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Problema psicofísico

JONAS, Hans. Poder o impotencia de la subjetividad. Barcelona: Paidós, 2005.

IV. Anotações complementares

1. As anotações complementares restringem-se à tentativa de solucionar o problema psicofísico e mantêm intacta a crítica precedente ao epifenomenalismo, pois qualquer alternativa que reconheça o poder inalienável da subjetividade deve admitir uma interação efetiva entre espírito e matéria, cuja possibilidade depende da superação do argumento físico da incompatibilidade.

  • A influência da matéria sobre o espírito já é testemunhada pela percepção e não necessita ser especialmente defendida.
  • A dificuldade concentra-se na possibilidade de o espírito atuar sobre os processos físicos sem violar a causalidade natural.
  • O conflito foi produzido pela física teórica e deve ser resolvido mediante revisão interna de suas próprias categorias.
  • A mecânica quântica, e não a mecânica clássica, oferece o terreno apropriado para reconsiderar a pretensa autarquia causal da matéria.

2. A teoria quântica permite alcançar o resultado negativo de suprimir a incompatibilidade absoluta entre causalidade física e codeterminação psíquica, mas ainda não fornece um modelo positivo capaz de representar teoricamente como ocorre a passagem operativa entre os domínios físico e espiritual.

  • A compatibilidade entre codeterminação e leis naturais pode ser admitida a partir da mecânica quântica.
  • A explicação efetiva da interação continua ausente.
  • A preparação do terreno conceitual permanece útil mesmo sem alcançar uma hipótese positiva conclusiva.
  • A investigação resulta do diálogo entre física matemática e filosofia, sob predomínio técnico da primeira e função interrogativa da segunda.

1. O argumento da incompatibilidade é válido no terreno da física clássica

3. A mecânica clássica, fundada numa causalidade estrita e inteiramente determinista, é incompatível com qualquer intervenção do espírito nos acontecimentos materiais, ainda que essa influência seja concebida como mínima, efêmera ou quase imperceptível.

  • A absorção e a devolução de forças físicas pelo espírito permanecem imagens excessivamente rudimentares.
  • A causalidade clássica não admite lacunas, indeterminações ou codeterminações externas ao encadeamento físico.
  • Caso o espírito seja algo distinto de um acontecimento material, sua atuação não encontra lugar na física pré-quântica.
  • O argumento da incompatibilidade conserva validade dentro dos pressupostos específicos da mecânica clássica.

4. O princípio físico de ação e reação não pode ser transferido sem modificação para a interação psicofísica, porque os efeitos mentais e as forças materiais são incomensuráveis e não mantêm entre si uma correspondência dinâmica semelhante à existente entre corpos.

  • Uma sensação subjetiva, como a percepção do vermelho, surge como consequência de um processo neurofisiológico, mas não exerce sobre esse processo uma reação física proporcional e contrária.
  • No domínio psíquico, relações causais como a passagem da fome ao apetite e deste à decisão não são relações entre forças mensuráveis.
  • Também a compreensão intelectual de uma verdade geométrica decorre de estados conscientes anteriores sem equivaler a uma troca energética.
  • A transação psicofísica deve possuir natureza distinta das interações entre entidades exclusivamente físicas.

5. Todo modelo da interação precisa reconhecer que a incomensurabilidade entre espírito e matéria impede a aplicação direta dos esquemas da mecânica corporal, embora a mecânica quântica seja mais tolerante do que a física clássica diante da suspensão provisória de uma representação positiva.

  • A dificuldade de construir um modelo não anula a necessidade de admitir a interação.
  • A mecânica quântica permite conservar aberta a possibilidade que a macromecânica determinista encerrava previamente.
  • Antes da teoria quântica, a exclusão da interação conduzia quase inevitavelmente ao paralelismo e, em seguida, ao epifenomenalismo.

2. Indivisibilidade dos poderes interno e externo da subjetividade

6. Na escolha de uma ação podem distinguir-se uma fase mental de decisão e uma fase corporal de execução, mas a autodeterminação interna do pensamento e a eficácia externa da vontade são inseparáveis, de modo que o poder ou a impotência da subjetividade devem valer simultaneamente em ambas as direções.

  • A decisão eleitoral pode formar-se mentalmente antes de qualquer manifestação corporal.
  • A execução posterior transforma a determinação mental em comportamento físico observável.
  • O problema psicofísico aparece manifestamente na passagem da vontade ao movimento corporal.
  • A autonomia interna do pensamento já impede que a primeira fase seja abandonada como assunto exclusivamente psicológico e causalmente irrelevante.

7. Embora o pensar ocorra mediante o cérebro e tanto a atividade intracerebral quanto a execução motora sejam processos físicos, somente a segunda produz transformações macroscópicas visíveis no corpo e no mundo, tornando o princípio desencadeante especialmente relevante para explicar a passagem da decisão à ação.

  • A atividade intracerebral permanece imperceptível de modo imediato.
  • O comportamento motor altera visivelmente o corpo próprio e o ambiente.
  • A passagem da vontade ao movimento macroscópico constitui o percurso exterior da dinâmica psicofísica.
  • O caminho inverso, da estimulação sensorial à percepção, permanece igualmente enigmático, embora não seja aprofundado nesse momento.

3. Aspectos da teoria dos quanta

8. A teoria quântica estabelece como princípio que o estado de um sistema não pode ser conhecido com perfeição suficiente para que todos os seus estados futuros sejam previstos de maneira inequívoca, não por imperfeição dos instrumentos, mas em razão da própria estrutura da teoria.

9. A função de Schrödinger permite calcular probabilidades de resultados futuros, mas não oferece a descrição integral do estado físico no sentido clássico nem determina univocamente qual resultado será efetivamente obtido numa medição posterior.

  • Conhecida a função em determinado instante, sua evolução pode ser calculada enquanto nenhuma nova medição ocorrer.
  • A função determina probabilidades, e não o acontecimento individual que se realizará.
  • Certos valores futuros possíveis podem ser delimitados rigorosamente, mas permanece indeterminado qual deles será atualizado.
  • O significado quântico de estado difere do ideal clássico de descrição completa e simultânea de todas as propriedades.

10. A causalidade quântica distingue-se da clássica porque não permite medir simultaneamente todas as grandezas do sistema e porque toda medição precisa transforma o estado que pretende conhecer.

  • Posição, velocidade, energia e outras grandezas não podem ser simultaneamente determinadas com precisão ilimitada.
  • Nenhuma série posterior de medições recupera integralmente os valores não obtidos na primeira.
  • A intervenção experimental substitui o estado anterior por uma nova descrição.
  • O conhecimento preciso de certas grandezas implica perda proporcional de precisão em grandezas incompatíveis.

11. O estado quântico é determinado apenas no sentido restrito de que um conjunto escolhido de grandezas compatíveis pode ser medido e previsto, enquanto o conhecimento completo do sistema e dos resultados futuros permanece impossível em qualquer instante.

  • A precisão de um grupo de grandezas reduz a precisão acessível do grupo alternativo.
  • O produto das incertezas permanece constante segundo o princípio de Heisenberg.
  • O ideal laplaciano de conhecer simultaneamente todas as propriedades e todos os estados passados e futuros não se aplica aos objetos quânticos.
  • A realidade descrita pela física quântica ultrapassa os limites de uma representação fisicalista completa.

4. Utilidade da teoria quântica para o problema psicofísico

12. A teoria quântica abre uma lacuna principial no conhecimento físico em cujo interior já não é legítimo apelar a um determinismo causal unívoco, permitindo reconsiderar a relação entre liberdade e necessidade sem preencher essa região desconhecida com afirmações dogmáticas.

  • A lacuna não resulta de ignorância provisória suscetível de eliminação técnica.
  • O desconhecido é delimitado pela própria estrutura formal da teoria.
  • A ausência de determinação unívoca enfraquece a pretensão de excluir previamente qualquer codeterminação não física.
  • A região aberta não demonstra a causalidade psíquica, mas impede sua rejeição automática.

13. As tentativas de empregar a teoria quântica na solução do problema psicofísico desenvolveram-se principalmente em torno dos conceitos de complementaridade e indeterminação.

a) Complementaridade

14. Niels Bohr concebeu a complementaridade como princípio próprio da teoria quântica e procurou estendê-la filosoficamente a outras antinomias, inclusive à relação entre liberdade e necessidade, embora sua transformação em instrumento universal tenha produzido aplicações excessivas e frequentemente vagas.

  • O princípio surgiu para descrever situações específicas do domínio quântico.
  • Sua generalização pretende solucionar dualidades em campos temáticos distintos.
  • O prestígio do conceito favoreceu seu emprego como fórmula lógica para problemas heterogêneos.
  • Sua candidatura à solução psicofísica precisa ser examinada segundo seu sentido original e não segundo analogias superficiais.

15. A complementaridade quântica significa que um sistema subatômico somente pode ser descrito por dois esquemas conceituais mutuamente excludentes, como partícula e onda, cada qual correspondente a tipos diferentes de observação e incapaz de ser simultaneamente aplicado com o outro.

  • Cada pergunta experimental seleciona uma classe determinada de fenômenos observáveis.
  • A descrição corpuscular e a ondulatória não são representações intercambiáveis do mesmo conjunto de dados.
  • As duas descrições são completas dentro de seus respectivos contextos experimentais.
  • Nenhuma delas pode incorporar os conceitos específicos da outra sem perder sua coerência.

16. O conhecimento mais preciso de uma grandeza impede o conhecimento equivalente da grandeza complementar, embora ambas sejam necessárias à descrição integral do fenômeno, de modo que sua verdade conjunta somente pode ser reconhecida em representações distintas e incompatíveis.

  • A medição da posição favorece a descrição corpuscular.
  • A medição do impulso favorece a descrição ondulatória.
  • Quanto maior a determinação de uma dimensão, menor a determinação da outra.
  • Partícula e onda constituem aspectos complementares da verdade física, mas não podem coexistir na mesma representação atual.

17. A aplicação analógica da complementaridade ao comportamento humano sugeriria que necessidade física e espontaneidade mental seriam descrições igualmente legítimas e incompatíveis de um único processo, cuja realidade permaneceria indivisa por trás das duas formas de objetivação.

  • A conduta poderia ser descrita externamente segundo causalidade corporal e internamente segundo motivos e liberdade.
  • As duas descrições seriam tratadas como simbólicas e complementares.
  • A realidade subjacente seria única, à maneira de uma substância portadora de atributos distintos.
  • A analogia parece inicialmente oferecer solução para o conflito entre corpo e alma sem exigir interação.

18. A analogia fracassa porque a complementaridade quântica exige descrições formalmente separadas e alternativas, enquanto o mental e o físico são dados simultaneamente, referem-se incessantemente um ao outro e não podem sequer ser descritos de modo independente.

  • Pensar, perceber, sentir, querer e agir possuem objetos pertencentes ao mundo físico.
  • Falar do espírito exige referência ao corpo, à matéria e ao ambiente.
  • A experiência de si mesmo inclui simultaneamente existência corporal e subjetiva.
  • A copresença entre os dois aspectos é originária, enquanto sua separação resulta de abstração posterior.
  • As descrições não correm em paralelo, mas cruzam-se continuamente.

19. A referenciação transitiva entre os domínios psíquico e físico demonstra que cada descrição introduz elementos da outra, eliminando a exclusão mútua indispensável à complementaridade quântica.

  • A sensação possui objeto e causa físicos e manifesta-se como experiência subjetiva.
  • O estudo físico de órgãos e processos cerebrais não pode ignorar indefinidamente suas funções perceptivas e mentais.
  • As propriedades sensíveis revelam capacidades do objeto físico e simultaneamente efeitos no espírito.
  • Corpo e consciência interferem conceitual e causalmente entre si em vez de permanecerem como representações alternativas isoladas.

20. A complementaridade quântica parte de dados físicos homogêneos e produz representações divergentes, enquanto o problema psicofísico parte de dados heterogêneos e procura compreender sua unidade, tornando oposto o sentido lógico das duas operações.

  • A física quântica divide conceitualmente uma realidade física segundo modos experimentais distintos.
  • A relação corpo-alma procura reunir teoricamente dimensões já dadas como distintas.
  • A aplicação extraterritorial do princípio enfraquece sua exigência de exclusão semântica.
  • A analogia formal não preserva a estrutura própria do conceito original.

21. A questão psicofísica não se refere a descrições complementares sem relação, mas à intervenção efetiva do espírito nos processos materiais, exigindo saber se a subjetividade codetermina a ação e como essa codeterminação ocorre.

  • Uma consciência meramente paralela seria apenas epifenômeno inocente dos processos corporais.
  • A investigação precisa distinguir entre acompanhamento passivo e influência causal reconhecível.
  • Perguntas sobre quando, onde e em que medida ocorre a atuação espiritual possuem sentido no problema corpo-alma, embora sejam absurdas para a relação partícula-onda.
  • A complementaridade é formalmente não intervencionista e, por isso, incapaz de formular o núcleo da questão psicofísica.

22. A diferença decisiva consiste em que partícula e onda não mantêm relação causal entre si, enquanto corpo e alma se encontram inevitavelmente relacionados, tornando inadequada qualquer analogia rigorosa entre a complementaridade quântica e o problema psicofísico.

23. A extensão filosófica da complementaridade deve permanecer no domínio em que possui significado preciso, pois sua aplicação ao corpo e à alma compartilha com o paralelismo de Espinosa a negação prévia da interação e apenas oferece versão conceitualmente refinada do mesmo impasse.

  • A complementaridade e o paralelismo rejeitam a interação como premissa.
  • A ausência de influência recíproca confere aparência de pureza teórica.
  • O determinismo físico conhecido tende inevitavelmente a dominar o domínio mental menos formalizado.
  • A matéria assume o papel causalmente forte, enquanto o espírito é reduzido à obediência.
  • O epifenomenalismo permanece oculto como consequência de toda forma de paralelismo psicofísico.

24. Ao negar previamente a interação, a complementaridade encerra uma decisão substantiva sobre o problema sob a aparência de princípio formal, ou então perde rigor e valor caso seja empregada de maneira vaga.

b) Indeterminação

25. O princípio de indeterminação oferece perspectiva mais promissora para a liberdade porque enfraquece o determinismo causal estrito, embora não baste por si mesmo para explicar a atividade ordenada da consciência nem sua eficácia na macroesfera.

  • A liberdade mental não equivale a aleatoriedade.
  • Pensar e decidir manifestam ordem, finalidade e orientação, e não simples indeterminação.
  • Um princípio de acaso não pode fundamentar a autodeterminação racional.
  • A indeterminação subatômica parece desaparecer nos fenômenos macroscópicos pela regularidade estatística dos grandes números.

26. A primeira objeção, segundo a qual a aleatoriedade quântica não corresponde à regularidade mental, pode ser enfrentada mediante a hipótese de que o espírito selecione, entre probabilidades subatômicas concorrentes no cérebro, aquela que corresponde aos seus fins.

  • A consciência não criaria necessariamente o espectro de possibilidades, mas inclinaria sua atualização.
  • O acontecimento físico individual seria orientado por uma finalidade psíquica.
  • A representação concreta do mecanismo permanece ausente e somente poderia resultar de construção especulativa.
  • A hipótese não contradiz a priori os dados nem as regras do domínio físico para o qual foi concebida.
  • A região além do verificável permanece aberta à especulação racional, embora acompanhada de riscos e sem garantia de êxito.

27. A segunda objeção, segundo a qual a indeterminação subatômica não alcança o comportamento macroscópico, pode ser enfrentada pelo princípio desencadeante, mediante o qual um acontecimento quântico único inicia uma cadeia de amplificação capaz de produzir efeitos corporais observáveis.

5. Aceitação própria da física quântica sobre o cérebro e a questão de sua replicabilidade

28. A hipótese de que acontecimentos quânticos sejam causalmente relevantes para a atividade cerebral e para o comportamento corporal produz a consequência de que um cérebro vivo não pode ser exatamente replicado, pois sua reprodução exigiria conhecimento completo de um estado quântico que é inalcançável por princípio.

  • Um cérebro fisicamente vivo não pode ser separado de sua dimensão psíquica por simples duplicação conceitual.
  • A ficção cartesiana de uma constituição física exatamente igual pressupõe acesso perfeito a todas as partes e estados do sistema.
  • A mecânica quântica impede esse conhecimento integral quando o cérebro é compreendido como sistema causalmente dependente de processos quânticos.
  • A replicação exata se torna teoricamente inconcebível, e não apenas tecnicamente difícil.

29. A imitação de um organismo permanece concebível apenas quando se reproduzem funções externas fragmentárias, mas é impossível demonstrar que um autômato possua constituição interna e subjetividade idênticas às do original.

  • A cópia pode reproduzir determinada combinação de funções.
  • A imitação nunca garante identidade dos fatores internos que produzem o comportamento.
  • Uma construção cartesiana perfeita exigiria conhecimento e reprodução exatos do sistema original.
  • Caso o comportamento manifeste subjetividade, o artefato somente poderia reproduzi-lo integralmente se também fosse subjetivo.

30. O comportamento de um robô continua sendo resultado de sua constituição física e do projeto humano incorporado à sua programação, razão pela qual sua semelhança externa com a conduta consciente não demonstra equivalência entre mecanismo artificial e cérebro subjetivo.

  • A intenção do construtor reaparece na organização funcional da máquina.
  • O robô reproduz efeitos planejados, mas não necessariamente a origem consciente desses efeitos.
  • O comportamento manifesto pode coincidir sem que os fatores causais internos sejam os mesmos.
  • A simulabilidade externa não comprova a ausência nem a duplicação da subjetividade.

6. Princípio de indeterminação, sucessão desencadeante e comportamento macroscópico: o gato de Schrödinger

31. O princípio desencadeante permite mostrar como um acontecimento quântico único pode iniciar sucessivamente processos de amplificação até produzir resultado macroscópico determinado, tornando fecunda para a questão psicofísica a passagem entre microindeterminação e ação corporal.

32. O experimento mental do gato de Schrödinger ilustra essa amplificação ao ligar a desintegração imprevisível de uma partícula a uma cadeia mecânica que culmina na morte ou sobrevivência de um animal.

  • Uma substância radioativa possui determinada probabilidade de desintegrar-se num intervalo definido.
  • A emissão ativa um detector e desencadeia mecanismos físicos sucessivos.
  • A cadeia pode romper um recipiente de veneno e matar o gato.
  • Um acontecimento subatômico singular determina desse modo resultado macroscópico visível.

33. A aplicação rigorosa da interpretação probabilística ao sistema completo conduziria à atribuição simultânea de probabilidades à vida e à morte do gato, mas a observação encontra sempre um animal efetivamente vivo ou morto, revelando a inadequação de converter probabilidades epistemológicas em coexistência física de estados macroscópicos.

  • O cálculo permite atribuir frações de probabilidade a resultados alternativos.
  • O estado real observado nunca corresponde a uma combinação parcial de vida e morte.
  • A condição macroscópica individual não é uma média estatística.
  • A probabilidade descreve a distribuição de resultados possíveis, não a composição ontológica de um único acontecimento.

34. O determinismo estatístico das grandes populações não elimina a singularidade do caso individual nem impede que um acontecimento quântico decisivo produza efeito macroscópico específico.

  • As regularidades populacionais pressupõem muitos casos particulares.
  • Cada caso individual atualiza uma alternativa concreta.
  • A previsibilidade estatística do conjunto não determina o resultado de cada elemento.
  • A passagem do microevento ao macroefeito já pertence às possibilidades reconhecidas pela própria física.

35. Um cérebro organizado de modo sensível a eventos quânticos poderia transformar uma indeterminação microscópica em determinação macroscópica da conduta, permitindo que a consciência atuasse nos pontos em que alternativas físicas igualmente possíveis se encontram disponíveis.

  • A organização cerebral funcionaria como sistema amplificador.
  • O psiquismo poderia exercer influência mínima sobre processos internos característicos do pensar.
  • A intervenção consciente não precisaria fornecer força macroscópica, mas apenas selecionar um desencadeamento.
  • A energia e o desenvolvimento posteriores permaneceriam submetidos às leis físicas.

36. A atuação psicofísica por meio de um acontecimento quântico desencadeante não violaria axiomaticamente nenhuma lei natural conhecida, embora sua compatibilidade não constitua demonstração da interação nem esclareça como a consciência exerce influência.

  • A física quântica retira a contradição absoluta sustentada pela mecânica clássica.
  • O argumento da incompatibilidade perde fundamento universal.
  • A possibilidade formal não equivale à comprovação factual.
  • O mecanismo da consciência permanece desconhecido.

7. Balanço da reflexão

37. O diálogo conduz somente ao resultado negativo de afastar a incompatibilidade absoluta, pois a hipótese de uma interação por meio de processos quânticos permanece possível, mas ainda carece de modelo positivo verificável e de representação inteligível de sua operação.

  • A solução requer atuação mínima e intencional do espírito em pontos de transição causal.
  • O princípio desencadeante explica a amplificação dos efeitos, mas não a natureza da passagem entre espírito e matéria.
  • A metáfora da parede osmótica e a hipótese quântica permanecem tentativas especulativas.
  • A retirada do obstáculo determinista já constitui resultado filosófico relevante.

38. O verdadeiro enigma não consiste em provar que a interação seja impossível, mas em compreender como ocorre uma relação cuja necessidade se impõe pela unidade da experiência e cuja forma permanece inacessível à descrição científica.

  • A consciência e o corpo não são séries independentes.
  • A experiência imediata testemunha causalidade psíquica e pertencimento corporal.
  • A ciência pode delimitar condições de compatibilidade sem apreender o modo íntimo da transição.
  • A ausência de solução não autoriza retornar ao epifenomenalismo.

39. O ignorabimus de Du Bois-Reymond pode permanecer como reconhecimento legítimo dos limites do conhecimento natural, desde que não seja transformado em argumento para negar a causalidade da consciência ou proclamar insolúvel a priori uma interação cuja possibilidade já não contradiz a física contemporânea.

  • A ignorância acerca do modo não equivale à impossibilidade do fato.
  • A dignidade da experiência subjetiva impede sua supressão em favor de uma teoria incompleta.
  • A incompatibilidade previamente presumida pode ser removida sem que se conquiste solução positiva.
  • O enigma preservado é teoricamente preferível a uma explicação que destrua a subjetividade.

40. A confissão de ignorância deve conservar-se como estímulo à investigação filosófica e científica, e não como razão para interromper o esforço especulativo diante da fronteira ainda aberta entre matéria, consciência, causalidade e liberdade.

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