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Tecnologia e Responsabilidade

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Tecnologia e Responsabilidade: Reflexões sobre as Novas Tarefas da Ética

1. A ética tradicional baseava-se em premissas interconectadas que agora não são mais válidas: a condição humana era vista como imutável, o bem humano como prontamente determinável e o alcance da ação e responsabilidade humanas como estreitamente circunscrito, exigindo, portanto, uma mudança radical na própria natureza da ética para acompanhar a natureza qualitativamente nova de certas ações humanas.

2. As novas tecnologias alteraram fundamentalmente a natureza do agir humano, exigindo uma análise da diferença entre a tecnologia moderna e a de épocas passadas, o que é ilustrado pelo famoso Coro da Antígona de Sófocles.

3. O hino de Sófocles ao homem destaca sua capacidade violenta de invadir a ordem cósmica, mas também sua habilidade de construir a civilização, mostrando que, apesar de sua engenhosidade, o homem permanece pequeno diante dos elementos, e seus ataques à natureza são superficiais e não alteram o equilíbrio estabelecido do cosmos.

  • A natureza, como a Terra e o mar, é imutável e indiferente às ações humanas, que não podem prejudicar sua essência.
  • A cidade dos homens é um enclave precário dentro da natureza, e a inconstância da fortuna humana garante a constância da condição humana, com o destino final sendo o mesmo de sempre.

4. As características relevantes da ação humana tradicional para comparação com o estado atual são: a ética neutra em relação à natureza, o foco antropocêntrico, a constância da essência humana, a proximidade dos fins da ação (no tempo e no espaço) e o fato de que todo o domínio da responsabilidade ética estava confinado à cidade dos homens.

  • O trato com o mundo não-humano era eticamente neutro, pois não causava danos permanentes à natureza e não era visto como o objetivo principal da vida humana.
  • A ética tradicional era antropocêntrica, focando nas relações diretas entre os homens.
  • A entidade “homem” e sua condição básica eram consideradas constantes e não sujeitas à técnica.
  • O bem e o mal estavam próximos da ação, com um curto alcance de previsão e controle, e a ética lidava com situações imediatas e recorrentes da vida privada e pública.

5. As máximas da ética tradicional, como “Ame o próximo”, operam em um universo ético de contemporâneos, onde o agente e o outro compartilham um presente comum, com horizontes de tempo e espaço limitados pela vida das pessoas.

6. O conhecimento necessário para a moralidade tradicional, além da vontade moral, era acessível a todos os homens de boa vontade, dispensando ciência ou filosofia, e não exigia uma previsão teórica, pois o bem ou mal da ação era decidido em um contexto de curto prazo.

7. Com a tecnologia moderna, a situação mudou decisivamente, pois ações de escala, objeto e consequências inéditas tornam o antigo quadro ético insuficiente, exigindo uma nova dimensão de responsabilidade, mesmo que as antigas prescrições ainda valham para as relações interpessoais imediatas.

8. A vulnerabilidade crítica da natureza à intervenção tecnológica humana altera o conceito de agência causal, fazendo da biosfera inteira um novo objeto de responsabilidade, o que exige uma reflexão sobre o tipo de obrigação que temos para com a natureza, que vai além da mera utilidade e do foco antropocêntrico.

  • A preservação da natureza, pelo impacto que tem no destino humano, ainda mantém um foco antropocêntrico, mas a contiguidade do aqui e agora é destruída pela propagação espacial e temporal das cadeias de causa e efeito.
  • O caráter cumulativo e irreversível dos efeitos tecnológicos cria situações sem precedentes, exigindo que a ignorância sobre as consequências deixe de ser um álibi e que o conhecimento se torne um dever primordial.

9. A nova natureza da ação humana pode implicar que a obrigação ética se estende além do interesse humano, considerando a natureza extra-humana como algo que tem uma reivindicação moral própria, o que exigiria uma revisão dos princípios éticos básicos e uma reconsideração da visão científica da Natureza.

10. O crescimento da técnica como empreendimento infinito e central na vida humana tem significado ético, pois altera a autoconcepção do homem, que se vê cada vez mais como “fazedor”, levando a um desequilíbrio na natureza humana e a uma contração de sua autocompreensão, exigindo imperativos de um novo tipo que invadam o domínio da política.

  • A tecnologia, como um impulso auto-transcendente, assume um lugar central no propósito humano, transformando o “homo faber” no triunfante sobre o “homo sapiens”.
  • O sucesso da tecnologia cria uma armadilha, ascendendo uma faceta da natureza humana em detrimento das outras, enquanto o horizonte de responsabilidade se desloca para o futuro indefinido, em vez do contexto contemporâneo.
  • A fronteira entre “cidade” e “natureza” é obliterada, e o artifício total gera uma nova “natureza” com a qual a liberdade humana deve lidar, tornando possível o perecimento do mundo pelas ações humanas, exigindo novas leis para a cidade total.

11. O imperativo kantiano, baseado na consistência lógica da universalização da máxima, é insuficiente para lidar com as questões do futuro distante, pois não há contradição lógica em sacrificar o futuro pelo presente, exigindo um imperativo de tipo muito diferente, que se baseia na obrigação de assegurar a permanência da vida humana no planeta.

12. Um novo imperativo para a ação tecnológica poderia ser: “Aja de modo que os efeitos de sua ação sejam compatíveis com a permanência da vida humana genuína”, ou, negativamente, que não destruam a possibilidade futura de tal vida, incluindo a totalidade futura do Homem entre os objetos da vontade, um imperativo voltado para a política pública e não para a conduta privada.

13. O novo imperativo difere do kantiano ao invocar a consistência dos efeitos com a continuidade da agência humana, em vez da consistência lógica da ação em si, e considera a universalização não como um experimento mental, mas como a real amplitude de eficácia das ações coletivas, adicionando um horizonte de tempo ao cálculo moral.

14. A nova ordem de ação humana exige uma ética de previsão e responsabilidade, especialmente porque o próprio homem se tornou objeto da tecnologia, com a possibilidade de modificar as condições da existência humana, como a mortalidade, exigindo novas reflexões éticas.

15. A possibilidade de prolongar a vida humana indefinidamente levanta questões práticas sobre a elegibilidade e quem se beneficiaria, bem como questões mais profundas sobre o significado da finitude, o equilíbrio entre morte e procriação, e o valor de um mundo com juventude e novidade.

16. Se a morte fosse abolida, a procriação também teria que ser abolida, resultando em um mundo de velhice sem juventude, levantando a questão de se a renovação eterna da vida é uma salvaguarda contra o tédio e a rotina, e se um limite não negociável de tempo é necessário para dar significado à vida.

17. O controle do comportamento por meios químicos ou elétricos, embora com fins aparentemente benéficos, levanta questões sobre a dignidade da pessoa, a autonomia, e a passagem do uso médico para o social, exigindo uma reflexão sobre a imagem do homem e o valor da experiência humana.

18. A engenharia genética para modificar a evolução humana apresenta a questão mais séria sobre o direito e a qualificação do homem para assumir um papel criativo, exigindo respostas sobre quem seriam os criadores de imagens, por quais padrões e com base em que conhecimento, antes de embarcar nessa jornada.

19. O traço comum nos exemplos é o impulso “utópico” das ações sob a tecnologia moderna, que nos força a escolher entre extremos de efeitos remotos, fechando a lacuna entre questões cotidianas e questões últimas, e exigindo sabedoria justamente quando há menos crença nela.

20. A nova natureza do agir exige uma nova ética de responsabilidade de longo alcance, mas também uma nova humildade, ditada pela magnitude excessiva de nosso poder em relação à nossa capacidade de prever e avaliar, e a ignorância sobre as implicações últimas torna-se uma razão para a contenção responsável.

21. A insuficiência do governo representativo para lidar com as novas demandas reside no fato de que apenas os interesses presentes são ouvidos, enquanto o futuro não tem representação, o que coloca a questão de que força ou que conhecimento de valor deve representar o futuro no presente.

22. A era moderna, ao mesmo tempo que concedeu poderes que precisam ser regulados, erodiu os fundamentos para derivar normas, destruindo a própria ideia de norma, deixando a ética para ser fundamentada na razão e na filosofia, em meio a um niilismo onde a onipotência se aproxima do vazio.

23. A questão de se a restauração do sagrado é necessária para uma ética capaz de lidar com os poderes extremos que possuímos permanece, mas a religião já não está lá para ser convocada, deixando a ética para se firmar em seus próprios pés mundanos, a razão, pois, enquanto os homens agem, a ética deve existir para ordenar as ações e regular o poder de agir.

24. O poder de agir exige regras éticas adequadas ao seu tipo e tamanho, e, como as ações tecnológicas já estão em curso, a pressão para buscar novas prescrições éticas é iminente, cabendo àqueles que fazem do pensar seu ofício a tarefa de determinar a ética correta para o nosso tempo, sob o risco de ficarmos com uma errada por omissão.

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