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Organismo em Espinosa

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Espinosa e a Teoria do Organismo

1. O dualismo cartesiano criou um impasse para a especulação sobre a natureza da vida, pois, embora a correlação entre estrutura e função no âmbito da res extensa se tornasse inteligível, a relação entre essa estrutura e função e o sentimento ou a experiência (modos da res cogitans) foi perdida na bifurcação, tornando o próprio fato da vida incompreensível.

2. O ocasionalismo, ao tentar resolver o impasse com uma “sincronização” divina entre o mundo exterior e o interior, falhou em seu propósito teórico, pois a máquina animal, como qualquer máquina, levanta a questão do “para quê” de seu funcionamento, e esse fim deve ser o fim de alguém, o que não é adequadamente explicado pela mera sincronização.

3. A ideia tradicional de que plantas e animais existem para o benefício do homem, embora nunca tenha sido uma boa ideia, tornou-se insustentável no novo cenário dualista e ocasionalista, pois o homem, o suposto beneficiário, era agora uma combinação inexplicável e extrínseca de mente e corpo, sem relevância inteligível de um para o outro.

4. A falha principal e o absurdo da doutrina cartesiana residiam em negar à realidade orgânica sua característica mais óbvia: o esforço próprio pela existência e realização, ou o fato da vida querer a si mesma, o que privou o reino da vida de seu status no esquema das coisas, apesar da evidência irrefutável de nossos atos psicofísicos.

5. Para superar a ruptura, três caminhos estavam abertos: dar primazia à matéria, dar primazia à mente ou transcender a alternativa com um novo conceito de substância, sendo a terceira escolha a de Espinosa, cujas implicações para uma filosofia do organismo são profundas, mas raramente notadas.

6. O princípio geral do sistema de Espinosa baseia-se no conceito de uma substância absoluta e infinita que transcende as especificações de extensão e pensamento, sendo a substância una e não partitiva, de modo que tudo o que é finito não é uma substância, mas uma modificação ou afecção da substância infinita, um “modo”.

7. A infinidade da substância envolve um número infinito de “atributos” que expressam sua natureza, e os modos, ou afecções, são determinações variáveis da substância em termos de seus atributos invariáveis, manifestando-se de forma equivalente em todos os atributos simultaneamente.

8. Para Espinosa, extensão e pensamento são atributos da mesma realidade, e o que para Descartes eram substâncias separadas e independentes são meros aspectos diferentes de uma mesma realidade, tão inseparáveis entre si quanto de sua causa comum, eliminando o problema da interação entre os dois reinos.

9. O interesse central de Espinosa não era uma doutrina do organismo, mas uma base metafísica para a psicologia e a ética, mas sua base metafísica permitiu-lhe explicar características da existência orgânica que o dualismo e o mecanicismo cartesiano não conseguiam acomodar.

10. Espinosa não foi mais compelido a ver os organismos como produtos de design mecânico, substituindo a ideia de propósito pela necessidade eterna da autoexplicação da natureza infinita de Deus, e a perfeição de um organismo é medida por seu poder de existir e interagir.

11. A imagem da “máquina” pôde ser abandonada, pois o metabolismo, entendido como o processo contínuo de autoconstituição da própria substância e forma do organismo, não tem análogo no mundo das máquinas, sendo a permanência do organismo uma permanência de processo, não de substância.

12. Espinosa busca responder ao problema da identidade orgânica afirmando que a identidade do indivíduo, que é um “modo” e não uma substância, reside na forma de determinância e no conatus evidenciado pela sobrevivência dessa forma em uma história causal, e não na persistência de partes materiais.

13. A individualidade de um composto consiste no padrão de composição e função, e sua identidade não está vinculada às identidades dos corpos mais simples que o compõem, sendo compatível com uma mudança de partes, que pode até ser o próprio meio pelo qual a identidade de certos indivíduos é sustentada.

14. Os lemas de Espinosa após a Proposição XIII da Parte II da Ética estabelecem que um indivíduo composto pode reter sua natureza sem mudança de forma, mesmo quando suas partes constituintes são substituídas, crescem ou se movem, o que se aplica ao metabolismo, ao crescimento, ao movimento dos membros e à locomoção.

15. A visão de Espinosa permite compreender o organismo como um fato de totalidade, em vez de um mero interjogo mecânico de partes, onde a identidade substancial é substituída pela identidade formal, e a relação das partes com o todo é o inverso do que é na visão mecanicista.

16. A identidade, na teoria de Espinosa, é a identidade de um todo que permanece o mesmo mesmo quando as partes mudam continuamente, e há graus qualitativos e quantitativos de individualidade, dependendo do grau de ordem diferenciada e da extensão numérica da inclusão.

17. O conceito de organismo evolui organicamente, sem ruptura, a partir da ontologia geral da existência individual, e os todos modais, continuando sua vida conativa na mudança de suas próprias partes e na troca com o todo maior, são tão produtivos quanto produzidos.

18. Ao considerar o aspecto interno, o monismo de Espinosa é ainda mais manifestamente superior ao dualismo cartesiano, pois a extensão e o pensamento são atributos pelos quais a essência infinita da substância é expressa, e a cada modo de extensão corresponde um modo de “pensamento”.

19. O princípio de que a todo indivíduo no mundo dos corpos corresponde um indivíduo do pensamento descarta as ideias cartesianas de que a “vida” é um fato apenas da física e de que a “alma” é um fato apenas do homem, tornando a alma um princípio coextensivo a toda a existência.

20. A universalidade do princípio não oblitera as distinções na natureza, mas oferece um meio especulativo para relacionar o grau de organização de um corpo ao grau de consciência que lhe pertence, ao contrário do dualismo, que não fornecia uma relação inteligível entre a perfeição da organização física e a qualidade da vida por ela sustentada.

21. O paralelismo psicofísico de Espinosa oferece uma teoria engenhosa de conexão entre o grau de organização e o grau de mentalidade, sem violar o princípio da não interação entre os dois lados, pois a alma é um modo individual de pensamento cujo objeto é um corpo individual existente.

22. O estado do corpo, que é o objeto da alma, é determinado por sua própria natureza formal e pelas afecções externas, e o grau de organização é precisamente o grau de capacidade de um corpo de ser afetado de maneiras mais ou menos variadas, distintas e adequadas.

23. A alma, sendo o correlato “ideia” de um corpo existente, tem um grau de distinção, diferenciação e clareza exatamente proporcional ao estado do corpo que é seu único objeto, e, através das afecções desse corpo, o estado mental correspondente terá consciência mediata do mundo.

24. A “alma” é concedida a animais e plantas exatamente com base no mesmo princípio que ao homem, mas não a mesma alma, e há tantos tipos e graus de alma quantos são os tipos e graus de organização vital, sendo a alma completamente conforme ao tipo de corpo cuja alma é.

25. A Proposição 7 da Parte II, a “Magna Carta” do paralelismo psicofísico, estabelece que a ordem e a conexão das ideias é a mesma que a ordem e a conexão das coisas, e a Proposição 13 e seu Escólio afirmam que o objeto da ideia que constitui a mente humana é um corpo, e que tudo o que foi provado é geral e se refere a todos os indivíduos, que são animados, embora em diferentes graus.

26. Espinosa afirma, em termos inequívocos, que os animais têm alma, ou seja, sentem, se esforçam, percebem e até pensam de certa forma, pois a mente não é uma espécie de substância, mas um atributo total da substância infinita, admitindo a mesma infinidade de modos diferentes que a extensão.

27. O princípio de uma gradação infinita de “animação”, coextensiva com a gradação da composição física, é estabelecido, e mesmo o completamente simples não seria desprovido de um mínimo de interioridade, pois à sua distinção deve corresponder a ideia “dele” em Deus.

28. A ideia de poder é fundamental na avaliação do lado corpóreo e do mental, fornecendo o padrão de perfeição, e maior organização do corpo e maior complexidade de sua ideia significam maior liberdade do indivíduo, tanto no corpo quanto na mente.

29. A “aptidão para fazer ou sofrer muitas coisas” expressa a visão de Espinosa sobre o caráter dual do organismo: autonomia para si mesmo e abertura para o mundo, espontaneidade pareada com receptividade, cujo aumento concomitante e interdependente é um paradoxo aparente, mas é precisamente a natureza da vida em seu sentido orgânico básico.

30. O fechamento do organismo como um todo funcional é, ao mesmo tempo, abertura correlativa para o mundo, e sua separação é a condição de sua integração com o todo, sendo a afetividade complementar à espontaneidade e fornecendo o próprio meio pelo qual o organismo mantém seu comércio vital com o ambiente.

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