HAUGELAND (2013:11-12) – EXISTIR É SER INSTITUÍDO
A “essência” do Dasein está em sua existência. (SZ 42)
“Existência”, é claro, é uma das noções técnicas básicas de Ser e tempo; não é, de forma alguma, o mesmo que “ser real” — de fato, elas são contrastadas. A realidade é o modo de ser da res tradicional, a “coisa” ou substância independente. O Dasein, já deve estar claro, não é uma coisa em nenhum sentido tradicional; ele não é real, mas existe. Da mesma forma, os elétrons e as galáxias não existem (mas são reais). O contraste não é ingrato em nenhuma das direções — existem genuinamente entes (entidades) existentes e reais. Tampouco é, estritamente falando, exaustivo: as parafernálias mutuamente definidoras (interdependentes) não são nem reais (coisas independentes) nem existentes (Dasein), mas estão “disponíveis”, e há outros modos também.
Grosso modo, existir é ser instituído, mas Heidegger não coloca as coisas dessa forma. O mais próximo que ele chega de uma definição é mais ou menos assim: algo existe se o que (ou “quem”) ele é, em cada caso, são seus próprios esforços para compreender o que (ou quem) ele é (ver, por exemplo, SZ 53, 231 e 325). Agora, pode haver alguma plausibilidade em dizer que quem somos é, em parte, uma função de nossa autocompreensão: sou um pacifista ou um fã de beisebol se achar que sou. Mas nada do que eu possa pensar me tornaria imperador, muito menos Napoleão, e muito mais do que a minha autoimagem parece estar envolvido no fato de eu ser um Professor de filosofia, um aficionado por eletrônica, um homem de meia-idade e assim por diante.
[HAUGELAND, J. Dasein disclosed: John Haugeland’s Heidegger. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2013]
