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Imortalidade

JONAS, Hans. Entre le néant et l’éternité. Paris: Belin, 1996.

A Imortalidade e o Espírito Moderno

1. O espírito moderno é incompatível com a ideia de imortalidade, e as objeções que levanta, embora não sejam decisivas contra o objeto transcendental da ideia, minam o atrativo da significação, que é a única razão para uma possível crença, e a ausência desse atrativo é uma razão suficiente para a desconfiança.

2. Os fundamentos da crença na imortalidade na tradição grega, a sobrevivência na memória dos homens e na história, baseiam-se na confiança na comunidade política como depositária de um julgamento justo e perpétuo, mas o espírito moderno, ciente da manipulação da opinião pública e da corrupção da palavra, não pode mais partilhar dessa confiança inocente.

3. A fabricação da fama, a manipulação da história em função do interesse e do poder, e a perspectiva de que a infâmia possa alcançar a mesma imortalidade que a boa reputação, como no caso de grandes malfeitores, tornam a glória mundana um veículo não confiável para a imortalidade.

4. A imortalidade de influência, esperança de todo esforço sério, também se revela frágil, pois a causalidade do mundo não é um depositário fiel das ações, e a própria civilização humana, seu depositário, é perecível, invalidando a imortalidade de nome e de influência.

5. O conceito empírico de imortalidade, baseado na fama ou na influência, é invalidado pelo fato de que o veículo da imortalidade, a comunidade humana, é ele próprio mortal e ameaçado, tornando a sobrevivência do gênero humano incerta e nossa imortalidade pretensa dependente de eventos históricos contingentes.

6. O conceito não empírico de imortalidade, a sobrevivência da alma, coloca a questão do destino do homem como ser moral que pertence a uma ordem inteligível, mas a justiça, seja retributiva ou compensatória, não apoia a pretensão de uma existência infinita, pois o mérito e a culpa temporais exigem uma retribuição temporal.

7. A compensação por sofrimentos imerecidos ou oportunidades perdidas é problemática, pois o verdadeiro valor da vida reside nas condições de esforço, incerteza e unicidade, e a obtenção garantida do bem seria uma contrafação do que foi perdido.

8. A distinção entre aparência e realidade, que fundamenta a crença em um status metafísico além do sensível, é rejeitada pelo espírito moderno, que abraça o “solipsismo” da existência concreta e questiona a separabilidade do eu e do seu mundo, pois o que seria do eu sem seu mundo?

9. O espírito moderno, ciente da temporalidade essencial do ser, não se agarra a uma ideia de eternidade que não seja a da transitoriedade, e se precipita na corrente da mortalidade sem a segurança de uma corda de salvação, encontrando no duplo nada do antes e do depois sua única posição estável.

10. Embora a temporalidade não seja toda a verdade, pois o homem tem uma qualidade inerente de autossuperação, a eternidade deve ter outras relações com a temporalidade, e há momentos de transparência do temporal para o eterno que podem indicar o que em nosso ser escapa da mortalidade.

11. A experiência do instante da decisão, quando todo o nosso ser está implicado, é a chave para entender a relação com a eternidade, pois agimos sob o olhar da eternidade, sentindo que o que fazemos agora entrará para sempre em uma ordem transcendente.

12. A relação com a eternidade não se encontra no sentimento que perdura, mas na decisão, o momento mais fugidio do tempo, pois o que se estende no tempo está confinado em seus limites, enquanto o instante crítico da ação livre desafia a transcendência indiferente à duração.

13. O vínculo com a eternidade é representado pela ponta do instante, não pela expansão do fluxo, e o instante, como impulsor do movimento, expõe nosso ser à ausência de tempo, colocando o agente responsável entre a eternidade e o tempo.

14. A glória mundana, a retribuição no além e a moralidade prática de Kant, embora defectivas, apontam para a esfera da decisão e da ação como o lugar da relação com a eternidade, sugerindo uma “imortalidade das ações” como um conceito experimental.

15. O símbolo do “Livro da Vida” pode ser reinterpretado não como um registro de méritos pessoais, mas como uma memória eterna do tempo onde as ações se inscrevem, e o que acrescentamos a essa memória pode ser de importância capital para o próprio registro espiritual.

16. O símbolo da “Imagem” transcendente, como no gnosticismo, sugere que cada um tem um duplo celestial que cresce com suas ações, e a forma dessa imagem será aperfeiçoada ou desfigurada pelo que fazemos, ligando a responsabilidade pela imagem eterna da pessoa às ações temporais.

17. No maniqueísmo, a imagem celestial é a de Deus, e as ações humanas, boas ou más, contribuem para a completude ou deformação da imagem divina, e a conclusão do “Último Estatuto” é a própria perfeição do Deus invisível.

18. A evolução cósmica, desde as formas mais simples de vida até o homem, pode ser vista como uma lenta encarnação do divino, onde a vida, em sua diversidade, enriquece a realidade, e sua destruição empobrece a imagem de Deus.

19. A evolução biológica, com seu espetáculo de diversidade e adaptação, pode ser compreendida como um processo divino, mas o surgimento do homem, com seu poder de conhecimento e liberdade, introduz a responsabilidade pelo destino da imagem de Deus, e a transcendência se arrisca no jogo da ação humana.

20. O mito experimental proposto é que a transcendência se despertou com o aparecimento do homem e agora acompanha suas ações, esperando e sofrendo, pois o destino de Deus, a natureza do ser eterno, depende do que o homem fizer de si e do mundo.

21. Decorre dessa metafísica que a responsabilidade humana não é apenas mundana, mas se inscreve em uma dimensão onde a eficácia deriva de normas transcausais, e o homem pode construir ou destruir, salvar ou ferir a divindade, com consequências duradouras na imagem de Deus.

22. O indivíduo, sendo temporal, não é eterno, mas a ipseidade do instante é o meio pelo qual a eternidade se abre às decisões do tempo, e a finitude da vida é essencial para a urgência e a importância das escolhas.

23. O homem não tem uma pretensão moral ao dom da imortalidade, e a própria existência é um mistério, não um axioma, e a finitude não é um defeito, mas a condição da possibilidade da ação e da responsabilidade.

24. Ao renunciar à sua própria inviolabilidade, o princípio eterno permitiu que o mundo fosse, e o homem, em vez de exigir mais, deve agir para que Deus não se arrependa de ter criado o mundo, e a santidade oculta dos justos pode equilibrar a culpa infinita.

25. A memória dos mortos e a sombra do holocausto levantam a questão de se os que foram destruídos participam da imortalidade, e a imagem de Deus está em perigo como nunca antes, e a responsabilidade humana se estende ao reino eterno onde as ações nunca se dissipam.

26. A responsabilidade humana tem uma dimensão causal no mundo e uma repercussão no reino eterno, e a reciprocidade com a eternidade pode transmitir seu estado espiritual como uma disposição de espírito, e a tarefa de auxiliar o Deus imortal que sofre é a missão do homem no breve lapso de sua vida.

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