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Mortalidade

JONAS, Hans. Évolution et liberté. Paris: Payot & Rivages, 2004.

A Mortalidade: Fardo e Bênção da Vida

1. A mortalidade é tradicionalmente vista como a marca distintiva dos humanos, que lamentam sua finitude e buscam a vida eterna, mas essa visão antropocêntrica negligencia o fato de que a morte e a vida são domínios que compartilhamos com todas as criaturas, e a mortalidade é uma marca essencial da vida em si.

2. O qualificativo “mortal” possui duas significações: a possibilidade permanente da morte para todo ser vivo e a necessidade final de que todo ser vivo deve morrer um dia, e a essas duas significações correspondem, respectivamente, o fardo e a bênção da mortalidade.

3. A possibilidade permanente da morte está intimamente ligada à constituição orgânica, pois os organismos são objetos cujo ser é seu próprio trabalho, e existem apenas em virtude do que fazem para continuar existindo, de modo que cessar de fazer significa cessar de ser.

4. O metabolismo é o fazer que caracteriza a vida, e a necessidade de trocar matéria com o meio revela que o ser do organismo é precário e exige uma constante reafirmação, e é por isso que a morte é uma possibilidade inerente à própria dinâmica vital.

5. No processo metabólico, a identidade do organismo não reside na persistência de um substrato material, mas na continuidade da forma através da troca de matéria, e essa independência em relação ao material, embora seja uma forma de liberdade, também implica uma dependência e uma necessidade que chamamos de “necessidade”.

6. A vida é uma existência que não é assegurada, onde o ser deve ser reconquistado a cada instante, e o não-ser entra no mundo como uma alternativa contida na própria existência, conferindo ao ser um sentido enfático que ele não possuía na matéria inanimada.

7. O organismo é livre, mas dependente; isolado, mas em contato; e está exposto ao perigo tanto pela potência quanto pela fragilidade do mundo, sobre a aresta estreita que os separa, e a angústia da morte é o fardo que pesa sobre a audácia dessa existência original.

8. A vida, ao dizer “sim” a si mesma, afirma seu próprio valor contra a ameaça do não-ser, e a mortalidade é a porta estreita pela qual o valor pôde entrar no universo indiferente, pois é a confrontação com o não-ser que permite que o ser se sinta a si mesmo e se afirme.

9. O preço da mortalidade é pago em troca da interioridade subjetiva, e o simples fato de ser consciente, de sentir, é a condição para que algo possa “valer a pena”, e essa capacidade de sentir é a qualidade da vida que deve ser preservada.

10. Os “meios” de sobrevivência, como a percepção e o sentimento, não são apenas meios para um fim, mas também qualidades da vida a serem conservadas, e a vida dotada de sentimento busca se conservar precisamente como tal.

11. A pergunta sobre se a soma de sofrimentos supera a de alegrias não é um critério válido para negar o valor da consciência, pois a simples presença de algo que vale a pena no universo compensa o tributo de sofrimento que exige em troca.

12. A certeza final da morte, o envelhecimento, não é uma característica universal da vida, mas é a regra nos níveis biológicos superiores, e a seleção natural utiliza a morte para promover a novidade, favorecer a diferença e filtrar formas superiores de vida.

13. A substituição das gerações é o motor da evolução cultural, e o mundo humano é um processo de contínua inovação que não se repetirá, e cada indivíduo é único e insubstituível, o que torna a morte a condição para que os jovens possam dar continuidade à aventura humana.

14. A luta contra a morte prematura é um dever da civilização, mas a tentativa de abolir a morte em si, prolongando indefinidamente a vida, entraria em conflito com a necessidade de renovação e com os limites da nossa capacidade de nos adaptarmos a um mundo em constante mudança.

15. O prolongamento indefinido da vida, mesmo que fosse fisicamente possível, entraria em conflito com o princípio da renovação e poderia levar a uma estagnação social, e a mortalidade é, portanto, uma bênção para a humanidade em seu conjunto.

16. A perspectiva de uma vida indefinidamente prolongada, mesmo que em boa saúde, é problemática devido aos limites da capacidade do cérebro e à nossa incapacidade de nos adaptarmos a um mundo em constante transformação, e a finitude é uma condição para a verdadeira identidade e o significado da vida.

17. Em relação ao indivíduo, uma vida indefinidamente prolongada, mesmo sem o fardo da senilidade, poderia levar à perda da própria identidade e ao tédio, pois estaríamos condenados a viver com o peso de um passado que nos afasta do presente.

18. A luta contra a morte prematura é um dever, e devemos nos concentrar em combater suas causas, mas a mortalidade em si é uma condição fundamental da vida que devemos aceitar, e a finitude nos incita a contar nossos dias e a dar a eles um significado.

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