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História

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Mudança e Permanência: Sobre a Possibilidade de Compreender a História

1. A compreensão de ações e vidas passadas, como as de Aquiles, Sócrates ou dos primeiros discípulos, parece ser imediata e possível, mesmo sem experiência pessoal direta, mas a questão de saber se essa compreensão é correta, no sentido de como foi entendida por seus contemporâneos, introduz uma hesitação fundamental.

2. As respostas à questão da possibilidade da compreensão histórica variam entre um “sim e não”, refletindo a complexidade do problema, e essa ambivalência não é uma evasão, mas o reconhecimento de que há uma questão a ser perseguida.

3. Uma posição otimista afirma que a compreensão histórica é possível com base na existência de uma natureza humana permanente e invariável, uma “essência” do homem, que permite o conhecimento do semelhante pelo semelhante, fundamentando a inteligibilidade da história.

4. Uma posição oposta, moderna, nega a existência de uma essência humana definida, argumentando que o “homem” é produto de sua existência histórica e que cada situação é única, o que implica que a compreensão seria um conhecimento do outro pelo outro, e não do semelhante pelo semelhante.

5. Uma conclusão cética dessa posição radical é que a compreensão histórica verdadeira é a priori impossível, e que o que tomamos por compreensão é sempre uma tradução falsificadora que projeta a nós mesmos no passado, um “conhecimento do semelhante” que resulta em erro necessário.

6. Tanto a posição otimista quanto a cética concordam que a compreensão é um “conhecimento do semelhante”, mas diferem em que, para a primeira, isso significa a possibilidade da verdade, e para a segunda, o erro necessário da compreensão histórica.

7. Ambas as alternativas ontológicas sobre o homem são unilaterais, e há algo em cada uma que pode corrigir a outra: a ideia de uma essência humana é fundamental, mas a profundidade da mudança histórica exige que se reconheça a abertura do devir e a injustiça de medir tudo por um único padrão.

8. O conhecimento do absolutamente Outro é impossível, e para ser compreensível, o outro deve participar das premissas genéricas de nossas próprias possibilidades, que incluem a imaginação e a simpatia, sem coincidir com sua realidade contingente.

9. A visão cética de que a compreensão histórica é sempre falha é irrefutável, mas leva ao absurdo do solipsismo, pois os argumentos da alteridade e da unicidade se aplicam igualmente à compreensão do presente e de outros indivíduos, negando qualquer entendimento humano.

10. O ceticismo radical é autodestrutivo, pois seus defensores não podem esperar ser compreendidos, e também é inconsistente com o interesse pela história, já que a negação da compreensão a torna inútil, levando a um a-historicismo que nega a própria história.

11. A posição essencialista, mesmo que superficial, permite uma comunicação cognitiva com o passado que pode ensinar algo sobre a essência e sua amplitude, enquanto o ceticismo não pode justificar o estudo da história, a menos que seja para um mero exercício de projeção narcísica.

12. Cada uma das três posições abstratas tem um aspecto justificado: a doutrina da natureza humana permanente afirma a parentesco inalienável entre os homens; a doutrina da mutabilidade afirma a genuína alteridade e a necessidade de transcender o “conhecimento do semelhante”; e a doutrina do fracasso necessário afirma que o intérprete sempre se importa a si mesmo, deixando um resto de não compreendido.

13. Para explicar a compreensão histórica, é necessário reverter a opinião comum de que o conhecimento de outras mentes deriva da introspecção, argumentando que, na verdade, o conhecimento da própria mente e a própria existência de uma interioridade são funções do conhecimento de outras mentes.

14. A proposição de que a introspecção é a fonte primária para o conhecimento da interioridade leva a conclusões absurdas, como a impossibilidade de aprender com a literatura ou de reconhecer expressões básicas, como um sorriso, sem uma série incrível de operações mentais.

15. A compreensão original da interioridade dos outros não é inferencial, mas parte da percepção intuitiva da vida pela vida, uma característica fundamental da relação externa integral ao organismo animal, que reconhece outras vidas como vivas e envolve discriminação emocional.

16. O reconhecimento da vida é baseado na comunidade da natureza animal, e a percepção é possibilitada pelo feito espontâneo da expressão, que é primário e permite que a vida se exiba e se comunique, com rituais de postura e gesto servindo como sinais compreendidos sem ensino.

17. O homem não é exceção a essa base natural, e a comunicação não verbal com animais e entre humanos, como a leitura de um olhar, é intuitiva e não depende de informação científica, sendo o “reconhecimento do semelhante” uma verdade fundamental.

18. A compreensão humana, embora se baseie na comunidade orgânica, também envolve sistemas de símbolos inventados, culminando na fala e na imaginação, que abrem novas dimensões de compreensão, mas a “possibilidade” de ser humano nos permite entender experiências que nunca tivemos, despertadas por símbolos.

19. O conhecimento de outras mentes repousa no solo da humanidade comum, mas esse solo é eficaz não por fornecer paralelos entre o eu e o outro, mas por permitir que a voz do outro convoque as possibilidades latentes na alma do homem, que são reveladas através de chamados, principalmente na mutualidade da comunicação.

20. A natureza humana, como “possibilidade” em vez de fato determinado, depende a compreensão empática de experiências de outras almas que não podemos duplicar, e a linguagem, que conjura o até então inimaginável, é essencial para a poesia e a história, ligando o problema das “outras mentes” à filosofia da linguagem e da imaginação.

21. A peculiaridade da compreensão histórica não reside apenas na distância e na diferença do passado, mas na qualidade monológica da comunicação histórica, onde o passado falou sua palavra e não pode responder, ao contrário da reciprocidade do diálogo contemporâneo.

22. A incomunicabilidade do passado, que não pode se defender contra a interpretação, exige do intérprete um cuidado redobrado, e essa situação é análoga à compreensão de uma obra de arte, que também é uma entidade autoencerrada e monolítica.

23. A qualidade monológica do passado aguça a questão sobre o fundamento da possibilidade de compreensão, e a resposta reside em uma antropologia filosófica que identifica o que sempre é compreendido implicitamente em todos os encontros com a história, começando pela dimensão biológica.

24. A biologia fornece um conhecimento tácito universal: os homens do passado eram seres orgânicos que comiam, sentiam fome, dormiam, sonhavam, conheciam a dualidade dos sexos, a procriação, o envelhecimento e a morte, e também compartilhavam a postura ereta e a dependência dos olhos e das mãos.

25. Além da biologia, a compreensão do passado é guiada pelo reconhecimento de três produtos humanos fundamentais: a ferramenta, a imagem e a tumba, que indicam dimensões originais da relação do homem com o mundo e fornecem coordenadas universais para a interpretação histórica.

26. A ferramenta revela um ser que transcende a necessidade física pela invenção, a imagem revela um ser que transcende a percepção passiva pela representação e imaginação, e a tumba revela um ser que transcende a morte inescapável pela fé e pela piedade, dimensões que definem horizontes de possibilidade para a compreensão.

27. A linguagem é a base não nomeada de todos esses fenômenos, e é da essência da linguagem ser inteligível através de qualquer distância de tempo e ser traduzível para a própria, se o que é falado estiver, de outra forma, ao nosso alcance.

28. A palavra é o meio mais importante para o conhecimento do passado, e sua natureza paradoxal, como o mais geral e compartilhável de todos os atributos humanos e, ao mesmo tempo, o instrumento e recipiente da alteridade infinita, torna-a o objeto central da compreensão histórica.

29. A diferença entre a palavra escrita e a falada agrava a situação monológica, mas a capacidade da palavra de evocar, juntamente com sua narrativa, a ambiência total da qual surgiu, e a tradição formal da linguagem escrita, mitigam essa dificuldade.

30. A compreensão da história, como a compreensão da arte, exige uma reprodução ativa por parte do leitor, que desperta a palavra adormecida para uma nova vida através da simpatia, da imaginação e da razão, um poder que opera dentro dos limites da humanidade comum.

31. O que a simpatia e a imaginação evocam não são as experiências originais em si, mas sua realização vicária, um “conhecimento” peculiar que paira entre o abstrato e o concreto, uma resposta gerativa da imaginação à convocação de fora, análoga à experiência do espectador de uma tragédia.

32. A compreensão histórica repousa sobre o solo de uma humanidade comum, mas a multiplicidade que surge desse solo não é dedutível e é geralmente imprevisível, e a linguagem é o veículo da historicidade por excelência, criando e sustentando um solo temporal particular a cada concrescência.

33. A compreensão do passado é mais fácil para as camadas elementares da humanidade, mas as mutações históricas em sua diversidade infinita são o objeto genuíno do estudo histórico, e a linguagem, em suas camadas mais profundas e mais elevadas, é o que há de mais histórico e de mais difícil acesso.

34. A ideia de que o objeto genuíno do estudo histórico é a “própria” história, que revela as raízes da tradição, é verdadeira, mas a tradição alienígena também pode ser compreendida, e há algo a ser aprendido com ela, pois nenhuma voz significativa na orquestra do homem deve ser perdida.

35. A convicção da historicidade essencial do homem é ela própria um produto da história, e a história não é a última palavra da humanidade, pois não está escrito que o progresso deva reinar, e um estado de não-história ainda seria humano.

36. A insaciável curiosidade pela história pode ser um jogo sublime, e o conhecimento do atemporal pode ser mais importante para o homem do que a compreensão do temporal, mas, enquanto estivermos presos na corrente do devir, devemos nos esforçar para entender a história, sob pena de nela flutuarmos cegamente.

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