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Pensar visual

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Visão e Pensamento: Uma Resenha de “Pensamento Visual”

1. O livro “Pensamento Visual” propõe uma tese teórica e um apelo prático, defendendo que a percepção visual é uma atividade cognitiva que envolve a coleta de tipos de coisas, ou conceitos, e que a presença dos sentidos é essencial para o pensamento, argumentando pelo cultivo dos sentidos na educação como forma de fortalecer o componente perceptual necessário para o pensamento produtivo.

2. A tese central é que as operações cognitivas do pensamento não são privilégio de processos mentais acima da percepção, mas ingredientes essenciais da própria percepção, especialmente da percepção visual, e que a visão é o meio primário do pensamento, unindo o que o dualismo tradicional mantinha separado.

3. A percepção de formas é um ato de pensamento desde o início, pois a percepção consiste em ajustar o material do estímulo a modelos de forma relativamente simples, chamados de “conceitos visuais” ou “categorias visuais”, e nenhuma percepção se refere a uma forma individual única, mas sim ao tipo de padrão do qual a percepção consiste.

4. A generalização e a abstração são características da percepção de forma que a tornam contínua com o conceito e o pensamento, e a abstração opera em fenômenos como a subtração do contexto, a complementação do incompleto, o endireitamento da distorção perspectival e a síntese de aspectos sucessivos para a percepção de uma forma tridimensional idêntica.

5. A abstração perceptual pode diferir da abstração lógica tradicional, pois não consiste na extração de elementos comuns, mas em perceber os particulares como deformações de uma estrutura subjacente, um feito cognitivo de alta complexidade que nos permite ver o momento como parte integrante de um todo maior.

6. A percepção visual não é puramente visual, pois é saturada com a experiência de outros sentidos e do corpo, como a experiência da gravidade e do tato, e a subtração dessa experiência deixaria a visão cognitivamente estéril, uma vez que a visão é superficial e limitada às aparências.

7. O conhecimento de corpos duradouros e substância resistente vem do comércio da ação, da experiência de resistência e inércia, e sem o manuseio prévio de corpos rígidos, a mera apresentação ocular de uma série de deformações não seria suficiente para produzir a forma sólida duradoura.

8. A abstração da visão em relação às experiências corporais inferiores é um ponto médio na escala entre a concretude mais densa e a abstração mais rara, e a afirmação de que a percepção visual é pensamento não implica que todo pensamento seja visual ou sensorial.

9. A tese de que todo pensamento é visual ou sensorial é problemática, pois a argumentação de Arnheim depende do conceito de “imagens do pensamento”, que são apresentadas como integrais ao pensamento e da família das formas visuais, mas a questão de se a mente sempre pensa “com” imagens é vaga.

10. O livro nunca distingue adequadamente entre a função representativa e a função puramente significativa do conteúdo sensorial no pensamento conceitual, perdendo o ponto do pensamento semântico, e a afirmação de que o pensamento deve ser baseado em imagens do mundo não implica que essas imagens sejam seu instrumento persistente.

11. O movimento de Arnheim da proposição correta de que “formas são conceitos” para a proposição altamente duvidosa de que conceitos são formas é problemático, e sua visão de que representações pictóricas são instrumentos adequados para o raciocínio abstrato e que os conceitos são uma espécie de representação pictórica é insustentável.

12. A noção de que a linguagem é vastamente inferior à visão como veículo do pensamento é infundada, pois a linguagem não está em competição com a percepção pela tarefa de representação por semelhança, mas superpõe a ela um reino de pura significação, não pictórico, livre dos laços da semelhança.

13. A função da linguagem não é meramente conservadora e estabilizadora, como afirma Arnheim, e o verdadeiro trabalho da linguagem é possibilitado pela emancipação do solo sensual e de toda intenção imitativa, sendo a superação da semelhança pictórica que libera os resíduos estilizados para funções semânticas.

14. A afirmação de que a linguagem serve como um mero auxiliar para os veículos primários do pensamento ignora completamente a diferença entre representação e significação, e a linguagem não é um concorrente da percepção para a tarefa de representação por semelhança.

15. A visão de Arnheim de que a função da linguagem é essencialmente conservadora e estabilizadora, tornando a cognição estática e imóvel, é uma visão pobre, pois a linguagem não é principalmente uma coleção de nomes fixos.

16. A linguagem é capaz de expressar pensamentos lógicos complexos, como o condicional irreal, que não têm representação perceptual, e o intelecto é o unificador nesse nível de cognição, não mais a percepção, ao contrário do que Arnheim toma como a relação entre intelecto e sentido.

17. Muitas palavras apontam para percepções, mas há conceitos abstratos de um tipo inteiramente diferente, como validade, proposição, significado, contradição, prova, probabilidade, possibilidade, contingência, necessidade, lei, direitos, deveres, interesses, reivindicações, justiça, virtude, mérito, culpa, crime e responsabilidade moral.

18. Esses conceitos, longe de serem derivados de experiências, tornam possível e governam as experiências apropriadas, e até mesmo tornam possível a própria existência de seus objetos, como no caso da justiça, que não pode ser reconhecida sem uma ideia prévia do que ela é.

19. Há pelo menos dois tipos de conceitos abstratos: aqueles em que o concreto vem primeiro e a abstração segue, e aqueles em que o conceito vem primeiro e a instanciação concreta segue, produzida a partir do conceito pela ação humana e reconhecida através dele pelo julgamento humano.

20. Sem o segundo tipo de conceito, não poderia haver discurso jurídico, nem seus próprios objetos, como leis, contratos, direitos e obrigações, e seus nomes não são meros rótulos fixados a coisas existentes de forma independente e anterior.

21. A iconografia da arte medieval pressupõe o ensino espiritual da fé cristã, onde as palavras e os conceitos “estão para” as percepções, e há o caso inverso de percepções que “estão para” conceitos, forma visível para verdade invisível, onde a “palavra” é primeira no sentido mais profundo.

22. Desenhos abstratos podem encontrar “expressão” para noções não visuais em formas visuais, mas isso não mostra que representações pictóricas são instrumentos adequados para o raciocínio abstrato, pois todo o raciocínio foi feito antes do início da “representação” de seus resultados.

23. A representação geométrica do quadrado de a + b fornece uma melhor intuição do que a notação algébrica, mas para potências mais altas o método visual é mais complicado e falha completamente, provando a superioridade do método não visual em todos os casos, exceto nos mais simples.

24. A geometria indiana pode oferecer exemplos de vislumbre direto da verdade de teoremas simples, mas o fato dos incomensuráveis e o conceito de números irracionais, que contradizem todas as expectativas e padrões visuais, escapariam para sempre se confiássemos apenas na análise visual.

25. Embora o livro de Arnheim ofereça muitos insights valiosos sobre a visão, sua ênfase excessiva no visual e seu subdimensionamento da linguagem e do conceito puro o levam a sobrecarregar a visão com reivindicações cognitivas que ela não pode satisfazer, comprometendo observações que, de outra forma, seriam sólidas.

26. A conclusão é que a causa da visão não precisa de tal inclinação da balança, e o amor que lhe é devido deve ser, antes de tudo, vidente, e é preciso deplorar as cegueiras do amante, pois a verdade com justiça é possível, sem que uma verdade seja obtida às custas de outra.

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