Evolução e liberdade
JONAS, Hans. Évolution et liberté. Paris: Payot & Rivages, 2004.
Evolução e Liberdade
1. A tradição filosófica, focada no humano, atribui a ele como distinção única o que tem raiz na existência orgânica, e a biologia científica, limitada às realidades físicas, ignora a interioridade da vida, e essas duas perspectivas, separadas desde Descartes, são complementares e se reforçam mutuamente em detrimento da compreensão do humano e do orgânico.
2. As grandes contradições humanas, como liberdade e necessidade, têm sua pré-figuração nas formas mais primitivas de vida, e o tema comum a toda vida pode ser seguido em sua evolução através de um escalonamento contínuo de liberdade e perigo, culminando no homem, que pode obter uma nova compreensão de sua unicidade.
3. A multiplicidade atual da vida animal se apresenta como uma sucessão ascendente de graus, do primitivo ao desenvolvido, e o progresso pode ser interpretado pelos conceitos de percepção e de ação, que culminam no homem, com a inter-relação e interpenetração desses aspectos representando um tema constante para o estudo da existência animal.
4. Já o metabolismo, camada fundamental da vida, envolve uma forma elementar de liberdade, pois a substância viva se relaciona com a matéria de modo livre e depende dela ao mesmo tempo, estabelecendo uma relação de independência precária em relação à identidade material.
5. A liberdade básica do metabolismo significa a emancipação da forma em relação à identidade direta com o material, e a primeira aparição desse princípio, sob sua forma objetal elementar, significa a irrupção do ser no espaço ilimitado das possibilidades, colocado sob o signo da liberdade.
6. O privilégio da liberdade carrega o fardo da necessidade e significa existência em perigo, pois a substância viva se desprendeu da integração universal para se posicionar diante do mundo, introduzindo a tensão entre ser e não-ser, e o não-ser entrou no universo como uma alternativa contida no próprio ser.
7. O ser, flutuando no possível, é inteiramente o fato da polaridade, e a identidade é conquistada em um esforço permanente, cujo termo é predeterminado pela morte, que é a contradição fundamental da vida, mas parte inseparável de sua essência.
8. A doutrina da evolução marcou a vitória final do monismo sobre o dualismo, mas a continuidade da evolução, ligando o homem ao mundo animal, impediu que seu espírito fosse considerado uma irrupção de um princípio ontologicamente estranho.
9. O evolucionismo minou a construção de Descartes, e a indignação contra a origem animal do homem não percebeu que, pelo mesmo princípio, a totalidade do mundo vivo recebia algo da dignidade do homem, estendendo o império da “alma” a todo o vivente.
10. O princípio da continuidade qualitativa, que permite gradações infinitas de sombra e claridade na “percepção”, tornou-se um complemento lógico da genealogia científica do vivo, e a interioridade é coextensiva à vida, o que torna insuficiente uma interpretação puramente mecanicista do vivente.
11. A interpretação da vida como um fenômeno puramente físico deve ser rejeitada porque, sendo nós mesmos corpos vivos, dispomos de um conhecimento de dentro, e o ponto decisivo da vida, uma individualidade centrada em si mesma, escapa ao matemático divino que tem uma visão analítica homogênea.
12. Nos seres vivos, a natureza reserva uma surpresa ontológica, onde sistemas materiais são unidades do múltiplo, não graças a uma visão sintética, mas por si mesmos, e a totalidade é autointegração em ação, e a forma é a causa das acumulações de matéria que a constituem.
13. A identidade orgânica é um perpétuo renovar-se a si mesmo através de um processo, e a relação da forma orgânica com o material é de liberdade na necessidade, e a prioridade do material cede à prioridade da forma, que só a desfruta ao preço de uma dependência simultânea.
14. A identidade a si mesma, mero atributo lógico no inanimado, é no vivente um caráter de rica teneur ontológica, e a liberdade fundamental do organismo consiste em uma certa independência da forma em relação ao seu próprio material.
15. O primeiro passo da evolução foi, por meio do metabolismo, a emancipação da forma em relação à identidade direta com o material, e a evolução é o aumento dessa autonomia ou liberdade, onde cada passo representa a abertura de um novo horizonte de liberdade.
16. A identidade orgânica requer uma identidade interna do todo, transcendendo a identidade coletiva do substrato, e essa identidade interna é implicada na aventura da forma, e só a interpolação de uma identidade interna permite compreender a continuação do ser como autocontinuação.
17. O conceito de “si” mostra que a vida trouxe ao mundo uma identidade interna, e a ipseidade do organismo o coloca em tensão essencial com o todo das coisas, e o desafio da ipseidade designa tudo o que está além como “mundo”.
18. A liberdade orgânica é dialética, pois sua liberdade é contrabalançada por uma necessidade correlativa, e no metabolismo, o “ela pode” é um “ela deve”, e a vida é voltada para o mundo, e sua necessidade se dirige para o exterior, onde estão os meios de se satisfazer.
19. A transcendência da vida inclui a interioridade, que marca todas as experiências com uma ipseidade sentida, e a abertura para o mundo significa afetabilidade tanto quanto espontaneidade, e a vida é sensível para poder ser ativa.
20. A transcendência da vida também abre um horizonte de tempo, e a vida se encontra “além” de sua própria imediatidade em ambas as dimensões, espacial e temporal, e a presença espacial se ilumina à luz da iminência temporal.
21. A vida animal se distingue da vegetal pela liberdade de movimento, percepção e sentir, e a evolução dessas faculdades significa exploração crescente do mundo e individuação crescente do si, e a abertura ao mundo é uma condição fundamental de toda vida.
22. A percepção a distância e o deslocamento controlado fazem do espaço uma dimensão da liberdade, e o desejo é a raiz da perseguição, a raiz da fuga, e a separação entre pulsão e satisfação introduz um hiato no tempo, tornando possível a satisfação diferida.
23. Percepção, sentir e mobilidade são manifestações diferentes do mesmo princípio de mediatidade, e o hiato entre sujeito e objeto está na raiz de todo o fenômeno da animalidade, e a vida ela mesma suscita essa separação.
24. A resolução do hiato no espaço e no tempo se opera através da atividade mediata, e o movimento dirigido para o exterior representa uma despesa que só é recuperada pelo sucesso final, e a possibilidade de erro é correlativa à possibilidade do sucesso.
25. A mediatidade da existência animal gera o indivíduo isolado se posicionando face ao mundo, e a sobrevivência se torna uma questão de comportamento, e a vida animal é por essência um ser de paixão.
26. Os meios da sobrevivência, como percepção e sentir, não devem ser julgados apenas como meios, mas também como qualidades da vida a conservar, e a mediatidade crescente conquista uma maior margem de jogo ao preço de um maior risco.
