidades requeridas pelas demandas feitas em um mundo existencial, com suas solicitações específicas de atenção e preocupação humanas, não são totalmente compatíveis com as demandas de outro mundo existencial.
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A teoria de transformação epocal de Heidegger leva em conta o deslocamento de habilidades e a reorganização das energias da vida que criam sobressaltos na cultura humana.”
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Como Hegel (e Ong), Heidegger leva a sério as mudanças epocais em compromissos culturais.
Ao invés de séries de desenvolvimento de melhorias sistemáticas, as transformações epocais podem ser compreendidas como conjuntos de caminhos finitos que desenvolvem, avançam, e se perdem quando novos caminhos são abertos por técnicas e habilidades consideravelmente diferentes.
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Os caminhos abertos são finitos no sentido que preocupações humanas projetam novas e diferentes direções de desenvolvimento enquanto projetos prévios são dissolvidos ou tomados em modalidades que obscurecem ou transformam impulsos originais de projetos anteriores.“
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“Conectando a verdade com o mundo existencial, a filosofia de Heidegger implanta limitações intrínsecas no núcleo da verdade.
A verdade dos entes é sempre inerentemente parcial já que o processo de revelar e desencobrir as coisas é fundado nas limitações intrínsecas de suas definição finita.
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A verdade, então, é simultaneamente uma revelação e um encobrimento ao mesmo tempo.
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A verdade não se restringe a proposições e afirmações.
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É a articulação primordial do mundo, do contexto de envolvimentos dentro dos quais pessoas e objetos tornam-se coisas definitivas.
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Como verdade da articulação primordial, o mundo existencial é a linguagem primal.”
