Individualidade
JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.
Fundamentos Biológicos da Individualidade
1. A tradição filosófica, ao conceituar o indivíduo, baseava-se na singularidade numérica e considerava a matéria, especialmente a matéria designada por dimensões quantitativas, ou o espaço e o tempo, como os princípios de individuação, resultando em uma concepção de individualidade como algo essencialmente externo e relacional.
2. Uma vertente alternativa da tradição, representada por Duns Scotus e Leibniz, buscava a individualidade na própria essência, atribuindo a cada entidade uma “forma de individualidade” ou uma essência inteiramente individual, mas essa visão tornava a individualidade algo demasiado imanente e absoluto, aplicável a todas as entidades concretas.
3. Em oposição às visões tradicionais que consideram o indivíduo a partir de fora, como objeto de conhecimento, propõe-se uma abordagem “de dentro”, definindo como indivíduos apenas as entidades cujo ser é uma tarefa própria, que são temporais em sua natureza mais íntima e que se diferenciam dinamicamente do outro.
4. A individualidade, como qualidade substancial e não apenas singularidade numérica, é um fenômeno orgânico e essencial para o organismo, manifestando-se em todos os graus no reino biológico e baseando-se em condições ontológicas que são descrições “de dentro”.
5. A identidade de uma partícula física, como o átomo dos atomistas antigos, baseia-se na continuidade de sua trajetória espaço-temporal, uma identidade externa e meramente persistente, que não requer um princípio interno e não envolve a manutenção ativa de si mesma como um ato de existência.
6. A identidade de um corpo material complexo é a coleção das identidades de suas partículas constituintes enquanto elas viajam juntas pelo espaço-tempo, uma identidade distributiva que pode ser verificada pela continuidade das trajetórias individuais.
7. No caso orgânico, a identidade do indivíduo persiste apesar da completa substituição de seus componentes materiais, e o biólogo considera a persistência do “rótulo” coletivo como a verdade, indicando que a identidade é real e possui uma qualidade diferente da identidade física.
8. O organismo vivo, embora coincida totalmente com sua matéria em um dado momento, não é idêntico a ela, pois está em um ato constante de passar além dela, e tampouco é idêntico à sucessão de composições materiais, pois é inteiro em cada um desses momentos, apresentando um paradoxo ontológico.
9. A identidade orgânica não pode ser explicada pela posse de uma “alma” como um substrato persistente, pois isso separaria o “vivo” do corpo e destruiria o objeto da investigação, que é o modo de ser do próprio organismo.
10. A identidade do organismo assemelha-se à do navio de Teseu, que preserva sua identidade pela continuidade da forma e da história, mas difere crucialmente porque no organismo as mudanças são efetuadas a partir de dentro, a necessidade de substituição é inerente à existência e a identidade é “possuída” e não “atribuída”.
11. A identidade orgânica não pode derivar do substrato material, nem da mera propagação de um padrão, pois a semelhança de forma é diferente da identidade do ser, e a individualidade requer uma identidade interna que exerce e desfruta da liberdade em relação à matéria.
12. O aspecto da “necessidade” é fundamental para a individualidade, pois a necessidade de constante autorrenovação é a outra face do poder da vida, distinguindo a auto-suficiência da matéria inerte da autossuficiência da vida, que é uma forma de liberdade.
13. A vida, por meio do metabolismo, envolve a polaridade do ser e do não-ser, do eu e do mundo, e da liberdade e necessidade, e a identidade interna que emerge com a vida estabelece uma profunda singularidade e heterogeneidade no universo.
14. A teleologia, como o concomitante da carência, está na base da individualidade, pois o organismo, que é essencialmente carente, deseja aquilo que o completa, mas sua completude é o próprio processo de existência, que é a dinâmica da carência e da satisfação.
15. A centralização funcional, já presente na organização nuclear da célula única, é aprofundada na vida animal, onde a individualidade perdida pela agregação de células é recuperada em um nível superior, manifestando-se na motilidade, na percepção e na emoção.
16. A distinção popular entre animal e planta, onde um se move e o outro está enraizado, simboliza as diferenças mais sutis de senciência, centralização, individualidade e liberdade, com a centralização sendo essencial para a vida animal e coincidente com a evolução da senciência e da motilidade.
17. A função dos órgãos dos sentidos é “relatar” a um centro comum, e o eu que vê, ouve e sente é pressuposto na posse desses órgãos, assim como a identidade do sujeito da senciência e da motilidade está implicada na organização animal.
18. A motilidade animal, especialmente com a evolução de membros articulados, envolve uma crescente mecanização e requer um sistema nervoso para a coordenação e controle das partes, estabelecendo um princípio de subordinação e superordenação que integra o organismo como um todo.
19. A centralização, inseparável da senciência e da motilidade, eleva a unidade e a individualidade do organismo a um nível inteiramente novo, e o sistema nervoso, como sistema de intercomunicação, constitui o “nível superior” que permite o controle integrado da motilidade.
20. A motilidade animal, em contraste com o movimento vegetativo, é rápida, ocasional, variável, reversível e opera em uma escala espacial maior, abrindo um horizonte de “mundo” e alterando a própria natureza do ambiente em que a vida se desenrola.
21. A variabilidade e a natureza revogável dos movimentos animais permitem uma identidade na mudança que é inacessível ao nível vegetativo, e a capacidade de reverter uma ação sem alterar a natureza do agente confere ao animal uma identidade mais robusta.
22. A centralização da organização animal traz à tona a “indivisibilidade” do indivíduo e marca a diferença ontológica entre animal e planta, com a mediação da relação com o ambiente, introduzida pela motilidade e percepção, aumentando a individualidade e a descontinuidade em relação ao mundo.
23. A maior individualidade do animal é uma medida de sua menor integração no ambiente, pois ser um indivíduo significa não estar integrado com o mundo, e o desenvolvimento da animalidade acentua a tensão entre o eu e o mundo, comprando maior escopo ao preço de maior perigo.
