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Ferramenta

JONAS, Hans. Évolution et liberté. Paris: Payot & Rivages, 2004.

Ferramenta, Imagem e Tumba: Do Transanimal no Humano

1. A participação do humano na animalidade já era reconhecida antes do darwinismo, mas a teoria da evolução, ao explicar a origem humana por leis biológicas imanentes sem a intervenção de um novo princípio, constituiu um choque filosófico por parecer contestar radicalmente a imagem do homem ao dissolver a transcendência no monismo de uma natureza mecânica sem finalidade.

2. O “paralogismo genético” consiste em confundir a explicação da origem de uma propriedade humana, baseada em sua vantagem para a seleção natural, com o conhecimento de sua essência, deixando inexplorado o enorme excesso e luxo de fins autoproduzidos e plenamente autônomos que não têm mais nada de biológico.

3. Para compreender o que há de essencialmente transanimal no homem sem negar o que há de animal, propõe-se interpretar o transanimal como um novo grau de mediatidade na relação com o mundo, uma novidade de essência e não simplesmente de grau, que se superpõe à mediatidade já existente na existência orgânica e animal.

4. O método adotado para interrogar o sentido do transanimal consiste em selecionar alguns signos característicos do humano, optando pelo testemunho de artefatos visíveis, como a ferramenta, a imagem e a tumba, que surgem muito cedo e revelam a propriedade essencial do produtor, deixando de lado a linguagem por sua complexidade filosófica.

5. A ferramenta, o artefato mais antigo e mais próximo das finalidades vitais animais, é um objeto inerte fabricado artificialmente e com um propósito, que é interposto como mediador entre o órgão que age e o objeto sobre o qual se age, e sua inorgancidade é o avesso da liberdade que preside à sua invenção.

6. A liberdade na criação da ferramenta, embora ainda transanimal por sua motivação utilitária e sua relação com a necessidade animal, envolve um elemento eidético: a forma imaginada é imposta à matéria, supondo força eidética da imaginação e controle eidético da mão, situando-nos na faculdade imaginal humana.

7. A fabricação de imagens, ao contrário da ferramenta, manifesta, desde suas produções mais primitivas, não uma diferença de grau, mas a total diferença de essência com o animal, e a inutilidade biológica de toda representação pura é suficiente para nos convencer de que um simples animal não produziria uma imagem.

8. A imagem é a construção intencional de uma semelhança com o aspecto visual de uma coisa no meio estático da superfície de outra coisa, e essa semelhança não deve reproduzir o original, mas simplesmente “representá-lo”, permitindo uma extrema economia, exagero, deformação e estilização, desde que a intenção permaneça reconhecível.

9. A forma em si é geral, e a mesma imagem pode representar um número ilimitado de indivíduos, como a antilope nos desenhos do Bochiman, que não é esta ou aquela, mas qualquer antilope, e a representação que advém pela forma é essencialmente geral.

10. A percepção, em si, desconhece a representação e conhece apenas a apresentação pura e simples, e a forma imagética que dá o ausente representa uma dimensão conceitual própria, cuja estrutura envolve uma tripla distinção: imagem, suporte físico e objeto representado.

11. O princípio agente no sujeito para a fabricação e compreensão de imagens é a separação intencional do material e da forma, um estado de coisas especificamente humano, que nos faz não esperar do animal nem a fabricação nem a compreensão da imagem.

12. A tradução de um aspecto visual em uma semelhança material atinge um novo grau de mediatidade, onde a imagem é desvinculada do objeto, e a presença do *eidos* se torna independente da presença da coisa, havendo um recuo de segundo grau em relação à realidade.

13. A livre disposição da imagem é alcançada no exercício interior da força imaginal, a imaginação, que transcende a simples memória pela livre capacidade de reprodução, separando o *eidos* lembrado do evento do encontro individual e liberando sua posse das contingências do espaço e do tempo.

14. A forma lembrada pode ser traduzida da imaginação interior para uma imagem exterior, um souvenir exteriorizado que torna até certo ponto supérfluas as experiências efetivas ao colocar à disposição algo de seu conteúdo essencial.

15. O imitador das coisas, o *Homo pictor*, submete-se à medida da verdade, e a *adaequatio imaginis ad rem* que precede a *adaequatio intellectus ad rem* é a primeira forma de verdade teórica, precursora da verdade descritiva verbal e da verdade científica.

16. O imitador de coisas é também o criador de novidades, e a liberdade que escolhe a semelhança também pode escolher se afastar dela, abrindo a dimensão da liberdade que transcende a realidade atual e oferece um campo de infinitas variações.

17. A existência exterior das imagens, resultado da atividade humana, revela o poder do homem sobre seu corpo, o controle eidético da motricidade, onde a ideia se torna representação e a liberdade motriz repete a liberdade imaginativa.

18. O controle eidético da motricidade, com sua liberdade na realização exterior, completa o controle eidético da imaginação, e essa constatação de um controle eidético da motricidade, onde a atividade muscular é regida por uma forma livremente escolhida, é um fato transanimal especificamente humano.

19. A generalidade do nome é a generalidade da imagem, e a fabricação de imagens repete o ato criador dissimulado no nome, demonstrando a disponibilidade do *eidos* para a compreensão, a imaginação e o comentário humanos.

20. A tumba, o terceiro artefato, testemunha que aqui um ser, sujeito à mortalidade, reflete sobre a vida e a morte, desafia o testemunho dos olhos e eleva seu pensamento em direção ao invisível, pondo a ferramenta e a imagem a serviço de tal reflexão, e o culto dos ancestrais amplia a continuidade das gerações.

21. As formas fundamentais da ferramenta, da imagem e da tumba representam modos de mediatidade e de liberdade que os homens de todas as épocas compartilham, e a física, a arte e a metafísica são dimensões originárias na relação do homem com o mundo.

22. A ferramenta, a imagem e a tumba, ao transcenderem a imediatidade, são modos de mediatidade e liberdade, e suas presenças têm força de prova, embora a ausência de imagem e tumba possa ocorrer, mas a aptidão para elas é parte da plenitude da condição humana.

23. O princípio da mediatidade, que cresce através da evolução orgânica, culmina na capacidade humana de criar uma imagem de seu próprio ser e destino, e a reflexão sobre a mortalidade abre a dimensão da metafísica e da história, onde o eu se torna uma questão para si mesmo.

24. O *Homo pictor* representa o ponto onde *homo faber* e *homo sapiens* se encontram, e a faculdade imaginal, ao separar a forma da matéria, funda a liberdade teórica e prática, que são a base da tecnologia, da arte e da metafísica.

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